{"id":4977,"date":"2020-03-04T17:20:03","date_gmt":"2020-03-04T20:20:03","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=4962"},"modified":"2020-03-04T17:20:03","modified_gmt":"2020-03-04T20:20:03","slug":"a-educacao-resiste-entre-os-estudos-e-os-servicos-gerais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/a-educacao-resiste-entre-os-estudos-e-os-servicos-gerais\/","title":{"rendered":"A educa\u00e7\u00e3o resiste: entre os estudos e os servi\u00e7os gerais"},"content":{"rendered":"\n<p>Subindo a escada externa, no p\u00e1tio da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), que d\u00e1 direto \u00e0 porta lateral do audit\u00f3rio central, deparo com o sal\u00e3o vazio, acontecimento inusitado para quem n\u00e3o \u00e9 funcion\u00e1rio ou da organiza\u00e7\u00e3o de eventos. As luzes estavam apagadas, exceto por um c\u00f4modo pequeno, a Copa, onde \u00e9 preparado o caf\u00e9 dos servidores que trabalham no bloco A. Faltavam 15 minutos. Logo, \u00e0s 11h30, a famosa tia da limpeza da UEPG chegaria para uma conversa informal. Ali mesmo, nos bancos almofadados de madeira escura, um ao lado do outro, Roseli Vaz de Almeida, 51 anos, mulher, negra, graduada em Letras, mestranda em Estudos da Linguagem e funcion\u00e1ria da Universidade iria conceder o hor\u00e1rio de almo\u00e7o para uma conversa sobre a vida. O que \u00e9 a vida?&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto aguardava na terceira fileira do lado direito para quem entra pela porta principal, comecei a pensar nas extremidades sonoras daquele audit\u00f3rio. Neste dia, s\u00f3 estava eu, aguardando a entrevistada. N\u00e3o tinha pessoas circulando ou conversando, n\u00e3o tinha vozes sendo ampliadas por microfones, era um total sil\u00eancio. \u00c0s 11h20 da manh\u00e3, o \u00fanico som que preenchia o espa\u00e7o era da \u00e1gua fervente no fogo, vindo ali de dentro da copa. A \u00e1gua parou de ferver, ent\u00e3o come\u00e7aram os respingos que passavam pelo filtro e caiam na garrafa.&nbsp; Depois de alguns minutos, voltou o sil\u00eancio. O som foi transformado em olfato, pois o cheiro do caf\u00e9 pronto e feito na hora inundou todo o ambiente. Roseli saiu toda apressada com uma garrafa t\u00e9rmica de caf\u00e9 na m\u00e3o e avisou que j\u00e1 voltava para conversar.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta principal feita de vidro abriu e Roseli entrou no audit\u00f3rio. Estava com jaleco azul \u2013 uniforme usado por todas as servidoras da UEPG &#8211; o cabelo amarrado em forma de coque, perfeito como aquelas bolas grandes que enfeitam as \u00e1rvores de Natal. Com aparelho nos dentes, n\u00e3o hesitou e imediatamente abriu um grande sorriso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Roseli Almeida \u00e9 auxiliar de limpeza da UEPG h\u00e1 dez anos e ama o que faz. Nunca quis ficar fechada em uma sala cheia de pap\u00e9is, como mesma diz, \u201cgosto do agito do campus central, aqui as coisas n\u00e3o s\u00e3o paradas\u201d. \u00c9 graduada em Letras \u2013 Portugu\u00eas e Espanhol pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e estava fazendo algumas disciplinas do mestrado em Educa\u00e7\u00e3o. Neste ano de 2020 ela inicia seus estudos no Mestrado em Estudos da Linguagem. N\u00e3o pensa em parar de estudar, quer tentar o t\u00edtulo de doutora e n\u00e3o existe idade que a impe\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Natural de Guarapuava, mudou-se para Ponta Grossa aos dois anos de idade, logo ap\u00f3s o pai falecer. \u201cMeu irm\u00e3o perguntava se eu sentia falta, eu falei para ele que eu n\u00e3o sentia falta do pai, de chamar algu\u00e9m de pai. Meu irm\u00e3o se assustou, n\u00e9, ele tinha apenas seis anos\u201d, Roseli conta que nunca sentiu a falta porque n\u00e3o teve tanto contato quando era mais nova. \u201cEu tive meus tios, meu av\u00f4 paterno, que para mim era quase um pai de verdade\u201d. Enquanto olha para cima, como se estivesse ca\u00e7ando os sentimentos pela mem\u00f3ria, lembrou da primeira vez que sentiu a perda de algu\u00e9m pr\u00f3ximo, \u201cquando meu v\u00f4 faleceu, eu tinha 11 anos, essa foi a primeira vez que senti a falta de algu\u00e9m\u201d, relembra.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A m\u00e3e n\u00e3o teve escolaridade, mas era muito atenta com a localiza\u00e7\u00e3o. \u201cNunca perdeu um \u00f4nibus, se deixasse ela em Curitiba, com certeza iria voltar para a casa\u201d, comenta. A fam\u00edlia recebia pens\u00e3o pela morte do pai. Com quatro filhos pequenos para criar, a m\u00e3e come\u00e7ou a trabalhar como cozinheira em restaurantes para equilibrar as despesas da casa. Roseli conta que foi a filha mais mimada, a fam\u00edlia sentia pena por ter perdido o pai t\u00e3o cedo, ent\u00e3o cresceu at\u00e9 um pouco ego\u00edsta, brinca.<\/p>\n\n\n\n<p>A inf\u00e2ncia foi dentro de casa, com a fam\u00edlia incentivando nos estudos e leitura de livros; ela e seus irm\u00e3os n\u00e3o tinham o costume de brincar na rua. Roseli conta que a m\u00e3e sempre foi aberta, franca e mostrava os diversos lados da hist\u00f3ria, mas quem tinha que decidir eram eles pr\u00f3prios: \u201csempre fomos livres para decidir, lembro quando meu irm\u00e3o tinha 15 anos e falou para a minha m\u00e3e que estava com vontade de fumar cigarro, ela ofereceu um cigarro, mas explicou todos os preju\u00edzos. Ela mostrava o certo e o errado, a decis\u00e3o \u00e9 nossa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Roseli teve uma juventude livre. Na adolesc\u00eancia gostava muito de sair \u00e0 noite e achava estranho quando os amigos falavam que n\u00e3o podiam sair porque os pais n\u00e3o deixavam. A m\u00e3e de Roseli nunca proibiu de ir a festas, mas sempre alertou para os perigos do mundo e as consequ\u00eancias dos seus atos. Conferindo a hora no celular &#8211; t\u00ednhamos mais 20 minutos de conversa &#8211; lembrou quando experimentou o primeiro cigarro aos 17 anos e conta que nunca precisou fumar escondido da fam\u00edlia. Certo dia chegou em casa e falou para sua m\u00e3e que tinha come\u00e7ado a fumar. Mais uma vez, a m\u00e3e comentou pacificamente: \u201cessas s\u00e3o as suas escolhas, as consequ\u00eancias v\u00e3o ser suas. Mas s\u00f3 te digo uma coisa, nunca me pe\u00e7a dinheiro para comprar cigarro, quem tem o v\u00edcio que o sustente\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 15 anos de idade, matriculada no 2\u00ba ano do ensino m\u00e9dio, decidiu parar de estudar. A irm\u00e3 mais velha e eterna companheira entrou em coma e a doen\u00e7a desestabilizou emocionalmente toda a fam\u00edlia. Embora a fam\u00edlia levasse a educa\u00e7\u00e3o escolar importante, e Roseli fosse uma aluna extremamente focada, decidiu que aquele momento n\u00e3o conseguiria continuar na escola. \u201cSabe quando voc\u00ea n\u00e3o tem cabe\u00e7a para mais nada?\u201d, relembra. Foi um ano de idas e vindas ao m\u00e9dico. Logo ap\u00f3s o falecimento da irm\u00e3, a m\u00e3e entrou em depress\u00e3o. Para n\u00e3o ficar sem fazer nada, decidiu come\u00e7ar a trabalhar. O primeiro emprego foi no sal\u00e3o de beleza de uma prima. Mesmo n\u00e3o gostando de ser manicure, descobriu o dom de fazer unhas, \u201ceu fazia muito bem feito, por sinal\u201d. Roseli come\u00e7ou a trabalhar porque sua m\u00e3e havia ensinado a n\u00e3o depender de ningu\u00e9m. Ent\u00e3o, durante esses anos n\u00e3o teve oportunidade de voltar a estudar. Os av\u00f3s queriam que ela continuasse estudando, mas por rebeldia, decidiu ficar no sal\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de come\u00e7ar a contar sobre a viv\u00eancia da vida adulta, Roseli lembrou que precisava passar o dedo no ponto digital e saiu \u00e0s pressas. Voltou em dois minutos e quase perdendo o f\u00f4lego. Ao sentar na poltrona, recitou uma frase que sempre ouvia da m\u00e3e: \u201cn\u00e3o \u00e9 sua cor de pele que vai definir quem voc\u00ea \u00e9\u201d, comenta emocionada. Roseli conta que por ser negra e filha de uma mulher branca, as pessoas olhavam diferente. Na opini\u00e3o dela, o preconceito sempre foi mascarado, quando era nova, n\u00e3o tinha consci\u00eancia para identificar, mas depois de adulta come\u00e7ou a perceber estranhamentos que antes tratava com normalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de pedir a conta no sal\u00e3o da prima, Roseli come\u00e7ou a trabalhar em dois empregos. Das 8 \u00e0s 15 horas em um escrit\u00f3rio na Baldu\u00edno Taques e das 16h30 \u00e0s 22 horas na franquia de cosm\u00e9ticos e beleza Rainha. Foram dois anos nessa rotina, depois continuou apenas na Rainha. No ano de 2007, prestou o concurso para auxiliar de servi\u00e7os gerais da UEPG. No final de 2009 foi chamada para trabalhar na Universidade. Quando contou para as colegas de trabalho que tinha decidido trabalhar como servidora, algumas pessoas julgaram. \u201cMuita gente me criticou por sair de um estabelecimento que atendia pessoas de um certo n\u00edvel e come\u00e7ar a trabalhar com a limpeza\u201d. Foram essas cr\u00edticas que motivaram Roseli a aceitar o emprego.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s 20 anos longe das escolas e com 45 anos de idade, decidiu fazer a prova do Enem a fim de obter a certifica\u00e7\u00e3o do ensino m\u00e9dio. Com a nota inesperada, concluiu o ensino m\u00e9dio atrav\u00e9s do teste e aproveitou para se inscrever no programa de bolsas do Prouni, passando em 1\u00ba lugar no vestibular da Unicesumar no curso de bacharelado em Gest\u00e3o P\u00fablica e aguardando na lista de espera para o curso de Direito da Faculdade Cescage. No mesmo ano e j\u00e1 trabalhando na UEPG, se inscreveu para o curso de Letras da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o da classifica\u00e7\u00e3o, viu que tinha passado em 3\u00ba lugar pelo programa universal, foi um dos maiores picos de felicidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a gradua\u00e7\u00e3o, a funcion\u00e1ria acordava 4h30 da manh\u00e3 para come\u00e7ar a trabalhar 6h30, ficando at\u00e9 \u00e0s 12h30 na limpeza. No per\u00edodo da tarde, fazia o curso. Roseli nunca gostou de deixar servi\u00e7o de limpeza das salas para as colegas, ent\u00e3o n\u00e3o almo\u00e7ava para conseguir limpar tudo antes da aula que come\u00e7ava \u00e0s 13h30. Ela conta que muitas vezes precisou sair antes da aula para bater o ponto digital \u00e0s 17 horas e ainda voltar a trabalhar no per\u00edodo da noite. Concluiu o curso em quatro anos, e nos \u00faltimos tr\u00eas recorreu ao ensino \u00e0 dist\u00e2ncia, devido ao cansa\u00e7o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Roseli \u00e9 uma pessoa feliz. N\u00e3o gosta muito de ir na casa de parentes, prefere o \u201ccanto\u201d dela. A \u00fanica parente que visitava era a av\u00f3, mas depois que ela faleceu, nunca mais retornou com o h\u00e1bito. No final da conversa, arrumou os \u00f3culos e explicou o que \u00e9 a felicidade. Contou que ser feliz n\u00e3o \u00e9 um est\u00e1gio constante, mas sim, momentos espec\u00edficos que ficam guardados para sempre na mem\u00f3ria. \u201cSe fui feliz naquele momento, \u00f3timo! Vamos esperar o pr\u00f3ximo\u201d. Ent\u00e3o levantou, eu agradeci e me desculpei pelo tempo roubado do almo\u00e7o, ela apenas me respondeu: \u201cfoi \u00f3timo reviver isso\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p> <em>Produ\u00e7\u00e3o realizada em parceria com a disciplina de Estudos da Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura da 3\u00b0 s\u00e9rie do curso de bacharelado em Jornalismo sob a supervis\u00e3o da professora Karina Janz Woitowicz<\/em>. <br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Subindo a escada externa, no p\u00e1tio da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), que d\u00e1 direto \u00e0 porta lateral do audit\u00f3rio central, deparo com o sal\u00e3o vazio, acontecimento inusitado para quem n\u00e3o \u00e9 funcion\u00e1rio ou da organiza\u00e7\u00e3o de eventos. 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