{"id":5144,"date":"2020-04-29T20:39:25","date_gmt":"2020-04-29T23:39:25","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=5144"},"modified":"2020-04-29T20:39:25","modified_gmt":"2020-04-29T23:39:25","slug":"a-minha-casa-e-a-mais-antiga-de-todas-daqui-do-bonsucesso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/a-minha-casa-e-a-mais-antiga-de-todas-daqui-do-bonsucesso\/","title":{"rendered":"\u201cA minha casa \u00e9 a mais antiga de todas daqui do Bonsucesso\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Rosa Pietrochinski nasceu no dia 30 de agosto de 1930, na Col\u00f4nia Taquari dos Polacos, em Ponta Grossa. Quando era jovem, trabalhava na ro\u00e7a plantando mandioca, milho, arroz. Eram em cinco irm\u00e3os: dois rapazes e tr\u00eas mo\u00e7as e, desde muito pequenos, ajudavam os pais na lavoura. Rosa comenta que veio de uma fam\u00edlia humilde, que os \u00fanicos patrim\u00f4nios que tinham eram a casa e o terreno. Mas ela refor\u00e7a que, apesar de a fam\u00edlia ser simples, todos foram muito bem criados. Nasceu e cresceu na religi\u00e3o cat\u00f3lica pois, al\u00e9m de ser descendente de poloneses, praticar uma religi\u00e3o fazia parte de uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade para os filhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia de Rosa frequentava a igreja Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus (mais conhecida como igreja dos Polacos), no centro de Ponta Grossa, que at\u00e9 ent\u00e3o era a \u00fanica igreja mais pr\u00f3xima \u00e0 sua casa. Iam \u00e0 missa quase todos os domingos. Ela relembra que, naquela \u00e9poca, a estrutura atual estava sendo constru\u00edda com a ajuda de seu pai e seus tios. Rosa descreve a antiga igreja: \u201cEra uma igreja bem pequena, ficava bem na esquina e a parede da igreja beirava a rua. E n\u00e3o era asfalto, era cal\u00e7amento de pedra\u201d. Nesta mesma igreja ela foi batizada, fez primeira comunh\u00e3o e foi crismada. Muitos poloneses frequentavam a igreja Sagrado Cora\u00e7\u00e3o. Rosa comenta que a prega\u00e7\u00e3o da missa era feita em portugu\u00eas e a mesma era feita em polon\u00eas tamb\u00e9m, porque os poloneses n\u00e3o sabiam falar portugu\u00eas. \u201cAh, mas pensa que podia ir na igreja de manga curta? Ou vestido que mostrasse o joelho? N\u00e3o podia nem entrar na igreja assim\u201d, recorda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Aos seus onze anos de idade, Rosa conheceu In\u00e1cio. Ela conta que ele era quatro anos mais velho que ela, mas desde que se conheceram, ele j\u00e1 falava que gostava dela. At\u00e9 que chegou um dia (Rosa j\u00e1 era mo\u00e7a, mas n\u00e3o se recorda a idade) que os dois se encontraram na casa de um tio dela, e este mesmo tio era padrinho de batismo de In\u00e1cio. \u201cDa\u00ed ele falou pra minha m\u00e3e que n\u00e3o era pra ela deixar eu me casar com ningu\u00e9m, porque ele iria se casar comigo\u201d, relata Rosa, dando um sorriso.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 20 anos casou-se com In\u00e1cio Grzebelucka, na Par\u00f3quia S\u00e3o Jos\u00e9, em Ponta Grossa e passou a assinar como Rosa Grzebelucka. Ainda nesta \u00e9poca moravam na Col\u00f4nia Taquari dos Polacos e trabalhavam na ro\u00e7a. Logo ganharam a primeira filha. Quando ela nasceu, continuaram indo para a lavoura, mas amarravam uma rede e deixavam a crian\u00e7a l\u00e1 e Rosa voltava somente para amamentar.<\/p>\n\n\n\n<p>E nessa situa\u00e7\u00e3o de deixar a crian\u00e7a em uma rede, ela pegou um berne na cabe\u00e7a. Rosa conta que o marido ficou preocupado pois n\u00e3o sabia como curar a menina. A esposa ent\u00e3o contou que j\u00e1 sabia como tirar o berne, porque l\u00e1 na col\u00f4nia, todo mundo que ia na ro\u00e7a, pegava: \u201cEra s\u00f3 pegar uma \u00e1rvore que chamavam de Pau de Leite e riscar o tronco com alguma coisa afiada e escorria um l\u00edquido bem igual leite. Era s\u00f3 pegar esse l\u00edquido com algum papel e grudar aonde tinha o berne, porque ele ficava envenenado com aquilo e sa\u00eda.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de a crian\u00e7a n\u00e3o ter se ferido gravemente e nem ter ficado com sequelas, In\u00e1cio decidiu sair da Col\u00f4nia e procurar uma casa na cidade, para n\u00e3o levar mais a filha na ro\u00e7a. A cidade, como relembra Rosa, se concentrava nas avenidas Ernesto Vilela, Baldu\u00edno Taques e Vicente Machado. A Ernesto Vilela era uma rua de terra, de ch\u00e3o esburacado e a cal\u00e7ada para pedestres s\u00f3 existia na Baldu\u00edno Taques e Vicente Machado. E ali para os lados da Ronda era um \u201ccapoeir\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>In\u00e1cio estava \u00e0 procura de um emprego como ferreiro, pois era o que sabia fazer al\u00e9m dos trabalhos da lavoura. Conseguiu o servi\u00e7o nas imedia\u00e7\u00f5es da Avenida Souza Naves, na sa\u00edda para o Norte do Estado. Na \u00e9poca, era s\u00f3 uma rua e nem se imaginava que futuramente se tornaria uma Rodovia importante para o pa\u00eds. N\u00e3o era no centro, mas a regi\u00e3o tamb\u00e9m estava em desenvolvimento. O patr\u00e3o logo arrumou uma casa perto da ferraria, para que a fam\u00edlia \u2013 In\u00e1cio, Rosa e a filha mais velha, que ent\u00e3o tinha tr\u00eas anos &#8211; se instalasse.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas como eles estavam morando de aluguel, Rosa desejava ter sua casa pr\u00f3pria. Ficara sabendo que, pr\u00f3ximo \u00e0 ferraria, mas do outro lado da avenida, abriu um loteamento: o Bonsucesso. O marido foi, ent\u00e3o, dar uma olhada: a regi\u00e3o era (e ainda \u00e9) muito desnivelada, de maneira que todos os lotes tinham algum caimento, alguns mais \u00edngremes, outros nem tanto. Rosa conta que In\u00e1cio tinha ido olhar \u00e0 noite, com uma lanterna e nenhum dos lotes tinham lhe agradado. Acabou escolhendo um terreno bem na baixada, onde o caimento n\u00e3o era t\u00e3o \u00edngreme.<\/p>\n\n\n\n<p>\tRosa e In\u00e1cio foram os primeiros moradores do, agora, Bairro Bonsucesso. Embora alguns lotes j\u00e1 tivessem sido comprados, em 1955 eles constru\u00edram a primeira casa e foram a primeira fam\u00edlia a se instalar na regi\u00e3o. Rosa lembra que n\u00e3o tinham energia el\u00e9trica e, desde que mudaram para o Bonsucesso, ficaram os 25 anos seguintes sem luz. \u00c1gua s\u00f3 tinha em casa quem fizesse po\u00e7o no quintal. Entretanto, como os terrenos n\u00e3o eram planos, nem sempre encontrava-se \u00e1gua e os vizinhos tinham que compartilhar do mesmo po\u00e7o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\tRosa teve, ao todo, quatro filhos. Somente a mais velha nasceu na ro\u00e7a, os outros tr\u00eas nasceram todos na mesma casa. Ela conta que viveu cinquenta e cinco anos casada:&nbsp; comemoraram bodas de prata com vinte e cinco anos e bodas de ouro com cinquenta. Mas faltando uma semana pra ele completar oitenta anos, em 2005, veio a falecer. Ela desconfia que ele faleceu por causa da vacina da gripe, pois na semana anterior \u00e0 morte, estava bem e tomou a vacina. Alguns dias depois pegou gripe e acabou morrendo.<\/p>\n\n\n\n<p>\tHoje, aos 89 anos de idade, Rosa mora sozinha na mesma casa que h\u00e1 64 anos construiu com o falecido marido. Ela mesma \u00e9 quem limpa a casa e cuida do quintal. Tem uma diarista apenas para lavar suas roupas. Ela deixa a casa sempre em ordem, sempre limpa. E no quintal &#8211; onde tem bastante espa\u00e7o \u2013 cria algumas galinhas e preza pelas \u00e1rvores frut\u00edferas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\tRosa sofre de dores nas pernas e acredita que seja consequ\u00eancia das longas dist\u00e2ncias que percorria quando morava na Col\u00f4nia ou, mesmo quando j\u00e1 morava no Bonsucesso, precisava ir ao centro. Al\u00e9m de ter perdido o marido, Rosa tamb\u00e9m tem uma filha falecida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\tDurante a entrevista, Rosa mostra o \u00e1lbum de fotografias das bodas de 50 anos do casamento com In\u00e1cio. Mostra algumas pessoas, mas por causa da pouca vis\u00e3o n\u00e3o consegue identific\u00e1-las corretamente. Ela fez cirurgia nos olhos e, mesmo usando \u00f3culos, n\u00e3o enxerga bem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p> Rosa Grzebelucka conta orgulhosa que todos os filhos casaram e que tem nove netos e seis bisnetos. A filha mais velha, j\u00e1 vi\u00fava tamb\u00e9m, mora no mesmo bairro que a m\u00e3e e a ajuda em alguma dificuldade. Os outros filhos moram em outras cidades. Ela conta espantada que mesmo vindo de uma fam\u00edlia humilde e pobre, os filhos s\u00e3o todos trabalhadores e boas pessoas. D\u00e1 gra\u00e7as a Deus por isso e pelos netos terem estudado, pois a maioria \u00e9 formado em alguma universidade. Rosa preza muito pela religi\u00e3o, diz contente que todos os filhos frequentam a igreja e que ela sempre est\u00e1 com a televis\u00e3o ligada em algum canal cat\u00f3lico e nunca deixa de rezar. Por \u00faltimo comenta que dificilmente sai de casa, mas que, quando d\u00e1 certo, vai na vizinha, Anast\u00e1cia, que \u00e9 a \u00fanica com quem ainda pode relembrar o seu idioma polon\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p> <em>Produ\u00e7\u00e3o realizada em parceria com a disciplina de Estudos da Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura da 3\u00b0 s\u00e9rie do curso de bacharelado em Jornalismo sob a supervis\u00e3o da professora Karina Janz Woitowicz<\/em>. <br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rosa Pietrochinski nasceu no dia 30 de agosto de 1930, na Col\u00f4nia Taquari dos Polacos, em Ponta Grossa. Quando era jovem, trabalhava na ro\u00e7a plantando mandioca, milho, arroz. Eram em cinco irm\u00e3os: dois rapazes e tr\u00eas mo\u00e7as e, desde muito pequenos, ajudavam os pais na lavoura. 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