{"id":5160,"date":"2020-05-07T17:15:11","date_gmt":"2020-05-07T20:15:11","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=5160"},"modified":"2020-05-07T17:15:11","modified_gmt":"2020-05-07T20:15:11","slug":"autismo-pelos-olhos-de-uma-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/autismo-pelos-olhos-de-uma-mae\/","title":{"rendered":"Autismo pelos olhos de uma m\u00e3e"},"content":{"rendered":"\n<p>Mulher de pele branca com algumas manchas avermelhadas pelo rosto, olhos da cor do c\u00e9u e nascida em Arabut\u00e3, no Estado de Santa Catarina, n\u00e3o passa de 1,60 de altura. Cabelos lisos e finos de cor castanho claro, vestia uma roupa simples e confort\u00e1vel, um rabo de cavalo baixo e, no p\u00e9, um chinelo pink. Vinda de uma fam\u00edlia de classe m\u00e9dia, nunca morou mais do que um ano na mesma cidade. Sem ter casa e amigos fixos, \u00e9 quase uma migrante, j\u00e1 que viveu em Arabut\u00e3, Mallet, Mandaguari, Castro, Conc\u00f3rdia e Ponta Grossa, onde est\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas anos. Filha de mec\u00e2nico de m\u00e1quina pesada que trabalhava em uma empresa de asfalto e de uma dona de casa, tem dois irm\u00e3os e duas irm\u00e3s, sendo ela a filha do meio. Esta \u00e9 Janaina Mara Pereira, de 40 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascida em 1979, Jana, como \u00e9 chamada pelos mais pr\u00f3ximos, durante a inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia morou em casas de classe m\u00e9dia ofertadas pela empresa que o pai, Conrado Cardoso Pereira, trabalhava. Gostava da vida que levava como viajante, pois conhecia lugares novos. \u201cAos 10 anos de idade queria casar com um caminhoneiro para sempre estar viajando\u201d, dizia. Mas, ao mesmo tempo, era dif\u00edcil fazer amizades, j\u00e1 que quando conseguia amigos precisava mudar de cidade. Quando crian\u00e7a, Janaina tinha o sonho de ser professora, at\u00e9 come\u00e7ou o magist\u00e9rio, por\u00e9m sua m\u00e3e a tirou do curso porque ela precisava ajudar em casa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/IGeHMkok-6hdZ16glT5yaMKC4IBS-Ag7MGH1-u6KiW2KCoAJ4BZVAiltB8q_6WbsqE4GaR_7JHHx3h44dmNO1l3pPAIgfEz-2JLmQzSr4bbE30Ul2btZTC7M9A6TH0YYScsA5Ktszuh55quxVxkBV-g\" alt=\"\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Janaina Mara Pereira, 40<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Janaina sempre foi uma aluna dedicada, daquela que sentava na frente da classe e com apenas duas explica\u00e7\u00f5es do professor j\u00e1 entendia toda a mat\u00e9ria. A lembran\u00e7a mais viva que mant\u00e9m de uma das suas escolas foi a que mais sofreu. Em Mallet, a implic\u00e2ncia vinha da pr\u00f3pria professora, fazendo com que Janaina odiasse ir \u00e0 escola. Em Mandaguari guarda boas lembran\u00e7as, por\u00e9m j\u00e1 aos oito anos pegava \u00f4nibus sozinha com Sim\u00e3o, seu irm\u00e3o mais novo de seis anos de idade e o levava junto para a escola, pois n\u00e3o tinha quem cuidasse dele.<\/p>\n\n\n\n<p>De Castro, tamb\u00e9m tem boas lembran\u00e7as, apesar de ter perdido parte da sua inf\u00e2ncia e toda a adolesc\u00eancia, pois desde muito nova tinha grandes responsabilidades. Precisou se tornar uma pessoa adulta logo cedo para cuidar da casa e dos irm\u00e3os mais novos. Aprendeu a cozinhar e em 1988, aos 10 anos, quando o pai ficou doente, j\u00e1 cuidava do irm\u00e3o mais novo que tinha apenas dois meses. \u201cEu falo que aos 10 anos a minha boneca chorava, cagava, assava\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 32 anos de idade Janaina come\u00e7ou o curso de Seguran\u00e7a do Trabalho em Castro. Sa\u00eda \u00e0s nove da manh\u00e3 e s\u00f3 voltava para casa \u00e0s nove e meia da noite, pegando 10 \u00f4nibus por dia. A m\u00e3e, Ivoni Maria Pereira, privava a filha de sair, nenhuma amiga ou namorado era bom o suficiente e nada do que fazia estava bom. Janaina almejava a liberdade de uma vez por todas e fazendo o curso superior foi onde encontrou a independ\u00eancia. O curso de Seguran\u00e7a do Trabalho foi reabilita\u00e7\u00e3o do INSS devido a uma tendinite no punho que se tornou h\u00e9rnia de disco por ter trabalhado desde os 19 anos em uma em empresa que fabricava pinc\u00e9is.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A implic\u00e2ncia da m\u00e3e com Janaina n\u00e3o era tanta quando o pai ainda estava vivo, mas depois de sua morte, em 1989, o relacionamento piorou. N\u00e3o entendia a raz\u00e3o da frieza, sendo que ela sempre esteve ao seu lado. Hoje enxerga como li\u00e7\u00e3o tudo o que a m\u00e3e fez, mas carrega em seu cora\u00e7\u00e3o algumas m\u00e1goas de hist\u00f3rias do passado que com o tempo n\u00e3o foram esquecidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cinco filhos eram como uma gangue, quando o mais novo aprontava os quatro mais velhos apanhavam. Uni\u00e3o que se desfez ap\u00f3s a morte da m\u00e3e. Os irm\u00e3os de Jana, assim que a m\u00e3e partiu, a expulsaram de casa sem ao menos ela ter a chance de levar os pertences. Eles nunca mais tiveram contato.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Janaina e Josu\u00e9 Pereira, que \u00e9 caminhoneiro h\u00e1 15 anos, tem uma uni\u00e3o est\u00e1vel. A hist\u00f3ria de como se conheceram pode ser descrita como caso do destino. Mesmos amigos, mesmos lugares e os terrenos das casas que se encontravam. Sete anos e nunca se viram. Mas em 2012, tudo mudou quando Janaina precisou de carona do est\u00e1gio at\u00e9 a casa de sua m\u00e3e e ele foi busc\u00e1-la. No come\u00e7o n\u00e3o simpatizou com ele, tendo uma primeira impress\u00e3o que com o tempo foi se modificando. Foram se conhecendo, conversando, passavam a noite juntos e o seu jeitinho foi conquistando-a aos poucos. Mas Janaina n\u00e3o queria nada s\u00e9rio no momento, al\u00e9m do seu ex-namorado dar sinais de querer reatar o relacionamento. Ela, ent\u00e3o, decide que vai se afastar de Josu\u00e9, mas acaba engravidando no final do semestre do curso em novembro de 2012. Ela tinha 32 e ele 35 anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Janaina tinha gravidez de risco por conta do \u00fatero baixo e j\u00e1 havia sofrido tr\u00eas hemorragias. Ela, que tinha tanta certeza de que seria uma menina, descobriu o sexo do beb\u00ea com quatro meses de gesta\u00e7\u00e3o no dia do seu anivers\u00e1rio. E a\u00ed vem a surpresa, um menino! A decis\u00e3o do nome foi r\u00e1pida, o pai queria Pedro Henrique, Henrique em homenagem ao falecido cunhado que tamb\u00e9m era caminhoneiro e uma pessoa muito pr\u00f3xima. Contudo, Pedro foi logo descartado pela m\u00e3e que tinha p\u00e9ssimas lembran\u00e7as desse nome. Foi ent\u00e3o que o nome Davi veio naturalmente, e como bons descendentes de italianos, o uso de dois nomes era tradi\u00e7\u00e3o, resultando em Davi Henrique Pereira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a gravidez Davi j\u00e1 apontava sintomas do autismo. Barulho do aspirador, eletrodom\u00e9sticos ou at\u00e9 mesmo m\u00fasica faziam com que a barriga de Janaina endurecesse e ela sentisse c\u00f3lica. Conforme os meses de gesta\u00e7\u00e3o passavam, os sinais eram mais vis\u00edveis, o beb\u00ea mal se mexia e era quieto. Mas Jana achava que era normal e disse em tom de brincadeira que o filho seria chato como ela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e s\u00f3 foi descobrir o autismo do filho quando ele j\u00e1 tinha quatro anos e meio devido ao curso de Pedagogia que ela iniciou, mas precisou parar por conta dos gastos tendo que fazer uma escolha entre o sonho de se tornar professora ou o filho.&nbsp; Davi, que tem autismo leve, \u00e9 muitas vezes visto pelas pessoas e por profissionais da sa\u00fade como uma crian\u00e7a manhosa, tratando-o com grosseria, indelicadeza e insensatez.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas n\u00e3o t\u00eam informa\u00e7\u00e3o e entendimento sobre o que \u00e9 o autismo e como \u00e9 ter uma crian\u00e7a autista, de acordo com Janaina. Todas as vezes que sai com Davi, n\u00e3o passa mais do que uma tarde fora de casa. A sa\u00edda \u00e9 pensada no filho e para evitar olhares julgadores, coment\u00e1rios desnecess\u00e1rios e muitas vezes ofensivos, al\u00e9m de explica\u00e7\u00f5es \u00e0s outras pessoas, Janaina prefere optar pelo uso de uma camiseta que ela mesma pensou baseado em modelos vistos na internet e mandou fazer.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/VDLyetPAl9eYHGM2MjL5pifGVBuOqwalASvCS7UIune12sSVfj-4Zq4QGJyC_fw2L7ZPlQflV6tUMW703-F-01clwzjCXSb090lvAKG9a1wSlDn7ne3ubImdwoR8IPonXJ7PA5hkaFKI9OnK1oZbjdM\" alt=\"\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Davi, 6, com a camiseta \u201ckeep calm sou autista\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O uso da camiseta causou uma luta interna em Janaina. Ela achava que isso seria expor demais o filho, at\u00e9 passar por uma situa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel no \u00f4nibus metropolitano na volta de Castro para Ponta Grossa por estar sentada em um banco preferencial. Uma idosa queria que ela sa\u00edsse e discutindo com a senhora precisou explicar que o filho era autista. Esse caso a levou \u00e0s l\u00e1grimas e a refletir sobre o que era realmente expor o filho. \u201c\u00c9 expor ele, mas ao mesmo tempo \u00e9 ajudar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Janaina sempre quis ser m\u00e3e. Por cuidar dos irm\u00e3os e depois dos sobrinhos, sempre se sentiu como uma. A chegada do Davi foi a confirma\u00e7\u00e3o desse sentimento: \u201c\u00e9 um sonho realizado\u201d. Contudo, ser m\u00e3e de uma crian\u00e7a autista exige enfrentar dificuldades e os gastos v\u00eam em dobro. \u201c\u00c9 voc\u00ea ir do inferno ao para\u00edso em segundos\u201d. O cansa\u00e7o psicol\u00f3gico, f\u00edsico e emocional toma conta e leva ao estresse. Mas ao mesmo tempo, nas palavras de Janaina, \u00e9 o amor mais sincero que um ser humano tem a oferecer ao outro. Ela se emociona mais uma vez ao falar do filho e lembrar dos momentos que ele acariciou o seu rosto e disse que a amava. \u201c\u00c9 um amor que ningu\u00e9m sabe como \u00e9. \u00c9 sincero\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao pedir para que ela em uma frase resumisse o que \u00e9 ser m\u00e3e do Davi, Janaina d\u00e1 uma longa pausa e diz: \u201cFui aben\u00e7oada\u201d. Em seu bra\u00e7o esquerdo, pr\u00f3ximo ao cotovelo, Janaina deixou registrado eternamente o nome do filho com um s\u00edmbolo do infinito. Acordo que tinha feito com o marido ainda na gravidez, mas que s\u00f3 ela teve a coragem de cumprir.&nbsp;<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mulher de pele branca com algumas manchas avermelhadas pelo rosto, olhos da cor do c\u00e9u e nascida em Arabut\u00e3, no Estado de Santa Catarina, n\u00e3o passa de 1,60 de altura. 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