{"id":5186,"date":"2020-05-13T20:16:05","date_gmt":"2020-05-13T23:16:05","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=5186"},"modified":"2020-05-13T20:16:05","modified_gmt":"2020-05-13T23:16:05","slug":"na-contramao-do-contrabando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/na-contramao-do-contrabando\/","title":{"rendered":"Na contram\u00e3o do contrabando"},"content":{"rendered":"\n<p>Para quem ultrapassa os limites do Cal\u00e7ad\u00e3o e avan\u00e7a para a Rua Fernandes Pinheiro, no sentido da Esta\u00e7\u00e3o Saudade, \u00e9 muito f\u00e1cil se deparar com feirantes, cambistas e pessoas distribuindo panfletos publicit\u00e1rios. Esse fluxo de indiv\u00edduos trabalhando sob o sol j\u00e1 faz parte do cen\u00e1rio para muitos ponta-grossenses que passam diariamente por ali. Em frente \u00e0 entrada lateral do Terminal Central de \u00f4nibus, a feira de artesanatos da Pra\u00e7a Jo\u00e3o Pessoa esconde entre seus quiosques de antiguidades, \u00f3culos de sol, carrinhos de espetinhos e produtos org\u00e2nicos, o n\u00famero real de transa\u00e7\u00f5es comerciais que acontecem de m\u00e3o em m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre o vai e vem das pessoas segurando sacolas coloridas do Loj\u00e3o do Keima e da 10 e 15, chama a aten\u00e7\u00e3o a figura est\u00e1tica das mulheres sentadas em caixotes de madeira &#8211; algumas sentadas nas suas pr\u00f3prias mochilas cheias de mercadoria &#8211; contando moedas ou equilibrando pares de caixas de cigarro entre os dedos. Em m\u00e9dia, cinco a sete mulheres, que aparentam de 45 a 70 anos, rondam a \u00e1rea da Pra\u00e7a Jo\u00e3o Pessoa e demarcam seus pr\u00f3prios pontos de venda. Algumas buscam na sombra das \u00e1rvores um local para se proteger do sol e da fiscaliza\u00e7\u00e3o. Outras j\u00e1 v\u00eam preparadas com chap\u00e9us, \u00f3culos de sol e cadeiras de praia. Engana-se quem pensa que essas senhoras est\u00e3o aproveitando o lazer da tarde para observar o movimento da rua. Creio que elas esperam sim ver o mar, mas um mar de gente, prov\u00e1veis clientes, para que na primeira oportunidade possam oferecer: \u201cCigarro&#8230; Cigarro?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tento puxar conversa com uma delas. Me aproximo de uma mulher que est\u00e1 de p\u00e9 segurando um box de cigarro da marca Mill. Ela parece ser uma mulher jovem, aparenta ter entre 40 a 45 anos, sua pele \u00e9 lisa e tem a cor quente como cacau, seu cabelo est\u00e1 preso por um rabo de cavalo e usa uma viseira rosa com desenhos em branco para proteger o rosto do sol. Aparenta ser vaidosa e en\u00e9rgica, vestia roupas justas de academia e um t\u00eanis aparentemente confort\u00e1vel. &#8220;Boa tarde mo\u00e7a, voc\u00ea tem Pallermo a\u00ed?&#8221;, pergunto buscando a marca de cigarro de minha prefer\u00eancia. &#8220;Poxa fia\u201d, responde a mulher com uma voz de lamento, \u201cPallermo eu n\u00e3o tenho mais&#8221;. Rapidamente ela abre uma das sacolas e remexe os box das mais variadas marcas de cigarros. &#8220;Tenho Mill, Classic e Eight. Esse \u00faltimo chegou de S\u00e3o Paulo&#8221;. Quando ela percebe meu descontentamento pela oferta das marcas, como uma \u00e1gil vendedora, ela pediu para que eu aguardasse um momento e gritou para a companheira que estava a aproximadamente 7 metros da nossa conversa. &#8220;Oh, Maria&#8230; Tem Pallermo a\u00ed?&#8221;. Maria, uma senhora n\u00e3o t\u00e3o simp\u00e1tica quanto a mo\u00e7a que me atendeu, aparentava ter mais de 60 anos. Ap\u00f3s olhar com estranheza para n\u00f3s, respondeu com uma express\u00e3o fechada, como de quem \u00e9 interrompida de um sono profundo. &#8220;Pallermo n\u00e3o tem j\u00e1 faz tempo&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPode ser um Classic ent\u00e3o\u201d, retomo nossa conversa com uma nota de R$5 j\u00e1 em m\u00e3os. Eu aguardo o troco, mas logo ela explica que por conta das mudan\u00e7as nas leis paraguaias, o cigarro estava mais caro. \u201cDaqui a pouco vamos ter que vender cigarro brasileiro, quase n\u00e3o compensa mais porque o pre\u00e7o desses [paraguaios] subiu muito\u201d, reclama a vendedora enquanto guarda o dinheiro na pochete presa \u00e0 cintura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2018, o n\u00famero de cigarros ilegais superou a quantidade de produtos vendidos legalmente no pa\u00eds. Esse dado foi constatado pelo Instituto Brasileiro de Opini\u00e3o P\u00fablica e Estat\u00edstica (Ibope), e revela que no ano passado foram consumidos 106,2 bilh\u00f5es de cigarros, dos quais 57,5 bilh\u00f5es de unidades eram de cigarros contrabandeados, cerca de 54%. A maior parte dos cigarros contrabandeados que entra no Brasil \u00e9 produzida no Paraguai. L\u00e1, a tributa\u00e7\u00e3o sobre os fabricantes \u00e9 de 16%, muito menor do que os 80% cobrados no Brasil. A diferen\u00e7a na cobran\u00e7a tribut\u00e1ria garante aos produtos ilegais pre\u00e7os muito inferiores aos dos produtos legais, uma concorr\u00eancia quase desleal que compete com a alta atratividade dos pre\u00e7os mais baixos, mas n\u00e3o pela qualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo pesquisa realizada em 2013 pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), foram encontrados insetos, areia, terra, pelos, coliformes fecais, pl\u00e1sticos e fungos em cinco marcas de cigarros frequentemente contrabandeadas para o Brasil. Al\u00e9m disso, em 65% das marcas pesquisadas, foram observadas elevadas concentra\u00e7\u00f5es de elementos qu\u00edmicos como n\u00edquel, c\u00e1dmio, cromo e chumbo e o dobro da concentra\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de ars\u00eanio encontrado em cigarros nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu pego o cigarro com uma das m\u00e3os e com a outra acendo o isqueiro. Fumo um Classic enquanto espero, do lado de fora do Terminal, meu \u00f4nibus chegar na plataforma Palmeirinha. Aproveito o tempo do cigarro para jogar conversa fora. A mo\u00e7a que havia me vendido o cigarro se chama Suzane, tem 43 anos, est\u00e1 desempregada h\u00e1 cinco e faz bicos para ajudar nas contas de casa. \u201cL\u00e1 em casa, meu marido e meu filho mais velho ajudam nas contas. Eu sei que \u00e9 errado o que eu estou fazendo, mas \u00e9 ainda mais errado deixar as minhas duas [filhas] mais novas passar fome\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela puxa o celular e mostra a foto das filhas Cristiane de 12, e \u00c1gatha de 7. \u201cS\u00e3o os meus tesouros, elas e o \u00c9rik [17 anos]\u201d, mostrando o largo sorriso de m\u00e3e orgulhosa. \u201cEu quero que elas estudem, arrumem um emprego com carteira assinada, n\u00e3o quero que elas tenham que passar pelas dificuldades que eu e meu marido enfrentamos todo dia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes mesmo de eu pensar em alguma outra pergunta, vejo de longe meu \u00f4nibus entrar no Terminal. Eu apago o cigarro e agrade\u00e7o a Suzane pela conversa. Ela agradece com um sorriso e volta a sentar na sua caixa de madeira.<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para quem ultrapassa os limites do Cal\u00e7ad\u00e3o e avan\u00e7a para a Rua Fernandes Pinheiro, no sentido da Esta\u00e7\u00e3o Saudade, \u00e9 muito f\u00e1cil se deparar com feirantes, cambistas e pessoas distribuindo panfletos publicit\u00e1rios. Esse fluxo de indiv\u00edduos trabalhando sob o sol j\u00e1 faz parte do cen\u00e1rio para muitos ponta-grossenses que passam diariamente por ali. 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