{"id":5265,"date":"2020-05-20T19:51:45","date_gmt":"2020-05-20T22:51:45","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=5265"},"modified":"2020-05-20T19:51:45","modified_gmt":"2020-05-20T22:51:45","slug":"um-sapateiro-e-muitas-historias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/um-sapateiro-e-muitas-historias\/","title":{"rendered":"Um sapateiro e muitas hist\u00f3rias"},"content":{"rendered":"\n<p>No momento que decidi escrever sobre a profiss\u00e3o de sapateiro, n\u00e3o pude imaginar o grande trabalho que \u00e9 consertar \u201cos p\u00e9s\u201d de algu\u00e9m. Agora entendo o suficiente para dizer que sapatos, t\u00eanis, sand\u00e1lias, ou mesmo as botas conhecem todos os caminhos por onde andamos. Cheguei na sapataria do Oscar Ribeiro Martim Junior, um senhor de 63 anos, como um sapato para ser consertado. Tr\u00eas anos em jornalismo e a afli\u00e7\u00e3o de entrevistar pessoas e escrever um perfil. Sai da universidade \u00e0s nove horas em ponto, cheguei na sapataria ap\u00f3s quinze minutos e dez quadras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\tEscondida no subsolo de um pr\u00e9dio na esquina com a Rua Sant\u2019Ana e a Avenida Dr. Vicente Machado no centro de Ponta Grossa, a Sapataria Junior funciona consertando cal\u00e7ados, bolsas e at\u00e9 roupas que as pessoas n\u00e3o querem desapegar. N\u00e3o julgo os apegados! Sempre h\u00e1 quem tenha um par de t\u00eanis que usa at\u00e9 a sola rasgar.<\/p>\n\n\n\n<p>\tQuando entrei no local o ambiente se mostrou t\u00e3o claro quanto os corredores de um hospital. Na parede do lado direito, um arm\u00e1rio vermelho com compartimentos quadrados estava abarrotado de cal\u00e7ados de todos os tipos, tamb\u00e9m me deparei logo de cara com um banner de fotografias que cobria toda a extens\u00e3o da parede a minha frente. As fotos eram de motociclistas, mais tarde descobri que se tratava de fotos do Oscar. Um balc\u00e3o comprido cortava a sala ao meio, dividindo o local na \u00e1rea de atendimento e \u00e1rea dos clientes. Sob a parede \u00e0 minha esquerda, bem onde parei e me apresentei para o senhorzinho no computador, notei um n\u00famero significativo de certificados e diplomas de consagra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Eram doze certificados, eles come\u00e7avam na parede \u00e0 minha esquerda e subiam at\u00e9 o teto, de l\u00e1 faziam uma curva, formando um L at\u00e9 a extremidade no meio, bem ao lado das fotografias.<\/p>\n\n\n\n<p>No computador tocava um rock e Oscar estava sentado de frente para a tela em uma mesa atr\u00e1s do balc\u00e3o. De pele clara, cabe\u00e7a calva, vestia uma camiseta com mangas longas e gola polo. A camiseta de cor azul com listras brancas combinava com a cor azul dos seus olhos profundos e um tanto reservados, ent\u00e3o ele se apresentou. Pedi que contasse sobre ele, de onde era e se nasceu em Ponta Grossa. Oscar abaixa um pouco a m\u00fasica, mas n\u00e3o a desliga. Notei que, para ele, n\u00e3o importava quem chegasse ali, visse as fotos de motoqueiro ou ouvisse o rock tocando. Assim as pessoas podiam conhecer um pouco da impetuosidade da sua personalidade. Segui com a entrevista, enquanto no ambiente a m\u00fasica deixava tudo mais aut\u00eantico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Vindo da cidade vizinha de Ponta Grossa, Oscar saiu de Castro aos 12 anos de idade e hoje faz cinquenta anos que est\u00e1 trabalhando como sapateiro. \u201cEstudei, fiz o segundo grau. E quando cheguei resolvi aprender uma profiss\u00e3o\u201d. Embora Oscar tenha concordado em falar um pouco sobre si e sua profiss\u00e3o, seu tom de voz firme e suas frases diretas n\u00e3o relataram a extens\u00e3o de tudo que ele j\u00e1 viveu, mas percebi em seu olhar que guardava muita viv\u00eancia escondida ali.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;\u201cQuando eu abri a sapataria foi nos anos oitenta, quase noventa, e foi pela necessidade de criar a fam\u00edlia, cuidar dos filhos e ter o meu pr\u00f3prio neg\u00f3cio\u201d. Antes de toda essa trajet\u00f3ria de vida, era um garoto que ia para a escola e voltava para casa aprender a consertar sapatos, sem distra\u00e7\u00f5es. \u201cNa \u00e9poca eu comecei com doze anos, nessa idade eu estudava no per\u00edodo da tarde e pela manh\u00e3 eu aprendia a profiss\u00e3o com o meu cunhado. Lembro que ficava na loja at\u00e9 meio-dia e uma hora da tarde ia para o col\u00e9gio e ficava at\u00e9 \u00e0s cinco, mas \u00e0s vezes, tamb\u00e9m voltava para o trabalho, voltava para consertar os sapatos\u201d. Foi assim que Oscar lapidou seu trabalho, seguindo uma rotina regrada. Todas as manh\u00e3s na companhia do cunhado ele aprendia algo novo sobre sapatos, como consert\u00e1-los, deixando-os novos. Na \u00e9poca nem imaginava que 51 anos depois possuiria uma sapataria com seu sobrenome, e que hoje, ela viria a ser uma das mais antigas sapatarias de Ponta Grossa. \u201cE assim foi minha inf\u00e2ncia\u201d, disse.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com o barulho da m\u00e1quina de costura, junto ao martelar entre sapatos e ferramentas, sentindo o cheiro de cola de sapato e couro no ar, Oscar e mais dois funcion\u00e1rios trabalham sem parar para entregar as encomendas. No entanto, na sapataria apenas ele e mais um funcion\u00e1rio se encontravam. \u201cQuando comecei eu tinha dois funcion\u00e1rios, mas n\u00f3s tamb\u00e9m j\u00e1 trabalhamos em dez pessoas. Hoje n\u00e3o, hoje n\u00f3s trabalhamos em tr\u00eas. Estamos segurando as pontas para ver at\u00e9 onde a gente resiste. O mercado \u00e9 muito cruel, cada vez mais est\u00e3o fabricando coisas descart\u00e1veis. Coisas com um pre\u00e7o muito baixo, mas que n\u00e3o vale a pena investir\u201d. Apesar da inseguran\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 profiss\u00e3o, foi com orgulho e anos de experi\u00eancia que Oscar contou sobre o que \u00e9 necess\u00e1rio para trabalhar como sapateiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\t\u201cVoc\u00ea tem que ter habilidades manuais, isso \u00e9 o primeiro ponto. Quando voc\u00ea tem isso \u00e9 diferente, voc\u00ea j\u00e1 tem um <em>feeling<\/em> de entender as coisas. Obviamente meus concertos n\u00e3o s\u00e3o todos iguais, cada cliente tem uma necessidade. Precisa ter esse jogo de cintura para entender aquilo que o cliente precisa, aquilo que eu posso atender, n\u00e3o adianta eu s\u00f3 fazer taquinho, ou s\u00f3 meia-sola. Voc\u00ea n\u00e3o vai trocar z\u00edper de mochila, e s\u00f3 isso, os servi\u00e7os s\u00e3o uma variedade\u201d, explica. Para Oscar, se n\u00e3o tiver esse <em>feeling<\/em> com o cliente e saber cobrar um certo pre\u00e7o, voc\u00ea n\u00e3o aguenta no mercado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\tNesse instante, ap\u00f3s Oscar me contar com orgulho sobre o que \u00e9 necess\u00e1rio para trabalhar como sapateiro, uma cliente chegou, a \u00fanica enquanto estive l\u00e1. Ele pediu licen\u00e7a e foi atend\u00ea-la. A mo\u00e7a era jovem e queria arrumar as fechaduras de sua jaqueta de couro que estava guardada durante o ver\u00e3o todo, como ela comentou. Foi quando pude ver a precis\u00e3o do olhar pr\u00e1tico dele enquanto dizia para ela qual seria a melhor maneira de arrumar as fechaduras de jaqueta. \t<\/p>\n\n\n\n<p>\tEle analisou a jaqueta apenas por alguns segundos, depois chamou seu funcion\u00e1rio e explicou o que era preciso fazer para resolver o conserto. Foi t\u00e3o preciso e r\u00e1pido na an\u00e1lise que n\u00e3o pude deixar de notar que o que importava era o ato de consertar, sejam sapatos, bolsas ou jaquetas. Oscar entende o valor das coisas, o valor do tempo, dignifica cada objeto que conserta. N\u00e3o levou mais que cinco minutos para o problema da jaqueta ser resolvido. Ent\u00e3o perguntei de onde vinha tanta pr\u00e1tica, de onde brotava todo o cuidado com as coisas, com os objetos, os sapatos que carregam nossos p\u00e9s, jaquetas que envolvem nossos ombros, e bolsas que levam nossas coisas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\t\u201cSempre priorizei a qualidade\u201d, disse. \u201cE antigamente, quase que anualmente existiam pesquisas de opini\u00e3o. E durante muitos anos, conseguimos manter a prefer\u00eancia da nossa sapataria na regi\u00e3o, mas fazemos sempre esse diferencial, n\u00e3o consertamos apenas sapatos. Assim temos clientes de toda a regi\u00e3o que procuram nossos servi\u00e7os, n\u00f3s consertamos, \u00e9 isso que fazemos e \u00e9 por isso que estamos nos mantendo durante todos esses anos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\tAinda que a Sapataria Junior tenha bastante clientes, Oscar admite que a profiss\u00e3o de sapateiro est\u00e1 saindo do mercado. \u201cEm Ponta Grossa, antes tinha muita sapataria, hoje tem uma meia-d\u00fazia, se tiver! Ent\u00e3o voc\u00ea tem que tentar mudar e abranger um outro nicho de mercado. A maior parte de nosso trabalho hoje \u00e9 t\u00eanis, mochilas escolares ou bolsas, porque trabalhamos muito com costura, coisa que os nossos parceiros de profiss\u00e3o n\u00e3o sabem fazer\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\tContudo, o senhor amante de rock que come\u00e7ou na adolesc\u00eancia a consertar os sapatos das pessoas possui seus pr\u00f3prios sapatos com as solas bastante gastas por conta de todos os lugares que j\u00e1 visitou. Uma das coisas a respeito de Oscar que \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o se interessar \u00e9 sobre suas viagens de moto. Ele n\u00e3o esconde isso, acho que \u00e9 a segunda coisa com a qual ele se orgulha, depois da sua profiss\u00e3o. Quando voc\u00ea entra na sapataria, as fotos s\u00e3o a primeira coisa que chamam a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\t\u201cSer motociclista para mim \u00e9 um estilo de vida, eu desde que me conhe\u00e7o por gente e era molequinho, j\u00e1 estava em um triciclo. Ent\u00e3o j\u00e1 andei pela Am\u00e9rica do Sul, conheci novas pessoas, novos costumes. Acho o povo argentino fant\u00e1stico!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\tDepois de um bom tempo de conversa, Oscar disse que precisava ir, deixando muita curiosidade a respeito de outras hist\u00f3rias n\u00e3o contadas. Nos fundos da sapataria, onde eles faziam os consertos, as paredes eram todas pintadas de azul e o teto muito baixo. Seu funcion\u00e1rio estava sentado na m\u00e1quina de costura, dando pontos em uma sola de t\u00eanis descolada. Ele era preciso com as m\u00e3os como uma costureira \u00e9 ao remendar uma roupa. Olhei ao redor, outros t\u00eanis, botas, sapatos e sand\u00e1lias se espalhavam pelo ch\u00e3o. Tantos quil\u00f4metros estavam ali naquela sala quadrada e pequena. Cada cal\u00e7ado trazia um lugar, uma estrada percorrida, uma hist\u00f3ria, ou v\u00e1rias delas. Ao ir embora, sa\u00ed pensando que os cal\u00e7ados podem revelar muito sobre n\u00f3s.<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No momento que decidi escrever sobre a profiss\u00e3o de sapateiro, n\u00e3o pude imaginar o grande trabalho que \u00e9 consertar \u201cos p\u00e9s\u201d de algu\u00e9m. Agora entendo o suficiente para dizer que sapatos, t\u00eanis, sand\u00e1lias, ou mesmo as botas conhecem todos os caminhos por onde andamos. 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