{"id":5449,"date":"2020-06-24T14:29:21","date_gmt":"2020-06-24T17:29:21","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=5449"},"modified":"2020-06-24T14:29:21","modified_gmt":"2020-06-24T17:29:21","slug":"o-homem-que-aguentou-o-servico-e-nao-se-entrega-para-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/o-homem-que-aguentou-o-servico-e-nao-se-entrega-para-a-vida\/","title":{"rendered":"O homem que \u201caguentou o servi\u00e7o\u201d e n\u00e3o se entrega para a vida"},"content":{"rendered":"\n<p>Heraldo Santos Filho, 74 anos, caminha todos os dias de sua casa, localizada no bairro Olarias, para almo\u00e7ar no Restaurante Popular. O caminho \u00e9 curto para quem costumava ir a p\u00e9 do bairro da Ronda at\u00e9 o centro todas as manh\u00e3s para pegar \u201ca m\u00e1quina\u201d &#8211; como ele chama a Maria Fuma\u00e7a n\u00ba250, atualmente em exposi\u00e7\u00e3o no Parque Ambiental &#8211; e ent\u00e3o chegar ao p\u00e1tio da Rede de Via\u00e7\u00e3o Paran\u00e1-Santa Catarina, em Oficinas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje aposentado, come\u00e7ou a trabalhar aos 12 anos e sabia fazer de tudo um pouco, foi desde ajudante de encanador at\u00e9 fabricante de portas e janelas. Com 18 anos se candidatou a uma vaga de carpinteiro na Companhia Brasileira de Materiais Ferrovi\u00e1rios (Cobrasma). Ao chegar no lugar do teste um dos funcion\u00e1rios o viu e gritou: \u201cPode ir embora, voc\u00ea n\u00e3o aguenta o servi\u00e7o\u201d. Heraldo aparentava ser fraco, tinha no m\u00e1ximo 60 quilos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas um senhor o encorajou a continuar e ent\u00e3o ele passou no teste. \u201cEu pertencia \u00e0 se\u00e7\u00e3o de obras, lidava com madeiras, n\u00e3o era metal\u00fargico. Me puseram para trabalhar junto com um louco, o cara era louco\u201d. Quando foi contratado, os funcion\u00e1rios mais velhos da empresa estranharam, \u201ca Rede agora est\u00e1 contratando pi\u00e1?\u201d. Assim mesmo provou que sabia fazer o servi\u00e7o e ensinou o companheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a Cobrasma fechou, Santos foi contratado pela Rede, que acabara de ser destru\u00edda por um inc\u00eandio e precisava de mais funcion\u00e1rios para a reconstru\u00e7\u00e3o. Na nova empresa, era respons\u00e1vel pelo \u201cbeneficiamento de madeira\u201d, preparava os produtos para os trens transportarem aos destinos. \u201cTinha muito vag\u00e3o de madeira para carregar\u201d. O aposentado se diverte ao lembrar dos vag\u00f5es que carregavam gado, apelidados de \u201cgaiolas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da apar\u00eancia, Heraldo era forte. Conta que, \u00e0s vezes, ajudava os companheiros a trocar os vag\u00f5es de uma linha para outra. Cada roda pesava em m\u00e9dia 250 quilos. \u201cEu n\u00e3o era desse setor, mas experimentava fazer para ver se conseguia\u201d. E conseguia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tornou-se conhecido na empresa pelo apelido \u201c\u00cdndio\u201d, porque quando chovia tinha que atravessar os arroios da Ronda para poder trabalhar. Brincava com os colegas que eles reclamavam demais, mas s\u00f3 tinham molhado a barra da cal\u00e7a. \u201cVoc\u00ea t\u00e1 chorando por causa da barra da cal\u00e7a. E eu que tive que atravessar o rio a nado para vir trabalhar?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de seis anos na Rede, resolveu pedir a conta em 1975 por diversos motivos. Al\u00e9m do baixo sal\u00e1rio, n\u00e3o havia a possibilidade de crescer na empresa. Heraldo j\u00e1 trabalhava no \u00faltimo n\u00edvel poss\u00edvel, como auxiliar de art\u00edfice. Foi ent\u00e3o que decidiu pensar em sua fam\u00edlia. \u201cQuando meu filho nasceu eu sa\u00ed da Rede, o sal\u00e1rio era muito baixo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem emprego, fez concurso de modelador de fundi\u00e7\u00e3o e come\u00e7ou a trabalhar em uma metal\u00fargica de Ponta Grossa, onde ficou por 30 anos at\u00e9 se aposentar e mais 10 ap\u00f3s a aposentadoria. Seu trabalho na empresa era fazer modelo de m\u00e1quinas, servi\u00e7o que ningu\u00e9m mais sabia. Pela sua import\u00e2ncia permaneceu trabalhando mesmo depois de uma demiss\u00e3o em massa que afetou cerca de 300 trabalhadores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/9Z3xi6fhnlS4c_mddeqySHzZ__3eDfZ1lQ0vCu4km7vtWfs7qNh2-yjstEqswfdwlQE35OabKhpxfH0SljKmTbY6VSRAciTHGETjGoF4qq9EdRZVl9c9Jbih5cfvOfRM_yRuRr8\" alt=\"\" \/><figcaption> <em>Heraldo Santos Filho hoje \u00e9 aposentado<\/em> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><em> <\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cN\u00e3o era perna dura como esses caras de agora\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ponta-grossense nato, Heraldo Santos Filho \u00e9 torcedor fan\u00e1tico do Oper\u00e1rio Ferrovi\u00e1rio. Assiste aos jogos do time no est\u00e1dio desde a \u00e9poca em que trabalhava na Rede. A tradi\u00e7\u00e3o passou por gera\u00e7\u00f5es. Costumava levar os filhos e netos ao Germano Kr\u00fcger e a cada gol do Fantasma descia correndo as arquibancadas e se agarrava nas grades para comemorar.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente ele \u00e9 craque em acertar os palpites dos resultados dos jogos. Acredita que o Oper\u00e1rio tem que melhorar para permanecer da s\u00e9rie \u201cB\u201d do Campeonato Brasileiro e coleciona canecas dos dois times do cora\u00e7\u00e3o: Santos e Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O aposentado relembra a rivalidade que o Oper\u00e1rio tinha com o extinto Guarani, mas afirma que tamb\u00e9m gostava de assistir aos treinos e jogos do rival. Certa vez, ele tinha uns 23 ou 24 anos, pulou o muro do est\u00e1dio com um amigo para assistir a uma partida. Os cachorros ouviram e come\u00e7aram a avan\u00e7ar anunciando os invasores. \u201cN\u00e3o sei de onde apareceu aquela cachorrada\u201d. O Guarda de plant\u00e3o pegou em flagrante e fez quest\u00e3o que os dois sa\u00edssem pelas portas da frente do est\u00e1dio. Primeiro levou seu amigo e, nesse tempo, Heraldo conseguiu se esconder atr\u00e1s de uma casa, esperou um pouco e continuou a correr at\u00e9 chegar no campo para assistir ao jogo, para desespero do policial.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando jovem era bom de bola, acertava no \u00e2ngulo e era bom batedor de falta. \u201cN\u00e3o era perna dura como esses caras de agora\u201d. Fazia parte do time da Ronda e participava de torneios e campeonatos. Sua equipe disputou o Campeonato Amador por duas vezes e costumava viajar para torneiros em cidades como Palmeira, Campo Largo, Castro, Porto Amazonas, Irati e Prudent\u00f3polis. Na \u00e9poca os \u00f4nibus eram raros, por isso os jogadores viajavam em paus de arara, caminh\u00f5es destinados ao transporte de pessoas. Em algumas ocasi\u00f5es viajavam um caminh\u00e3o para os jogadores e outro para a torcida. De acordo com Heraldo, os companheiros de bola eram bons, mas bebiam demais. Para ele essa \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o de a maioria j\u00e1 ter morrido.<\/p>\n\n\n\n<p>O aposentado parou de jogar aos 32 anos por causa dos filhos. Segundo ele, tinha que ter sa\u00fade para cuidar da fam\u00edlia. \u201cPara jogar bola tem que praticar, tem que treinar\u201d. Mas n\u00e3o parou completamente, ensinou futebol para os filhos e netos e continuou bom de bola.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/amesDANPAUU_3ghv4LVFZY1v3nKx9kH2n-8s7U47fk7kvFRoRh4ixYj5ha0johQZNmrLG0ACW2RKT0Ngi3s_ZMuoOJ5fBFvcy8R766OnWcbpp3tT2Hu94nMDvjWtV-bSsEC1zGs\" alt=\"\" \/><figcaption> <em> Heraldo assistindo ao jogo do Oper\u00e1rio Ferrovi\u00e1rio com familiares e amigos<\/em> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cN\u00e3o d\u00e1 pra parar\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Heraldo construiu sua pr\u00f3pria casa, onde mora at\u00e9 hoje. Aos 23 anos conheceu sua esposa e se casou com 28. H\u00e1 sete anos descobriu o Parkinson e desde ent\u00e3o faz tratamento contra a doen\u00e7a. Mas n\u00e3o se entrega. Faz caminhadas regulares, conversa com os amigos e passeia pela cidade. Al\u00e9m do Parkinson n\u00e3o tem outras doen\u00e7as, como diabetes.<\/p>\n\n\n\n<p>Santos \u00e9 apaixonado pela esposa, Roseli Santos, com quem teve tr\u00eas filhos, uma filha e nove netos. No fim do ano passado ela faleceu, dois meses ap\u00f3s um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Desde ent\u00e3o Heraldo sente a falta da esposa. Como qualquer hist\u00f3ria de amor, os dois dedicaram a vida um para o outro e aproveitaram juntos at\u00e9 o \u00faltimo momento. Pode-se dizer que nem a morte os separou.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente Santos aluga parte da casa, que \u00e9 grande. Mas vendeu o carro quando sua carteira de motorista venceu no ano passado. Parou de dirigir porque n\u00e3o valia a pena pagar para renovar a carteira por menos tempo, por conta da doen\u00e7a. Um dia antes do vencimento, Heraldo capotou o carro. Para ele a causa foi o rem\u00e9dio, que \u00e9 forte. \u201cPara que eu vou dirigir? Colocar a vida dos outros em risco?\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Heraldo Santos Filho, 74 anos, caminha todos os dias de sua casa, localizada no bairro Olarias, para almo\u00e7ar no Restaurante Popular. 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