{"id":5486,"date":"2020-07-17T11:10:02","date_gmt":"2020-07-17T14:10:02","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=5486"},"modified":"2020-07-17T11:10:02","modified_gmt":"2020-07-17T14:10:02","slug":"resiliencia-uma-marca-na-vida-de-eneide","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/resiliencia-uma-marca-na-vida-de-eneide\/","title":{"rendered":"Resili\u00eancia, uma marca na vida de Eneide"},"content":{"rendered":"\n<p>M\u00e3e, mulher, militar aposentada que venceu um c\u00e2ncer. Ela chama aten\u00e7\u00e3o pela voz com tom firme, pela dedica\u00e7\u00e3o com o filho e a capacidade de resistir a qualquer obst\u00e1culo que aparece em sua vida com muita gratid\u00e3o e f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Exemplo. Determinada. Resiliente. Eneide Luiza Tchmolo Fonseca, 56, abriu a porta com um cumprimento, muito receptiva. Cabelos louros presos em um el\u00e1stico com grampos, roupas pretas confort\u00e1veis e joias discretas. Casa impec\u00e1vel, milimetricamente organizada e limpa, um grande aqu\u00e1rio ilumina a sala de jantar com os \u00fanicos animais de estima\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, que n\u00e3o \u00e9 muito f\u00e3 de gatos ou c\u00e3es. Fotografias da fam\u00edlia est\u00e3o em diversos c\u00f4modos da casa \u2013 na estante, geladeira, frigobar. S\u00e3o fotos em eventos e jantares comemorativos, sem sorrisos muito expressivos, entretanto percebe-se muita uni\u00e3o e amor em cada imagem.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img src=\"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/FotoVeridiane1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5487\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\tA iratiense nasceu em 31 de outubro, data extremamente marcante em sua vida, n\u00e3o apenas pelo fato de ser o anivers\u00e1rio, mas pelos acontecimentos importantes sempre recorrentes nesta data. Neste mesmo dia, 60 anos antes, em 1902, nascia Carlos Drummond de Andrade, e como no poema \u201cFam\u00edlia\u201d, Eneide \u00e9 esperan\u00e7osa e \u00e9 quem d\u00e1 a palavra final em casa: \u201cO agiota, o leiteiro, o turco, o m\u00e9dico uma vez por m\u00eas, o bilhete todas as semanas branco! Mas a esperan\u00e7a sempre verde. A mulher trata de tudo e a felicidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\tOrganizada, ela opta por come\u00e7ar o relato sobre sua vida do come\u00e7o; quando crian\u00e7a, Eneide era muito fr\u00e1gil, desmaiava constantemente por causa de enxaquecas e era desnutrida. Aos 7 anos de idade, um m\u00e9dico disse para a m\u00e3e dela lev\u00e1-la para casa, pois n\u00e3o havia nada que pudesse ser feito, foi ent\u00e3o que uma benzedeira indicou algumas simpatias e ela melhorou.<\/p>\n\n\n\n<p>\tSempre muito esfor\u00e7ada, trabalha desde os 14 anos e era uma \u00f3tima aluna. Depois de terminar o colegial, prestou concurso para a pol\u00edcia militar e gabaritou a prova escrita. Ela relembra as datas com muita exatid\u00e3o. Em 20 de novembro de 1983 ingressou na Pol\u00edcia Militar do Paran\u00e1 (PMPR), no primeiro curso de forma\u00e7\u00e3o de policiais femininas de Ponta Grossa. Composto por 48 jovens mulheres corajosas com desejo de ocupar um espa\u00e7o que era exclusivamente masculino.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\tNo curso que durou cerca de sete meses, Eneide encontrou muitos obst\u00e1culos, aulas com tempo integral, faxinas intermin\u00e1veis e servi\u00e7os, mas que foram vencidos com muita compet\u00eancia. Numa \u00e9poca em que o casamento entre militares s\u00f3 era bem visto se o casal fosse da mesma gradua\u00e7\u00e3o e s\u00f3 dois anos ap\u00f3s o ingresso na corpora\u00e7\u00e3o, ela e suas colegas chamavam a aten\u00e7\u00e3o do povo ponta-grossensse, que tinha desconfian\u00e7a por acreditar que as mulheres s\u00e3o o \u201csexo fr\u00e1gil\u201d. Por\u00e9m, com o passar do tempo, elas foram conquistando seu espa\u00e7o. Eneide relembra essa \u00e9poca com muito orgulho e sentimento de dever cumprido, enaltece que venceu todas as barreiras e preconceitos com muita honra e dignidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\tO filho Gabriel \u00e9 o seu maior orgulho. Enquanto fala sobre a gravidez, Eneide se desencosta do sof\u00e1, junta as m\u00e3os como em ora\u00e7\u00e3o pr\u00f3ximas do rosto e diz: \u201cele nunca me enxergou, mas no dia em que ele nasceu, ele me viu\u201d. Gabriel nasceu moreno claro com olhos lil\u00e1s, como descreve a m\u00e3e com muito amor, sobre o momento em que conheceu o filho ap\u00f3s a ces\u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<p>\tCom exatos dez dias, o oftalmologista detectou um problema s\u00e9rio em Gabriel e aqui come\u00e7ava a saga de exames e idas a hospitais e especialistas. Antes dos tr\u00eas meses de vida era necess\u00e1rio que ele fizesse uma cirurgia, foi uma corrida contra o tempo. \u201cN\u00f3s falimos\u201d, ela ressalta em rela\u00e7\u00e3o aos gastos com m\u00e9dicos e exames. Eneide n\u00e3o compreendia o que estava acontecendo, sentia-se muito triste e culpada pelo filho, por\u00e9m nunca perdeu a esperan\u00e7a de que tudo fosse ficar bem.<\/p>\n\n\n\n<p>\tNo dia da cirurgia, ela estava com o cora\u00e7\u00e3o apertado pelo seu filho t\u00e3o pequeno ter que passar por tudo aquilo. Quando a enfermeira o trouxe, ele estava vestido todo de branco. Eneide sorri, \u201cera o meu anjinho\u201d, recorda. O doutor chama os pais na sala dele para conversar. Ela \u00e9 direta, n\u00e3o gosta quando enrolam muito para falar algo e pergunta se houve sucesso na cirurgia, o m\u00e9dico apenas balan\u00e7a a cabe\u00e7a em sinal negativo. Eneide lembra que Generoso, seu esposo, estava junto na sala quando a abra\u00e7a e neste momento ela sente que precisaria ser forte. Quando conta isso, seus olhos ficam marejados e ela se arrepia. Gabriel nasceu cego. Ele tem uma s\u00edndrome rara que acomete sete a cada oito milh\u00f5es de pessoas. Depois dessa not\u00edcia ela nunca mais reclamou por nada. Em meio \u00e0s lembran\u00e7as, Eneide senta na ponta do sof\u00e1 com as m\u00e3os entre as pernas e diz: \u201cfa\u00e7o tudo por ele\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\tEm 31 de outubro de 2012, ela precisou fazer uma cirurgia, pois h\u00e1 pouco tempo tinha descoberto um c\u00e2ncer de mama. Ela passou o anivers\u00e1rio de 50 anos numa sala cir\u00fargica com a equipe cantando \u201cparab\u00e9ns pra voc\u00ea\u201d. Eneide sorri e explica que sempre foi de bem com a vida. Vinte dias depois saiu o resultado e era um c\u00e2ncer muito agressivo em que a taxa de sobreviv\u00eancia \u00e9 m\u00ednima, por\u00e9m ela tentou n\u00e3o se preocupar tanto com esse fato e sim com o tratamento, com o que precisaria ser feito dali para frente. Tr\u00eas dias depois ela estava passeando em Foz do Igua\u00e7u e Paraguai, ela sorri novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>\tForam dois anos de quimioterapia, 14 cirurgias e muitos gastos, por\u00e9m Eneide n\u00e3o se incomodava com o tratamento, sempre focou seus esfor\u00e7os na cura do c\u00e2ncer. O mais dif\u00edcil foi contar para o seu filho amado. Na \u00e9poca, Gabriel tinha 15 anos, e ficou muito triste pela m\u00e3e, chorava bastante e dizia que n\u00e3o queria ficar sem ela, ent\u00e3o Eneide fez uma promessa de que n\u00e3o iria morrer. Com muita f\u00e9 ela enfrentou essa fase dif\u00edcil da sua vida. Atualmente, d\u00e1 palestras motivacionais sobre o tema e conclui que \u201cvoc\u00ea d\u00e1 a dimens\u00e3o do problema\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\tGeneroso chega, ajeita o vaso na estante e vai dar comida aos peixes. Casados h\u00e1 28 anos, em 1991 eram apenas amigos, mas ele com seu jeito \u00edmpar conquistou Eneide. No dia dos namorados daquele ano, ele foi at\u00e9 o apartamento dela, levando um pacote de presente muito chique. L\u00e1 moravam mais tr\u00eas mulheres, tamb\u00e9m policiais, e alguns utens\u00edlios dom\u00e9sticos eram contados, por exemplo, colher de caf\u00e9 havia apenas uma para cada mo\u00e7a. Eneide n\u00e3o quis aceitar o presente de Generoso, mas o pacote ficou l\u00e1 e depois que ele foi embora, ela e as colegas cheias de curiosidade abriram o pacote: era duas colheres de caf\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>\tEm 1994, eles juntaram as colheres e foram morar juntos. Dez anos depois, ele a pediu em casamento, existia o desejo de casar, por\u00e9m o pai de Eneide ficou muito doente, vegetando na cama e faleceu em 2007. Ela n\u00e3o queria vestido de noiva. Certa vez, ela disse para Generoso que se chegasse em casa, entrasse na internet e a primeira imagem que aparecesse fosse o modelo de vestido que ela queria, ent\u00e3o eles poderiam se casar. Um m\u00eas depois, em 31 de outubro de 2014 eles se casaram.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\tEneide acredita que para tudo na vida h\u00e1 um prop\u00f3sito, ao longo dos anos o Gabriel a ensinou a ser forte, para que quando ela tivesse o c\u00e2ncer j\u00e1 fosse forte o suficiente para superar tudo isso. O lado bom de ter passado por essa doen\u00e7a \u00e9 que ela deixou o filho ser mais independente. Ela sempre teve facilidade para lidar com as pessoas, principalmente com crian\u00e7as, sempre gostou de ajudar. Atualmente, trabalha no Col\u00e9gio Vila Militar e ama o que faz. O lema da sua vida \u00e9 que \u201cos problemas ficam do port\u00e3o para dentro\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p> A vida de Eneide sempre teve altos e baixos, mas ela nunca se entregou, sempre buscou for\u00e7as na espiritualidade e ressalta que \u00e9 importante ter objetivos na vida. O objetivo que ela espera realizar neste ano \u00e9 a formatura de jornalismo do filho. No jantar, ela corta peda\u00e7os pequenos da pizza para Gabriel e na mesa as colheres de caf\u00e9 permanecem unidas.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Produ\u00e7\u00e3o realizada em parceria com a disciplina de Estudos da Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura da 3\u00b0 s\u00e9rie do curso de bacharelado em Jornalismo sob a supervis\u00e3o da professora Karina Janz Woitowicz<\/em>.<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e3e, mulher, militar aposentada que venceu um c\u00e2ncer. 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