{"id":5938,"date":"2020-12-22T12:27:49","date_gmt":"2020-12-22T15:27:49","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=5938"},"modified":"2020-12-22T12:27:49","modified_gmt":"2020-12-22T15:27:49","slug":"a-participacao-de-juca-francisquini-na-construcao-da-historia-do-radio-em-ponta-grossa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/a-participacao-de-juca-francisquini-na-construcao-da-historia-do-radio-em-ponta-grossa\/","title":{"rendered":"A participa\u00e7\u00e3o de Juca Francisquini na constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do r\u00e1dio em Ponta Grossa"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"font-size:15px;text-align:left\">Entrevista: Nadine Sansana\u00a0<br> Edi\u00e7\u00e3o: Jessica Grossi e Matheus Gaston <\/p>\n\n\n\n<p>A entrevista com J\u00falio C\u00e9sar Moreira Francisquini foi realizada em junho de 2019, na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), pela estudante de gradua\u00e7\u00e3o em Jornalismo da UEPG, Nadine Bianca Sansana, como parte da sua pesquisa de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p>Francisquini nasceu em fevereiro de 1956 e iniciou seus trabalhos no r\u00e1dio por volta de 1984. Transitou por diversas r\u00e1dios de Ponta Grossa, atuando como locutor e comentarista esportivo. Atualmente, Juca Francisquini, como \u00e9 conhecido, tem um programa de esportes na R\u00e1dio MZ.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Poderia falar rapidamente da sua trajet\u00f3ria profissional, onde e quando come\u00e7ou a trabalhar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu comecei um pouco tarde no r\u00e1dio, comecei com quase 28 anos. Comecei por hobby, pra fazer aquilo que gostava. Eu tinha morado em Curitiba e voltei com uma bagagem cultural boa. Vivi intensamente a vida cultural de Curitiba e vim para Ponta Grossa. A minha entrada no r\u00e1dio foi meio concomitante com a minha entrada na pol\u00edtica estudantil. Ali\u00e1s, eu s\u00f3 cheguei \u00e0 pol\u00edtica estudantil e obtive \u00eaxito eleitoral na pol\u00edtica estudantil por causa do r\u00e1dio. Se n\u00e3o fosse o r\u00e1dio, n\u00e3o teria obtido \u00eaxito. Isso foi em 1984. Na antiga R\u00e1dio Vila Velha eu fazia um programa das dez \u00e0 meia-noite que chamava <em>Os mais doces b\u00e1rbaros<\/em>. A d\u00e9cada de 1980 \u00e9 uma d\u00e9cada que foi invadida pela m\u00fasica americana. N\u00e3o tocava m\u00fasica nacional; sertaneja ent\u00e3o nem se ouvia falar. O que existia de sertanejo era mais aquele de raiz Tonico e Tinoco, mas em r\u00e1dio AM. Em FM era vergonhoso tocar sertanejo, ningu\u00e9m tocava. E era impressionante a quantidade de grandes \u00eddolos internacionais como Madonna e Cyndi Lauper. As r\u00e1dios FMs tocavam produtos importados, basicamente m\u00fasica americana. Era um dom\u00ednio total das gravadoras sobre as r\u00e1dios. Esse meu programa quebrou esse estigma, era um hor\u00e1rio nobre das dez horas \u00e0 meia-noite. Um hor\u00e1rio que o pessoal chegava em casa e se tivesse uma boa op\u00e7\u00e3o no r\u00e1dio, sintonizava e muita gente escutava. Foi um programa que eu foquei em m\u00fasica de qualidade mesmo. Foi uma \u00e9poca de ouro da MPB. Ent\u00e3o, nessa minha programa\u00e7\u00e3o musical, at\u00e9 por influ\u00eancia dos quatro anos que eu passei em Curitiba e acompanhei todas essas pessoas, eu voltei com uma energia danada de l\u00e1 da capital. Fui para o r\u00e1dio fazer o programa <em>Os mais doces b\u00e1rbaros <\/em>e at\u00e9 o nome era bem diferente de qualquer outro programa. Procurei fazer um programa bem cultural e com m\u00fasicas de muita qualidade: o que n\u00e3o era MPB, era jazz, era blues. Cheguei at\u00e9 mesmo a tocar m\u00fasica cl\u00e1ssica. Toquei uma vez um bolero de Ravel, o que era uma ousadia porque era imposs\u00edvel, ningu\u00e9m fazia isso. E nessa \u00e9poca a universidade era toda concentrada aqui, na Santos Andrade [Campus Central da Universidade Estadual de Ponta Grossa]. N\u00e3o tinha o campus [de Uvaranas]. Ent\u00e3o, voc\u00ea imagine o formigueiro que era isso: cinco mil alunos aqui. Por exemplo, o intervalo das dez horas voc\u00ea n\u00e3o via o ch\u00e3o de tanta gente que tinha, s\u00f3 via aquele aglomerado de pessoas. Eu vinha de manh\u00e3 e conversava com os alunos e fui fazendo amizade e as pessoas me faziam pedidos de m\u00fasicas, me mandavam bilhetinhos e toda sexta-feira eu fazia um especial do Caetano, do Gil, do Raul Seixas que foi o que deu maior repercuss\u00e3o. O pessoal se reunia para escutar esses especiais. Eles se reuniam, de repente tinha dez, 20 pessoas, compravam cerveja e ligavam o r\u00e1dio. N\u00e3o tinha tanta op\u00e7\u00e3o, era a \u00e9poca da fita cassete. Ali\u00e1s, hoje, na cidade, se criasse um grupo pra resgatar, muita gente tem fita cassete gravada com o programa daquela \u00e9poca, porque o pessoal gravava e guardava. E gra\u00e7as a esse programa eu me tornei muito popular aqui dentro da universidade e acabei virando presidente do DCE [Diret\u00f3rio Central dos Estudantes] no ano seguinte. Ganhei a elei\u00e7\u00e3o com grupo independente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois eu dei uma parada, at\u00e9 porque me envolvi na pol\u00edtica estudantil. Eu era professor, parei de dar aula, parei com o r\u00e1dio, s\u00f3 para focar na pol\u00edtica estudantil. Eu era professor de primeiro e segundo grau de Qu\u00edmica, F\u00edsica e Matem\u00e1tica. Dei aula no Positivo, no Sepam, no S\u00e3o Luiz, no Sant\u2019Ana e parei. Retomei no r\u00e1dio em 1989, mas da\u00ed j\u00e1 era uma coisa diferente. A\u00ed eu fiz um programa chamado <em>Brilho da noite<\/em>, que tamb\u00e9m foi uma experi\u00eancia legal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois fui embora daqui de Ponta Grossa, fui para Cambori\u00fa. Morei oito anos l\u00e1 e, quando voltei, o P\u00e9ricles me procurou, eu era muito amigo dele, amigo de inf\u00e2ncia. Ele me procurou e disse que faria um projeto com um espa\u00e7o na r\u00e1dio. E ent\u00e3o comecei a fazer o radiojornalismo, na R\u00e1dio Nacional, ligado ao P\u00e9ricles, com objetivo pol\u00edtico. E acabou dando certo. Isso foi na R\u00e1dio Nacional, que agora \u00e9 a CBN e que antes era a Vila Velha. Toda a minha hist\u00f3ria \u00e9 ligada \u00e0 1300 [frequ\u00eancia da r\u00e1dio CBN]. Come\u00e7ou com a Vila Velha, depois foi R\u00e1dio Nacional e depois foi CBN. O P\u00e9ricles foi eleito prefeito e eu continuei com esse trabalho, sempre em hor\u00e1rio nobre. Fui para a CBN, fui \u00e2ncora no jornalismo da r\u00e1dio CBN por duas vezes, em dois per\u00edodos distintos e da\u00ed eu entrei no jornalismo esportivo. Fui coordenador de equipe. Trabalhei em v\u00e1rias r\u00e1dios: na Central, na Difusora, na Mundi e na MZ como coordenador de equipe esportiva. S\u00f3 n\u00e3o trabalhei na R\u00e1dio T e na Sant\u2019Ana. Eu foquei mais no esporte e hoje s\u00f3 trabalho com o esporte, fa\u00e7o jornalismo esportivo e radiojornalismo, hoje, na MZ.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Poderia comentar sobre o que viu da hist\u00f3ria do r\u00e1dio aqui na cidade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A r\u00e1dio sempre foi muito forte na pol\u00edtica aqui de Ponta Grossa, ela influenciou. Se quer ser pol\u00edtico, tem que ir para a r\u00e1dio. Hoje o que \u00e9 a rede social, era a r\u00e1dio na \u00e9poca. Eu acho que at\u00e9 hoje, nesta pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o a r\u00e1dio vai ter uma influ\u00eancia muito grande. Porque o ponta-grossense ele acorda e liga o r\u00e1dio, ele est\u00e1 fazendo o caf\u00e9 da manh\u00e3 e o r\u00e1dio est\u00e1 ligado. O r\u00e1dio \u00e9 um companheiro e, ele [o ponta-grossense], se informa atrav\u00e9s do r\u00e1dio, principalmente as pessoas mais humildes que ainda n\u00e3o criaram muita intimidade com a rede social, celulares, computadores, ent\u00e3o \u00e9 uma maneira mais simples e mais direta. E, \u00e0s vezes, nem \u00e9 porque eles n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00e3o de partir para outros tipos de acesso de informa\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 porque gostam daquele jeito, gostam de ter essa intera\u00e7\u00e3o com o comunicador. E eles fizeram muitos comunicadores, na d\u00e9cada de 1980 foi o Nilson de Oliveira, da\u00ed o Wosgrau trouxe um comunicador de fora, chamado Elio, pra tentar contrapor o poder que o Nilson tinha de influenciar o povo. Depois veio a d\u00e9cada de 1990 e veio o Jocelito Canto. A d\u00e9cada de 1990 foi a \u00e9poca que eu voltei e eu entrei no radiojornalismo, ent\u00e3o eu s\u00f3 tinha que confrontar com o Jocelito Canto. J\u00e1 era uma luta perdida e mesmo assim a gente fez um bom trabalho, mas \u00e9 que todo o pessoal que estava junto com o P\u00e9ricles, inclusive os eleitores, come\u00e7aram a migrar. Ent\u00e3o a r\u00e1dio era o ponto de encontro dessas pessoas onde se falava o que queria ouvir. Mas mesmo assim a d\u00e9cada de 1990 foi dominada pelo Jocelito Canto e na \u00e9poca de 2000 da\u00ed os meninos tamb\u00e9m atrav\u00e9s do r\u00e1dio, que \u00e9 o Marcelo Rangel e o Sandro Alex, conseguiram proje\u00e7\u00e3o. Quem furou isso foi o Rog\u00e9rio Sermann, que no m\u00e1ximo chegou a vereador, agora todos os outros\u2026 O Nilson de Oliveira muita gente fala que n\u00e3o foi prefeito porque n\u00e3o quis, porque na \u00e9poca de ouro dele, na d\u00e9cada de 1980, se ele lan\u00e7asse uma candidatura para prefeito ela teria dado certo. O r\u00e1dio, aqui na nossa cidade, sempre foi um elemento que impulsionou comunicadores para a pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Nas quest\u00f5es t\u00e9cnicas, de equipamento, quais eram as dificuldades que tinham quando come\u00e7ou a trabalhar no r\u00e1dio?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando a gente come\u00e7ou era \u00e9poca de \u201cbolach\u00e3o\u201d, na \u00e9poca dos LPs, tinha que mixar.<strong> <\/strong>Os comerciais eram cartucheiras, que voc\u00ea tinha que montar colando fita com fita durex, era uma coisa assim bem artesanal. O LP se voc\u00ea passa por muitas m\u00e3os, daqui a pouco \u00e9 risco, \u00e9 gordura. A\u00ed tem hist\u00f3rias de estar no ar e o disco rodando e dali a pouco come\u00e7a a pular no mesmo lugar e tudo isso ia para o ar. Eu at\u00e9 tenho uma hist\u00f3ria que \u00e9 muito engra\u00e7ada. Eu comecei a trabalhar e estava me sentindo seguro em comunicar e operar e da\u00ed tinha um prato [para colocar o disco] ao lado do outro. Estava terminando uma m\u00fasica e ia come\u00e7ar outra [no outro disco] e da\u00ed tinha que fazer a mixagem, diminuindo o volume de um e aumentando o do outro, era uma coisa b\u00e1sica, mas a gente achava um m\u00e1ximo e na hora que abaixei um e aumentei o outro, fui tirar e acabei tirando a que estava no ar e ficou aquele sil\u00eancio. Mas agora tudo evoluiu, hoje praticamente \u00e9 o computador que toca a r\u00e1dio. Hoje se voc\u00ea tiver um cara bom no est\u00fadio e ter uma boa voz, uma pessoa s\u00f3, faz a r\u00e1dio hoje. Falo isso porque eu trabalhei numa r\u00e1dio que hoje basicamente nem tem funcion\u00e1rios\u2026 Tem ali no comercial, na recep\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu fiz na Nacional o <em>Cidade ao vivo<\/em>. O <em>Cidade ao vivo<\/em> migrou junto [da R\u00e1dio Nacional] para a Vila Velha e depois se transformou em <em>Rede Rock,<\/em> e eu fiquei como \u00e2ncora. Fui para a CBN, fui para a Difusora, sempre em hor\u00e1rio nobre e agora eu estou na MZ, tamb\u00e9m em hor\u00e1rio nobre, mas agora s\u00f3 fa\u00e7o o esporte, n\u00e3o me envolvo com o resto.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Quando voc\u00ea ia transmitir as not\u00edcias, como eram feitas as apura\u00e7\u00f5es? As not\u00edcias eram lidas do impresso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/JUCA1.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Ler do impresso ainda \u00e9 muito forte, at\u00e9 hoje. Hoje ganhou o refor\u00e7o da internet, at\u00e9 porque entra na \u00f3tica de redu\u00e7\u00e3o de custo de fazer reportagem, de apurar, de ir buscar a not\u00edcia l\u00e1 na fonte, da\u00ed se fica lendo jornal ou retransmitindo a not\u00edcia da internet. E \u00e9 claro que entra naquele perfil, que ele s\u00f3 vai ler aquilo que agrada ele, o que ele acha que \u00e9 certo. Por exemplo, nos dias de hoje, polarizada como est\u00e1 a coisa [a pol\u00edtica], o cara fala s\u00f3 de uma coisa ou fala s\u00f3 de outra, depende daquilo que ele acha que \u00e9 certo e fica passando isso para o ouvinte. N\u00e3o existe mais aquela coisa de escutar os dois lados da hist\u00f3ria. Um exemplo claro disso \u00e9 o vazamento da Intercept que poderia ser uma coisa que por ter uma repercuss\u00e3o mundial, aqui no Brasil os ve\u00edculos que est\u00e3o de um lado usam um discurso para defender, como se n\u00e3o houvesse acontecido nada demais. E, do outro lado, principalmente da m\u00eddia alternativa, nos blogs que revolucionaram o jornalismo hoje, se voc\u00ea for ver, tem gente que nem se informa mais pelos grandes ve\u00edculos, alguns j\u00e1 est\u00e3o chamando da velha imprensa. Hoje as pessoas se informam pelos blogs, o que tamb\u00e9m \u00e9 uma coisa terr\u00edvel porque a maioria dos blogs ou \u00e9 de direita ou de esquerda e isso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 jornalismo. Uma forma de driblar essa falta de estrutura era voc\u00ea ter uma equipe boa, ent\u00e3o se voc\u00ea tinha algu\u00e9m, ele ficava por editoria, em esportes, por exemplo, e o cara que ficou respons\u00e1vel ia atr\u00e1s, buscava, fazia reportagem. Era dif\u00edcil rep\u00f3rter de mat\u00e9rias gerais.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/JUCA-FRAN-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5947\" width=\"572\" height=\"429\" \/><figcaption>Posse de Juca Francisquini (primeiro plano) na presid\u00eancia do DCE &#8211; UEPG, em 1984 | <br>Foto: Acervo de Negativos do CRAV\/Museu Campos Gerais <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Normalmente, a hist\u00f3ria do r\u00e1dio de Ponta Grossa nem em jornais est\u00e1 registrada. S\u00e3o os pr\u00f3prios jornalistas que se empenham de alguma forma que consegue resgatar a hist\u00f3ria. Mas teve um radialista, o Aldo Mikaelli, que foi o \u00fanico que escreveu e \u00e9 riqu\u00edssimo, claro que ele foi dentro das prefer\u00eancias dele, das rela\u00e7\u00f5es dele. Porque a hist\u00f3ria que a gente conta, a minha que estou contando pra voc\u00ea, ela passou pela minha lente e ela \u00e9 contaminada pelos meus gostos, por aquilo que aconteceu na minha vida. No caso do Aldo tamb\u00e9m, mas \u00e9 o cara que conseguiu. Ele faleceu e eu n\u00e3o sei o que feito com o material, porque ele tinha muita coisa gravada. Na d\u00e9cada de 1980 tivemos o Nilson de Oliveira e claro que teve outras pessoas ali, mas ningu\u00e9m teve o sucesso do Nilson de Oliveira. Ele foi impressionante, tanto no jornalismo de manh\u00e3, quanto a tarde com programa popular, de m\u00fasica popular, ele era muito forte. Mas na d\u00e9cada de 1970 n\u00f3s tivemos o Grande Jornal Falado HM que a cidade parava para escutar, mas era aquela coisa embolada, bem antiga mesmo. Era um pessoal muito influenciado pela R\u00e1dio Nacional, pelo sucesso da R\u00e1dio Nacional, Rep\u00f3rter Esso. Pra trabalhar na r\u00e1dio tinha que ter um vozeir\u00e3o. De um tempo pra c\u00e1, voc\u00ea ouve gente trabalhando no r\u00e1dio que nem tem voz. E a gente tinha o famoso jornal falado HM na hora do almo\u00e7o. Eu sei disso porque eu era adolescente, estudava no gin\u00e1sio e almo\u00e7ava na casa da minha tia, e era quase que uma coisa sagrada, as pessoas se reuniam para escutar. Foi quando surgiu aquela cr\u00f4nica <em>Perfis da cidade<\/em>, uma coisa bem careta, mas era a cabe\u00e7a das pessoas da \u00e9poca. Nessa \u00e9poca a gente teve um cara que foi meio deus na cidade, no r\u00e1dio, o chamado Barros J\u00fanior, que era comentarista esportivo e que lia essas cr\u00f4nicas, uma voz linda. O filho do Guaraci Paranaviera que escrevia, tentou reeditar e colocar no r\u00e1dio, mas n\u00e3o deu certo. Inclusive a CBN colocou, outras r\u00e1dios colocaram, mas as pessoas mudaram, as fam\u00edlias mudaram e ningu\u00e9m gostou. Mas o r\u00e1dio hoje acabou por virar um instrumento pol\u00edtico, todas as emissoras est\u00e3o em m\u00e3os de pol\u00edticos, apesar de que a constitui\u00e7\u00e3o pro\u00edbe isso, mas voc\u00ea vai no Brasil inteiro e, pra fazer uma legisla\u00e7\u00e3o, aquela chamada regula\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o passa nunca, porque todos os deputados s\u00e3o donos de r\u00e1dio.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Na sua opini\u00e3o, qual \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o social do r\u00e1dio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que hoje o r\u00e1dio n\u00e3o cumpre fun\u00e7\u00e3o social nenhuma. Ele cumpriria se informasse, se fizesse as coisas como tem que ser, se fizesse aquilo que voc\u00eas aprendem no curso de Jornalismo. Um exemplo de fun\u00e7\u00e3o social hoje do r\u00e1dio seria estabelecer uma discuss\u00e3o ampla sobre a reforma da previd\u00eancia e trazer todos os lados. Mas voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea isso, o que se v\u00ea s\u00e3o campanhas a favor de uma proposta. E muitas confundem fun\u00e7\u00e3o social com fazer assistencialismo, que nada mais \u00e9 do que explora\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o mais carente, das necessidades da popula\u00e7\u00e3o carente. Ent\u00e3o eu acho que n\u00e3o cumpre fun\u00e7\u00e3o social nenhuma hoje.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Qual a diferen\u00e7a da participa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico de antes e de agora?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/JUCA2.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Antes, \u00e9 claro, porque as pessoas n\u00e3o tinham acesso, as pessoas, \u00e0s vezes, n\u00e3o tinham em casa nem um toca-disco, um toca-fita, n\u00e3o tinham nada.<strong> <\/strong>Ent\u00e3o, as coisas, todas as informa\u00e7\u00f5es, chegavam na casa delas pelo r\u00e1dio, porque nem televis\u00e3o tinham. Mas o envolvimento dos ouvintes era muito grande. Eu sei porque eu fazia programas, j\u00e1 mais dentro da \u00e1rea de assistencialismo, porque as pessoas come\u00e7am a procurar e a pedir coisas e voc\u00ea se compadece. N\u00e3o tinha nenhum interesse pol\u00edtico, mas eu gostava de ajudar e tinha brindes. Conseguia os brindes no com\u00e9rcio e eu sorteava, e era s\u00f3 gente ligando. Se fosse WhatsApp seria uma loucura, mas na \u00e9poca era telefone, tinha quatro ramais. Eu sa\u00eda l\u00e1 do est\u00fadio e ia para a recep\u00e7\u00e3o, tinha duas meninas trabalhando e voc\u00ea olhava as quatro linhas ocupadas. Era muita gente que deixava o nome s\u00f3 para concorrer a pr\u00eamios, pra voc\u00ea ver o n\u00edvel de car\u00eancia. Tinham pr\u00eamios melhores, mas eram pr\u00eamios simples. E a m\u00fasica sempre foi a paix\u00e3o desse povo. Hoje eu vejo essas m\u00fasicas sertanejas e me d\u00e1 um desespero, mas isso j\u00e1 era visto que aconteceria. Eu s\u00f3 n\u00e3o imaginava que ia entrar na universidade com a for\u00e7a que entrou, porque na minha \u00e9poca de estudante, de l\u00edder estudantil, n\u00e3o entrava, s\u00f3 entrava MPB. Tanto \u00e9 que o folk surgiu a partir disso, porque o universit\u00e1rio amava m\u00fasica popular brasileira. Era at\u00e9 fruto dos festivais da \u00e9poca e aqui dentro [da universidade] n\u00e3o tinha espa\u00e7o para a m\u00fasica estrangeira, m\u00fasica sertaneja. Acho que a esquerda come\u00e7ou a perder a guerra, quando come\u00e7ou a perder a batalha cultural.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Como que voc\u00ea percebeu a transi\u00e7\u00e3o do AM para o FM? Como percebeu a aceita\u00e7\u00e3o dessa mudan\u00e7a tanto pelos profissionais do r\u00e1dio como pelos ouvintes?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/JUCA3.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>O AM estava sendo condenado, porque tinha r\u00e1dio que n\u00e3o tinha mais AM, ent\u00e3o era a quest\u00e3o da pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da r\u00e1dio migrar para a frequ\u00eancia modulada. Se n\u00e3o fizesse, n\u00e3o iria mais ter quem escutasse. E o que a gente percebe \u00e9 que muitas r\u00e1dios entraram em um conflito porque migraram para a FM com cabe\u00e7a de AM, da\u00ed n\u00e3o funcionou. Vejo aqueles que tentaram: a Difusora que saiu de uma programa\u00e7\u00e3o bem popular, pra tentar ser uma programa\u00e7\u00e3o de m\u00fasica classe A. M\u00fasica boa, de qualidade. Mas a identifica\u00e7\u00e3o da r\u00e1dio era daquele tipo de m\u00fasica. E n\u00e3o funcionou. Poucas se adaptaram bem. Mas no meu entendimento, foi uma transi\u00e7\u00e3o boa. N\u00e3o adianta ter uma programa\u00e7\u00e3o boa se o som estiver ruim. R\u00e1dio tem que ter som bom, limpo, de qualidade, sen\u00e3o n\u00e3o funciona e o tempo foi mostrando isso. Principalmente na narra\u00e7\u00e3o esportiva, que voc\u00ea vai fazer uma transmiss\u00e3o fora, tanto \u00e9 que antigamente se fazia por linha telef\u00f4nica as transmiss\u00f5es esportivas<strong>,<\/strong> hoje j\u00e1 se criaram novas tecnologias, se faz pela internet, tem v\u00e1rias tecnologias que o cara est\u00e1 l\u00e1 no Amazonas e o jogo est\u00e1 sendo transmitido aqui. Parece que o cara est\u00e1 no est\u00fadio ali, por causa de tanta tecnologia que surgiu e a maioria via internet. A internet d\u00e1 uma qualidade muito maior.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A r\u00e1dio continua sendo uma grande paix\u00e3o. Conheci muita gente no r\u00e1dio, as pessoas envelhecem fazendo r\u00e1dio e est\u00e3o com 70 anos com a mesma paix\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam mais aquela energia f\u00edsica de quando tinha 30, mas \u00e9 a mesma paix\u00e3o. Muitos n\u00e3o conseguem acompanhar as mudan\u00e7as e ficam com a mesma cabe\u00e7a que tinham antes. Mas o r\u00e1dio \u00e9 uma coisa fant\u00e1stica. \u00c9 impressionante: voc\u00ea faz o programa e sai na rua ou est\u00e1 na fila do caixa do supermercado e recebe um feedback imediato dos ouvintes porque eles v\u00eam falar com voc\u00ea. Voc\u00ea encontra quem escutou teu programa e ele j\u00e1 vem falar com voc\u00ea e, os ouvintes, de modo geral, s\u00e3o muitos carinhosos com os comunicadores.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\" \/>\n\n\n\n<p>A s\u00e9rie de entrevistas com profissionais que atuaram e atuam no r\u00e1dio ponta-grossense \u00e9 fruto do trabalho da estudante Nadine Sansana, orientada pelo professor S\u00e9rgio Gadini, pelo Programa Institucional de Bolsas de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica da Universidade Estadual de Ponta Grossa, vigente entre os anos de 2018 e 2019. Sob o t\u00edtulo <em>Mem\u00f3rias de vida e trabalho na m\u00eddia regional dos Campos Gerais do Paran\u00e1<\/em>, o projeto contribui com o acervo memorial\u00edstico radiof\u00f4nico da cidade, tendo em vista a aus\u00eancia de arquivos, registros e documentos sobre a hist\u00f3ria do r\u00e1dio em Ponta Grossa.&nbsp;<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista: Nadine Sansana\u00a0 Edi\u00e7\u00e3o: Jessica Grossi e Matheus Gaston A entrevista com J\u00falio C\u00e9sar Moreira Francisquini foi realizada em junho de 2019, na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), pela estudante de gradua\u00e7\u00e3o em Jornalismo da UEPG, Nadine Bianca Sansana, como parte da sua pesquisa de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Francisquini nasceu em fevereiro de 1956 e&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":539,"featured_media":5939,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[35],"tags":[114],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5938"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/users\/539"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5938"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5938\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5938"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5938"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5938"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}