{"id":6334,"date":"2021-07-26T15:19:27","date_gmt":"2021-07-26T18:19:27","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=6334"},"modified":"2021-07-26T15:19:27","modified_gmt":"2021-07-26T18:19:27","slug":"marco-aurelio-de-souza-e-a-ilusao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/marco-aurelio-de-souza-e-a-ilusao\/","title":{"rendered":"Marco Aur\u00e9lio de Souza e a \u201cIlus\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>No come\u00e7o de julho, dia 3, nascia \u201cIlus\u00e3o\u201d, o novo livro de poesias de Marco Aur\u00e9lio de Souza. O lan\u00e7amento acompanhou as limita\u00e7\u00f5es impostas pela pandemia de coronav\u00edrus, portanto, foi virtual. Natural de Rio Negro\/PR, o escritor \u00e9 autor dos livros \u201cAssombro Zen\u201d (2020), \u201cOs touros de Bas\u00e3\u201d (2019), \u201cAnjo Voraz\u201d (2018), \u201cTravessia\u201d (2017), \u201cConex\u00f5es Perigosas\u201d (2014) e \u201cO Intruso\u201d (2013).<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma conversa com o <em>Cultura Plural<\/em>, Marco Aur\u00e9lio explica o trabalho \u00e1rduo da escrita e fala sobre a situa\u00e7\u00e3o atual do pa\u00eds e da cidade de Ponta Grossa diante das crises m\u00faltiplas que fazem com que o trabalho art\u00edstico seja completamente modificado. Confira:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Primeiro, gostaria que se apresentasse. Quem \u00e9 Marco Aur\u00e9lio de Souza e o que a literatura representa para ele?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quem \u00e9 Marco Aur\u00e9lio de Souza eu n\u00e3o sei, pois o conhe\u00e7o somente de vista \u2013 ele ainda n\u00e3o se revelou a mim por completo \u2013, mas pelo que j\u00e1 li dos seus livros, suponho que, para ele, a literatura representa a possibilidade de interagir com o outro e com o mundo de uma forma mais rica e complexa do que aquela da comunica\u00e7\u00e3o trivial; mais conforme, portanto, \u00e0 pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quais sentimentos perpassam a cabe\u00e7a de um escritor ao decidir se dedicar \u00e0 literatura em um per\u00edodo conturbado como o da pandemia do coronav\u00edrus? Como foi o seu processo de escrita nesse per\u00edodo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora eu n\u00e3o desdenhe da ideia de inspira\u00e7\u00e3o, escrever \u00e9 uma pr\u00e1tica que demanda muita disposi\u00e7\u00e3o e, nos exerc\u00edcios de maior f\u00f4lego, muita disciplina tamb\u00e9m. Antes da pandemia, minha rotina de escrita estava bastante regular \u2013 eu me sentia disposto para trabalhar e tentava me regrar para que a produ\u00e7\u00e3o fosse constante. Quando come\u00e7aram as restri\u00e7\u00f5es e, sobretudo, quando os obitu\u00e1rios tomaram os jornais, meu emocional virou do avesso, assim como o de tantas e tantas pessoas mundo afora. Inicialmente, este desequil\u00edbrio rendeu um surto criativo. Acordava de madrugada para escrever. \u201cIlus\u00e3o\u201d foi todo escrito nesse per\u00edodo, entre os meses de mar\u00e7o e julho de 2020. Depois disso, entrei em uma fase mais ap\u00e1tica e, de l\u00e1 pra c\u00e1, produzi pouco. Ultimamente, s\u00f3 consigo pensar em como ainda n\u00e3o derrubamos esse canalha ign\u00f3bil que ocupa a presid\u00eancia do pa\u00eds. Bolsonaro tem essa capacidade \u00fanica de desesperar um pa\u00eds inteiro (inteiro mesmo, porque promove uma in\u00e9dita pol\u00edtica de manuten\u00e7\u00e3o do desgosto e das insatisfa\u00e7\u00f5es n\u00e3o somente entre seus cr\u00edticos como tamb\u00e9m entre os apoiadores, que vivem em permanente estado de paranoia), sequestrando toda a nossa aten\u00e7\u00e3o para o seu festival de imposturas e desonestidades.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O seu livro de poemas \u201cIlus\u00e3o\u201d \u00e9 uma releitura do livro de Emiliano Perneta de mesmo nome. Quando e como surgiu a inspira\u00e7\u00e3o para que essa releitura tomasse forma? De onde vem a admira\u00e7\u00e3o pela vida e obra de Perneta?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de \u201cIlus\u00e3o\u201d nasceu de uma visita fortuita ao Passeio P\u00fablico. Passeando com a fam\u00edlia, resolvi fazer uma foto com a minha filha na Ilha da Ilus\u00e3o, local em que existe um busto do \u201cpr\u00edncipe dos poetas paranaenses\u201d evocando o lan\u00e7amento de seu livro mais festejado, justamente o \u201cIlus\u00e3o\u201d, que ocorreu ali em 1911. Chegando \u00e0 ilhota, por\u00e9m, encontrei dificuldades para responder \u00e0 filha o que eram aqueles estranhos objetos que estavam jogados pelo ch\u00e3o, entre eles um xaxixo vestido com preservativo. Sa\u00ed de l\u00e1 com a ideia de reescrever um poema do Emiliano a partir da imagem decadente do Passeio P\u00fablico, e foi o que fiz algum tempo depois. Feita essa primeira releitura, por\u00e9m, entrei numa febre po\u00e9tica junto \u00e0 obra do Perneta e acabei reescrevendo boa parte da sua obra m\u00e1xima. A admira\u00e7\u00e3o pela vida e pela poesia do autor surgiram somente nesse processo de reescrita. Antes disso, Emiliano Perneta era apenas um vulto para mim.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Comparando os poemas escritos por Emiliano Perneta com suas releituras, \u00e9 poss\u00edvel perceber muito claramente a sua influ\u00eancia nas tem\u00e1ticas. O que diferencia a \u2018Ilus\u00e3o\u2019 de Emiliano e Marco Aur\u00e9lio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 pelo menos tr\u00eas tipos de poemas em minha releitura do \u201cIlus\u00e3o\u201d: aqueles que parafraseiam os temas originais de Emiliano, mas acrescentam uma vis\u00e3o de mundo e uma po\u00e9tica profundamente arraigadas no tempo presente; aqueles que parodiam os prop\u00f3sitos originais do Emiliano, invertendo sua \u00f3tica e subvertendo seus temas (a transforma\u00e7\u00e3o do D. Juan em um tarado ou assediador, por exemplo), e; por fim, aqueles que possuem apenas uma rela\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica com o poema original do Emiliano, atrav\u00e9s da forma e do tema, mas sem qualquer rela\u00e7\u00e3o direta com a sua escrita. Penso que, apesar dos motivos roubados do simbolista, os dois livros s\u00e3o express\u00f5es de tempos diferentes, portanto se distanciam em diversos aspectos. Enquanto Emiliano estava preocupado com os ideais e com o valor supremo da est\u00e9tica, meu livro passeia por um realismo decadente, onde aqueles motivos foram abolidos ou transformados em uma farsa mercadol\u00f3gica.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Muitos dos temas abordados pelos poemas s\u00e3o ainda mais fortes diante da situa\u00e7\u00e3o atual, de isolamento e crises m\u00faltiplas. Para voc\u00ea, como a pandemia afetou o jeito como as pessoas est\u00e3o lendo poesia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sinceramente, n\u00e3o sei. Percebo que alguns textos, algumas can\u00e7\u00f5es, alguns filmes parecem ter sido ressignificados em nosso contexto, \u00e0 luz do isolamento de parte da sociedade, das estat\u00edsticas de mortes e da esperan\u00e7a em dias melhores. Por outro lado, a possibilidade de ressignifica\u00e7\u00e3o e da releitura condicionada pelos diferentes contextos \u00e9 uma caracter\u00edstica que sempre acompanhou a arte, logo, isto n\u00e3o \u00e9 algo exatamente novo. A pr\u00f3pria releitura que fiz do Perneta mostra como a recep\u00e7\u00e3o de uma obra muda ao longo do tempo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/FOTOS-CP-960-X-640-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-6335\" width=\"561\" height=\"373\" \/><figcaption>Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Kotter Editorial<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Como voc\u00ea enxerga o cen\u00e1rio da literatura em Ponta Grossa nos \u00faltimos anos? Acredita que a visibilidade necess\u00e1ria \u00e9 alcan\u00e7ada para que autores consigam ter maior incentivo para continuar produzindo arte na cidade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Vejo esse cen\u00e1rio com bons olhos e o considero muito promissor. H\u00e1 muita gente escrevendo e publicando, projetos nascendo, editoras funcionando. Somente com a Olaria Cartonera, j\u00e1 publicamos quase 20 autores e autoras da regi\u00e3o. Quanto \u00e0 visibilidade, por\u00e9m, ela continua deficit\u00e1ria como sempre. Existem bons projetos que poderiam, com um m\u00ednimo de apoio institucional, e a\u00ed me refiro ao papel da Prefeitura da cidade nessa empreitada, promover e fomentar a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de Ponta Grossa. N\u00e3o \u00e9 o que acontece, contudo. \u00c9 claro que os autores precisam trabalhar para formar p\u00fablico, mas, a depender dos espontane\u00edsmos individuais, a coisa n\u00e3o funciona e jamais ir\u00e1 funcionar. Literatura \u00e9 sistema coletivo. A Funda\u00e7\u00e3o de Cultura continua apostando numa vis\u00e3o capenga do fazer liter\u00e1rio, vendo a escrita como um hobbie desinteressado ou um capricho memorial\u00edstico das elites. Os que escrevemos com os olhos voltados para o futuro, se n\u00e3o embarcamos nessa vis\u00e3o da \u201cliteratura local\u201d, ficamos de lado, praticamente invis\u00edveis. O que o poder p\u00fablico daqui parece n\u00e3o compreender \u00e9 que os artistas s\u00e3o os maiores interessados na pasta da cultura, e poderiam (mais que isso: deveriam) trabalhar com o mesmo prop\u00f3sito dos gestores: buscando o melhor cen\u00e1rio poss\u00edvel para a cultura da cidade. Lamentavelmente, o que ocorre \u00e9 que, se voc\u00ea tem um m\u00ednimo de senso cr\u00edtico e o expressa publicamente, voc\u00ea se torna uma esp\u00e9cie de zumbi orbitando o sal\u00e3o social da cultura oficial da cidade. E se, por um milagre, voc\u00ea conseguir uma empadinha com um gar\u00e7om gente fina, ainda aparece algu\u00e9m dizendo que voc\u00ea precisa ir l\u00e1 agradecer ao dono da festa pela fartura do banquete.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual \u00e9 o pr\u00f3ximo passo para Marco Aur\u00e9lio de Souza?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O pr\u00f3ximo passo \u00e9 convencer a mim mesmo que um pr\u00f3ximo passo realmente existe, que tudo isso n\u00e3o \u00e9 apenas uma imensa e cruel ilus\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O lan\u00e7amento de \u201cIlus\u00e3o\u201d pode ser revisto pelo <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=RoJVTm07eQU&amp;t=1s\">Youtube<\/a>, no canal Kotter TV.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma conversa com o Cultura Plural, Marco Aur\u00e9lio explica o trabalho \u00e1rduo da escrita e fala sobre a situa\u00e7\u00e3o atual do pa\u00eds e da cidade de Ponta Grossa diante das crises m\u00faltiplas que fazem com que o trabalho art\u00edstico seja completamente modificado.<\/p>\n","protected":false},"author":561,"featured_media":6340,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6334"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/users\/561"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6334"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6334\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6334"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6334"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6334"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}