{"id":6387,"date":"2021-08-11T09:50:46","date_gmt":"2021-08-11T12:50:46","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=6387"},"modified":"2021-08-11T09:50:46","modified_gmt":"2021-08-11T12:50:46","slug":"esquadrao-suicida-2021-abrangencia-dilatada-transforma-o-filme-em-uma-catarse-sem-bases-ou-mesmo-graca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/esquadrao-suicida-2021-abrangencia-dilatada-transforma-o-filme-em-uma-catarse-sem-bases-ou-mesmo-graca\/","title":{"rendered":"&#8220;Esquadr\u00e3o Suicida&#8221; (2021), abrang\u00eancia dilatada transforma o filme em uma catarse sem bases, ou mesmo gra\u00e7a"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 2016 \u201cEsquadr\u00e3o Suicida\u201d de David Ayer entregou um filme que desde ent\u00e3o se tornou uma das melhores ilustra\u00e7\u00f5es do que est\u00e1 errado com o modus operandi da Hollywood contempor\u00e2nea. A divulga\u00e7\u00e3o investiu maci\u00e7amente nos trailers para criar expectativa no p\u00fablico alvo, o est\u00fadio cerceou a edi\u00e7\u00e3o tirando o controle da m\u00e3o do diretor e o resultado foi uma obra remendada, apressada e ca\u00f3tica que era ris\u00edvel em sua ingenuidade e irritante na est\u00e9tica vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinco anos depois, o diretor e roteirista James Gunn, da franquia da concorr\u00eancia Guardi\u00f5es da Gal\u00e1xia, toma para si a tarefa de redimir o grupo de mercen\u00e1rios da DC comics. E mesmo sendo nitidamente distinta, a vers\u00e3o de Gunn soa ir\u00f4nica por cometer os mesmos erros da de Ayer, ainda que em escala menos embara\u00e7osa, e por ser v\u00edtima de suas boas inten\u00e7\u00f5es de teto de vidro.<\/p>\n\n\n\n<p>A trama acompanha o grupo de super-vil\u00f5es trabalhando a contragosto para a radical e irredut\u00edvel Amanda Waller (Vilola Davis) em uma miss\u00e3o de destruir uma base nazista sob o comando de um governo ditatorial latino de Colto-Maltese. Qualquer semelhan\u00e7a com \u201cPredador\u201d (1987) e \u201cOs Mercen\u00e1rios\u201d (2010), estrelado por Sylvester Stallone que dubla o tubar\u00e3o Nanaue, \u00e9 proposital.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte do que torna o novo filme da franquia t\u00e3o decepcionante \u00e9 o fato de que ao querer abra\u00e7ar tantos tipos de narrativas, ele acaba sabotando seu tom e tornando tudo que tenta em um exerc\u00edcio bipolar de deboche e sentimentalismo barato. A raiz disso reside em digladio conceitual que j\u00e1 nasce na ideia governante, como definiria Robert Mackee. Ao se definir como uma s\u00e1tira\/homenagem ao cinema brucutu estadunidense e zombar da pr\u00f3pria galhofa, o longa transforma em chacota toda a iconografia inerente ao g\u00eanero de super-her\u00f3is.<\/p>\n\n\n\n<p>O que n\u00e3o seria um problema se essa fosse a \u00fanica proposta do filme. Mas ela \u00e9 tra\u00edda quando, no terceiro ato, o filme pede para que reconsideremos o que ele mesmo construiu para que abracemos o sentimentalismo e assim legitimar a reden\u00e7\u00e3o de personagens que pouco se importam com isso ou demonstram carisma para tanto.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 um tom cacof\u00f4nico que s\u00f3 torna tudo mais ma\u00e7ante conforme o roteiro progride com sua constru\u00e7\u00e3o fraca, tanto de cenas, estrutura e ritmo mal alinhados. Gunn, outrora criativo na elabora\u00e7\u00e3o de din\u00e2micas que constru\u00edam cativantes personalidades de nas intera\u00e7\u00f5es de seus supergrupos, agora se v\u00ea ref\u00e9m de interrup\u00e7\u00f5es no fluxo narrativo para dar momentos de pura exposi\u00e7\u00e3o verbal pregui\u00e7osa. Algo que podia passar batido se n\u00e3o fosse t\u00e3o recorrente.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal pobreza da constru\u00e7\u00e3o narrativa tamb\u00e9m se entende para o humor do filme e para a pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o. Poucas piadas s\u00e3o trabalhadas para surtir efeito e se limitam a coment\u00e1rios desbocados que soam embara\u00e7osos pela verbaliza\u00e7\u00e3o sem sagacidade ou oportunismo. J\u00e1 a dire\u00e7\u00e3o acentua as falhas do script ao misturar ambi\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica e viol\u00eancia desmedida, que aborrece pela falta de crit\u00e9rio e com isso nos presenteia com cenas confusas e desconexas como a de Nananue vislumbrando um et\u00e9reo aqu\u00e1rio, apenas para ser atacado posteriormente pelos coloridos peixes de l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia soa como uma marra narrativa que apenas deixa tudo mais antip\u00e1tico nos momentos de catarse e c\u00ednico nos que supostamente ela deveria ter algum impacto. Quando comparamos esse uso ao de uma das refer\u00eancias de Gunn, Quentin Tarantino, vemos na hora o que n\u00e3o funciona. O segundo nunca nos choca com explos\u00f5es de selvageria sem tensionar o m\u00e1ximo que pode cada situa\u00e7\u00e3o e assim dar estofo \u00e0 catarse da viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A est\u00e9tica brucutu faz o discurso ca\u00f3tico do filme soar hip\u00f3crita e inv\u00e1lido. Expor o passado abjeto dos EUA na guerra fria e seu hist\u00f3rico de boicote \u00e0s democracias latino-americanas \u00e9 algo nobre e mereceria reconhecimento pelo fator mea culpa. Mas se isso n\u00e3o ocorre \u00e9 porque o filme posiciona os estadunidenses como causa da ru\u00edna de povos terr\u00e1queos e alien\u00edgenas e simultaneamente como os salvadores dos mesmos. E pior, agindo como sempre: \u00e0 base de agress\u00e3o est\u00fapida, autoindulgente e romantizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que esparsos, o filme tem momentos isolados que se destacam por m\u00e9rito pr\u00f3prio. A rivalidade entre Pacificador (John Cena) e Sanguin\u00e1rio (Idris Elba) rende a melhor piada do filme. A do\u00e7ura e amabilidade, ainda que hiperb\u00f3licas, da Ca\u00e7a Ratos II consegue vez ou outra contrapor toda a carnificina desmiolada. E o passado do Homem Bolinhas (David Dastmalkian) com a m\u00e3e o torna o integrante mais complexo do grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>A cena onde ele consegue se soltar em uma pista de dan\u00e7a mesmo rodeado por seus traumas \u00e9 a \u00fanica onde o sentimentalismo do filme soa honesto. Algo que s\u00f3 faz o seu descarte abrupto na trama soar cretino. Ainda mais quando o personagem \u00e9 caracterizado como o \u00fanico homossexual do grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio de Ayer, Gunn teve um controle criativo assegurado pela Warner Bros. Mas isso joga contra o filme por, primeiro: denotar o qu\u00e3o indiferente a autoralidade do cineasta \u00e9 perante a qualidade da obra e, segundo: por expor o quanto esse universo de vil\u00f5es marginalizados soa incongruente com a est\u00e9tica p\u00f3s-moderna de blockbusters&nbsp; com que ele construiu seu nome na ind\u00fastria.<\/p>\n\n\n\n<p>Querer ridiculariz\u00e1-los ao mesmo tempo que se tenta cavar fundo em suas personalidades resulta em sabotagem m\u00fatua. A \u00fanica franquia atual que sabe como fazer isso \u00e9 do mercen\u00e1rio desbocado Deadpool (Ryan Reynolds). A efici\u00eancia de l\u00e1 reside na separa\u00e7\u00e3o do que \u00e9 valoroso e verdadeiro do que \u00e9 rid\u00edculo e destinado ao esc\u00e1rnio. Distin\u00e7\u00e3o que o novo Esquadr\u00e3o Suicida nunca consegue definir ou construir de forma satisfat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/drive.google.com\/u\/0\/settings\/storage?hl=pt-BR&amp;utm_medium=web&amp;utm_source=gmail&amp;utm_campaign=storage_meter&amp;utm_content=storage_normal\" rel=\"noreferrer noopener\"><\/a><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2016 \u201cEsquadr\u00e3o Suicida\u201d de David Ayer entregou um filme que desde ent\u00e3o se tornou uma das melhores ilustra\u00e7\u00f5es do que est\u00e1 errado com o modus operandi da Hollywood contempor\u00e2nea. A divulga\u00e7\u00e3o investiu maci\u00e7amente nos trailers para criar expectativa no p\u00fablico alvo, o est\u00fadio cerceou a edi\u00e7\u00e3o tirando o controle da m\u00e3o do diretor e&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":570,"featured_media":6388,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[15,125],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6387"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/users\/570"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6387"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6387\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6387"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6387"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6387"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}