{"id":6518,"date":"2021-10-13T12:43:31","date_gmt":"2021-10-13T15:43:31","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=6518"},"modified":"2021-10-13T12:43:31","modified_gmt":"2021-10-13T15:43:31","slug":"lancamentos-apresentam-genero-de-crimes-reais-para-o-cinema-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/lancamentos-apresentam-genero-de-crimes-reais-para-o-cinema-nacional\/","title":{"rendered":"Lan\u00e7amentos apresentam g\u00eanero de crimes reais para o cinema nacional"},"content":{"rendered":"\n<p>A hist\u00f3ria do crime real envolvendo Suzane Von Richthofen e os irm\u00e3os Cravinhos se transformou em cinema em setembro, depois de quase dois anos da espera para o lan\u00e7amento, com a dire\u00e7\u00e3o de Maur\u00edcio E\u00e7a, que surpreendeu ao saltar do \u00e2mbito infanto-juvenil para uma produ\u00e7\u00e3o de crime real, e o roteiro dos j\u00e1 conhecidos Ilana Casoy e Raphael Montes. A grande surpresa, al\u00e9m do lan\u00e7amento exclusivo para o servi\u00e7o de streaming Amazon Prime, foi o formato: o enredo \u00e9 contado em dois filmes diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Baseados inteiramente nos depoimentos de Suzane Von Richthofen e Daniel Cravinhos, os filmes apresentam ambos tentando justificar suas a\u00e7\u00f5es por meio de narrativas acusat\u00f3rias. Na vers\u00e3o de Suzane, ela \u00e9 uma jovem menina manipulada pelo namorado para gastar o dinheiro dos pais e, eventualmente, ajudar a arquitetar o assassinato deles. J\u00e1 na vers\u00e3o contada por Daniel, ele foi convencido pela namorada a matar os pais dela para que pudessem viver uma vida juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>No papel, a divis\u00e3o em dois filmes de menos de duas horas de dura\u00e7\u00e3o funciona bem, j\u00e1 que divide completamente os dois relatos e faz com que as diferen\u00e7as sejam facilmente reconhecidas. Na pr\u00e1tica, s\u00e3o quase tr\u00eas horas assistindo obras similares at\u00e9 demais. Por mais que seja uma experi\u00eancia interessante passar todo esse tempo tentando captar as pequenas diferen\u00e7as nos figurinos, atitudes e falas dos personagens, algumas cenas parecem ser completamente id\u00eanticas. O destaque fica, \u00e9 claro, com o \u00e1pice dos dois filmes: o assassinato de Manfred e Mar\u00edsia, pais de Suzane. Com uma boa atua\u00e7\u00e3o de Carla Diaz e Leonardo Bittencourt, o p\u00fablico se v\u00ea cercado por vers\u00f5es que n\u00e3o acabam mais em um mesmo crime.<\/p>\n\n\n\n<p>Pontua\u00e7\u00f5es importantes para o acontecimento s\u00e3o deixadas de lado, ou retratadas com poucos a nenhum detalhe. Um dos fatores mais discutidos sobre o caso \u00e9 a quest\u00e3o socioecon\u00f4mica envolvida entre as fam\u00edlias, mas vemos apenas de forma ilustrativa, quase que simpl\u00f3ria, o quanto isto influenciou nas a\u00e7\u00f5es dos envolvidos no assassinato. N\u00e3o existe uma din\u00e2mica que problematize as diferen\u00e7as entre os Von Richthofen e Cravinhos al\u00e9m das informa\u00e7\u00f5es que o p\u00fablico j\u00e1 tem na palma de suas m\u00e3os. Como o acesso para detalhes pessoais dos envolvidos est\u00e1 cada vez mais normalizado, o roteiro deveria se preocupar mais em trazer uma experi\u00eancia al\u00e9m do entendimento de lado A e B, mas tamb\u00e9m do cen\u00e1rio em que o acontecimento estava inserido.<\/p>\n\n\n\n<p>A dire\u00e7\u00e3o de E\u00e7a tem seus pontos altos, com cenas que deixam o espectador em transe pela baixa ilumina\u00e7\u00e3o e altera\u00e7\u00e3o sublime da paleta de cores, que fica progressivamente mais escura at\u00e9 chegar no seu \u00e1pice, a cena do assassinato dos pais. Diaz \u00e9 brilhante nas sequ\u00eancias de confus\u00e3o, passando a sensa\u00e7\u00e3o de que a pr\u00f3pria Suzane se arrependia dos seus atos assim que pecava. Entretanto, a sonoplastia deixou a desejar. Em uma tentativa de constru\u00e7\u00e3o da expectativa das emo\u00e7\u00f5es que o filme entregaria, vers\u00f5es alternativas de m\u00fasicas do Radiohead e Joy Division, como \u201cLove Will Tear Us Apart\u201d (O amor vai nos dilacerar, da tradu\u00e7\u00e3o livre) seriam acr\u00e9scimos significativos ao filme, mas deixou o formato da finaliza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria mecanizado, como se fosse um filme ficcional.<\/p>\n\n\n\n<p>O Menino que Matou Meus Pais e A Menina que Matou os Pais abre o caminho para o g\u00eanero cinematogr\u00e1fico de crimes reais, juntando o mercado brasileiro ao internacional, que j\u00e1 percebeu o quanto essas hist\u00f3rias vendem h\u00e1 muito tempo. Ao acompanhar essa tend\u00eancia, podemos imaginar um futuro promissor para o g\u00eanero, que pode ter seus pontos negativos e positivos dependendo da qualidade do trabalho. Quando feito corretamente, cinema de crimes reais refor\u00e7a a mem\u00f3ria coletiva nacional diante de situa\u00e7\u00f5es graves e marcantes, mas, caso exista o menor erro, um filme pode acabar se assemelhando ao jornalismo sensacionalista ao fazer com que v\u00edtimas e criminosos virem personagens e n\u00e3o retratos da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico \u00e9 um reflexo deste cuidado com a narrativa. O caso \u00e9 conhecido popularmente por todo o Brasil, e j\u00e1 havia a divis\u00e3o de \u201clados\u201d da hist\u00f3ria antes mesmo do lan\u00e7amento do filme. Com a adi\u00e7\u00e3o de cenas representando o julgamento dos culpados, \u00e9 poss\u00edvel ver a situa\u00e7\u00e3o de acusa\u00e7\u00f5es e disparidades sendo claramente arquitetada para que n\u00e3o apenas o juiz e o j\u00fari ali presentes decidam quem est\u00e1 mais certo ou errado, mas tamb\u00e9m o p\u00fablico de fora que acompanha o caso at\u00e9 hoje. Mesmo com a pobreza na transpar\u00eancia dos depoimentos no longa, inseri-los no in\u00edcio e fim do filme \u00e9 uma escolha inteligente, pois induz o espectador a assistir o produto na \u00edntegra para conhecer as duas vers\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>De maneira geral, s\u00e3o filmes que alcan\u00e7am o prop\u00f3sito inicial de contar uma hist\u00f3ria j\u00e1 t\u00e3o explorada pela m\u00eddia h\u00e1 longos anos. \u00c9 poss\u00edvel argumentar que outro formato poderia ter sido escolhido para que o roteiro flu\u00edsse de maneira mais leve, como um document\u00e1rio ou um podcast, como na produ\u00e7\u00e3o de O Caso Evandro, com detalhes da hist\u00f3ria em epis\u00f3dios complementares, seguindo uma linha de racioc\u00ednio para a compreens\u00e3o dos fatos a partir das testemunhas e acusados, aspectos que o filme de E\u00e7a n\u00e3o se prop\u00f5e a apresentar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria do crime real envolvendo Suzane Von Richthofen e os irm\u00e3os Cravinhos se transformou em cinema em setembro, depois de quase dois anos da espera para o lan\u00e7amento, com a dire\u00e7\u00e3o de Maur\u00edcio E\u00e7a, que surpreendeu ao saltar do \u00e2mbito infanto-juvenil para uma produ\u00e7\u00e3o de crime real, e o roteiro dos j\u00e1 conhecidos Ilana&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":561,"featured_media":6519,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[125],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6518"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/users\/561"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6518"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6518\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6518"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6518"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6518"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}