{"id":6547,"date":"2021-10-22T20:00:12","date_gmt":"2021-10-22T23:00:12","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=6547"},"modified":"2021-10-22T20:00:12","modified_gmt":"2021-10-22T23:00:12","slug":"duna-uma-contemplativa-e-instigante-porta-de-entrada-para-o-grandioso-universo-de-frank","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/duna-uma-contemplativa-e-instigante-porta-de-entrada-para-o-grandioso-universo-de-frank\/","title":{"rendered":"Duna, uma contemplativa e instigante porta de entrada para o grandioso universo de Frank"},"content":{"rendered":"\n<p>O cineasta canadense Dennis Villenueve sempre prezou em suas obras pelo estabelecimento de uma sensa\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica que alinha a empatia do espectador ao calv\u00e1rio de seus protagonistas no meio em que est\u00e3o inseridos. Todos os esfor\u00e7os do diretor priorizam que o p\u00fablico experimente as prova\u00e7\u00f5es morais e sensoriais que os personagens s\u00e3o submetidos para que sintam profundamente as implica\u00e7\u00f5es dos temas e meandros abordados nessas hist\u00f3rias.&nbsp; Seja no universo d\u00fabio e sombrio do narcotr\u00e1fico em Sic\u00e1rio (2015), no acachapante e denso futuro de Blade Runner 2049 (2017) ou no pacato e trai\u00e7oeiro sub\u00farbio de Os Suspeitos (2013), todos usam do apelo sensorial para potencializar a experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Duna (2021), o modus operandi do diretor tem carta branca para fazer seu filme mais idiossincr\u00e1tico e, ainda assim, o mais direto de sua filmografia. Ao escolher adaptar a obra hom\u00f4nima de Frank Hebert em duas partes, o diretor se d\u00e1 o direito de usar praticamente toda essa primeira parte para apresentar e esmiu\u00e7ar o grandioso e inventivo palco da aventura criada em 1965.<\/p>\n\n\n\n<p>No filme, o cl\u00e3 dos Atreides \u00e9 designado pelo imperador do universo a substituir os Harkonnen na extra\u00e7\u00e3o de m\u00e9lange, subst\u00e2ncia primordial para viagens intergal\u00e1cticas, no planeta Arrakis. Tendo de lidar com a rela\u00e7\u00e3o conturbada com colonos traumatizados pela gest\u00e3o anterior em uma terra des\u00e9rtica e hostil, uma demanda exorbitante de extra\u00e7\u00e3o e atos de sabotagem do cl\u00e3 rival, Paul Atreides (Timothee Chalamet) e sua fam\u00edlia se veem presos a uma espiral de sublima\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia em que a magia e tecnologia que disp\u00f5em n\u00e3o apenas s\u00e3o paliativas como maximizam o medo do fracasso e da morte que ronda a empreitada.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Duna, \u00e9 n\u00edtido o interesse de Villenueve de criar um \u00e9pico fant\u00e1stico aos moldes de David Lean, onde a imin\u00eancia do caos \u00e9 mais contagiante do que a erup\u00e7\u00e3o. Das imagens lavadas e densas ao ritmo lento, o filme faz de tudo para definir a si pr\u00f3prio como o extremo oposto a fantasias space operas<a href=\"https:\/\/outlook.live.com\/mail\/0\/inbox\/id\/AQQkADAwATY3ZmYAZS1jNGQ4LTZkZmEtMDACLTAwCgAQAHIC3YoDNBxLjc6Zm14Mlcc%3D#x__ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;tradicionais e enraizadas na cultura pop como a franquia Star Wars.<\/p>\n\n\n\n<p>A abordagem n\u00e3o deixa de ser corajosa. Optando por fazer de cada sequ\u00eancia, introdu\u00e7\u00e3o e exposi\u00e7\u00e3o um banquete para olhos e ouvidos \u00e0s custas de uma dramaturgia subordinada ao ritmo convencional de blockbusters, Villenueve e equipe constroem esse universo de forma genuinamente original. Algo raro visto que a pasteuriza\u00e7\u00e3o criativa deixou de ser desleixo para se tornar ideologia profissional em Hollywood atualmente.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 ambivalente. Para os que anseiam por algo mais din\u00e2mico, enraizado na progress\u00e3o estrita de conflitos e suas ramifica\u00e7\u00f5es, certamente sa\u00edram decepcionados com o hermetismo de Villenueve e companhia. O amor do cineasta pelo material original o impede de tratar a riqueza da obra de Hebert de forma indiferente e corriqueira, visto que tanto para os Atreides como para o p\u00fablico, Arraquis \u00e9 uma oportunidade e tamb\u00e9m um mist\u00e9rio enervante. Tudo suscita tal contradi\u00e7\u00e3o, logo, tudo que aparece em tela se comporta como um enigma que agu\u00e7a o interesse e a aten\u00e7\u00e3o do olhar estrangeiro e colonizador do cl\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Por vezes tal amor ao detalhe e apelo sensorial soam exagerados e mon\u00f3tonos. Na veem\u00eancia de fazer o p\u00fablico ver e sentir o que acomete na mente de Paul, o filme ocasionalmente \u00e9 sufocado por seu privil\u00e9gio a beleza est\u00e9tica sob a organicidade do ritmo da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, para os que apreciam o estilo do diretor, demonstrado aqui em plena pot\u00eancia como em Blade Runner 2049, Duna ser\u00e1 uma forte porta de entrada para o exuberante universo que se prop\u00f5e a nos introduzir.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada grupo, local, gesto e objetos possuem elementos que nos instigam a compreender como a espiritualidade da obra de Hebert flui de forma \u00fanica conforme cada indiv\u00edduo interpreta e assimila a hist\u00f3ria e papel de Arrakis e seus habitantes no escopo do imp\u00e9rio gal\u00e1ctico. Vide a discrep\u00e2ncia entre a introdu\u00e7\u00e3o dos Sadaukkar, ex\u00e9rcito de elite do imp\u00e9rio, e dos nativos de Arrakkina. Os c\u00e2nticos religiosos possuem tons e ritmos semelhantes. Mas para um ele \u00e9 uma motiva\u00e7\u00e3o grotesca para a barb\u00e1rie enquanto para o outro \u00e9 um louvor \u00e0 sacro a figura messi\u00e2nica de Paul.<\/p>\n\n\n\n<p>A coes\u00e3o criativa de Villenueve faz com que cada departamento tenha seu potencial aproveitado em conflu\u00eancia. Todo o contingente t\u00e9cnico \u00e9 unido para criar um filme rico em texturas e formas que por si s\u00f3 j\u00e1 contam visualmente hist\u00f3rias e desfechos sobre as din\u00e2micas de conflito que regem a pol\u00edtica e sobreviv\u00eancia em Duna.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando levamos em conta o poder de tamanha carga narrativa, e como \u00e9 exposta apenas atrav\u00e9s de imagens e sons, a morosidade r\u00edtmica e eventuais excessos soam como meros deslizes quando denotado que s\u00e3o frutos de uma fonte rara de inventividade. A produ\u00e7\u00e3o \u00e9 elaborada com primor e dom\u00ednio excepcional das infinitas possibilidades da linguagem audiovisual para nos presentear com o que o g\u00eanero fant\u00e1stico tem de melhor: Um mundo onde tudo pode ser reconhecido, mas cuja apresenta\u00e7\u00e3o diferenciada nos incentiva a desvendar cada part\u00edcula que o comp\u00f5e.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como nos filmes de Terrence Malick, grande refer\u00eancia e inspira\u00e7\u00e3o de Villenueve, a riqueza visual e abstra\u00e7\u00e3o narrativa de Duna pode ser tratada como um capricho por aqueles sem paci\u00eancia para perscrut\u00e1-la. Mas para os que aceitam e abrem-se para tal abordagem, a obra se torna, ainda que imperfeita, uma viagem sensacional para os amantes do poder senso-imag\u00e9tico que apenas o cinema pode nos oferecer rumo \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es e vastos esplendores oriundos da criatividade de Frank Hebert.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p>&nbsp;<sup>[1]<\/sup>&nbsp;Novela espacial criada e popularizada em revistas especializadas em fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da virada do s\u00e9culo XIX para o XX.<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cineasta canadense Dennis Villenueve sempre prezou em suas obras pelo estabelecimento de uma sensa\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica que alinha a empatia do espectador ao calv\u00e1rio de seus protagonistas no meio em que est\u00e3o inseridos. 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