{"id":6640,"date":"2021-11-19T10:07:13","date_gmt":"2021-11-19T13:07:13","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=6640"},"modified":"2021-11-19T10:07:13","modified_gmt":"2021-11-19T13:07:13","slug":"filme-marighella-e-um-signo-da-ultima-decada-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/filme-marighella-e-um-signo-da-ultima-decada-no-brasil\/","title":{"rendered":"Filme \u201cMarighella\u201d \u00e9 um signo da \u00faltima d\u00e9cada no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 2012 o ator Wagner Moura e o roteirista Felipe Braga\niniciaram a escrita do roteiro de \u201cMarighella\u201d (2021), que seria lan\u00e7ado apenas\nnove anos depois. Na \u00e9poca, o Brasil gozava de certa estabilidade sob a tutela\ndo segundo ano de governo da presidente Dilma Roussef. <\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, nos nove anos seguintes em que o projeto foi\ndesenvolvido, tanto o filme de Moura como o pa\u00eds e o mundo passaram por eventos\ne mudan\u00e7as dr\u00e1sticas. A produ\u00e7\u00e3o da obra j\u00e1 come\u00e7ou com dificuldades em 2012\ndevido ao nome que a comandava e ao tema que abordava:&nbsp; a vida e obra do deputado e guerrilheiro\nCarlos Marighella durante seu per\u00edodo com a A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional durante a\nditadura militar (1964-1985). Como Moura mencionou durante a campanha de\ndivulga\u00e7\u00e3o do filme, <a href=\"https:\/\/www.omelete.com.br\/especiais\/wagner-moura-o-que-aconteceu-com-lancamento-de-marighella-foi-censura\/\">\u201cningu\u00e9m queria\nfinanciar um filme sobre um terrorista dirigido por um petralha\u201d.<\/a> Reflexo do embri\u00e3o reacion\u00e1rio que\nerodiu ap\u00f3s as manifesta\u00e7\u00f5es em massa de 2013.<\/p>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o s\u00f3 saiu do papel gra\u00e7as ao financiamento do Fundo\nSetorial do Audiovisual (FSA) e uma colabora\u00e7\u00e3o entre o SPCine e a Globo Filmes\nem 2016. Com um or\u00e7amento de 10 milh\u00f5es de reais e uma equipe de cerca de 400\nprofissionais envolvidos, o diretor tinha uma jornada \u00e1rdua a percorrer para\nrealizar um longa de a\u00e7\u00e3o cuja a cronometragem ultrapassa as duas horas e meia.\nPara efeito de compara\u00e7\u00e3o, \u201cTropa de Elite: O Inimigo Agora \u00e9 Outro\u201d (2010), de\ng\u00eanero e abordagem est\u00e9tica similar, possu\u00eda o or\u00e7amento de 17 milh\u00f5es, o dobro\nde profissionais e meia hora de dura\u00e7\u00e3o a menos.<\/p>\n\n\n\n<p>O roteiro de Moura e Braga \u00e9 constru\u00eddo \u00e0 revelia da m\u00e1xima\nde Jean-Luc Goddard, em que um filme \u00e9 inevitavelmente um document\u00e1rio de seu\ncontexto.&nbsp; Escrito na primeira metade da\nd\u00e9cada de 2010, o longo \u00e9 um extrato de parte do legado da gest\u00e3o Lula\n(2003-2010) e Dilma (2011-2016). <\/p>\n\n\n\n<p>Empoderando um \u00edcone negro Carlos Marighella da luta armada\ncontra o regime militar, e at\u00e9 escurecendo ainda mais seu tom de pele na\nescolha do m\u00fasico e ator Seu Jorge, o filme une de um lado a ret\u00f3rica do\nressarcimento hist\u00f3rico nascida de pol\u00edticas afirmativas e, do outro, a revis\u00e3o\ncr\u00edtica e implac\u00e1vel do passado sombrio da \u00e9poca do golpe militar proporcionada\npela Comiss\u00e3o da Verdade (2011). Tudo mediante consulta e aval de grupos e\npersonalidades com autoridade e lugar de fala como a Coaliz\u00e3o Negra por\nDireitos, o deputado federal&nbsp; Douglas\nBelchior (PC do B) e a cineasta Viviane Pistache para combater o complexo de\nEscrava Isaura: o embranquecimento de \u00edcones negros, que sempre permeou\nhistoricamente o audiovisual brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, no in\u00edcio das grava\u00e7\u00f5es, o Brasil em que o filme foi\nplanejado ruiu. O que come\u00e7ou com um despertar pol\u00edtico em 2013 foi cooptado e\ninstrumentalizado por grupos reacion\u00e1rios e se tornou o estopim para o golpe\nque exonerou a presidente Dilma de seu cargo entre 2015 e 2016. Desde ent\u00e3o, um\nmovimento conservador por parte da classe pol\u00edtica e grupos da sociedade acabou\nresultando na elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro (2018) para a presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa cadeia de eventos, potencializada pela pandemia, n\u00e3o\napenas culminou numa tripla crise em que economia, infraestrutura e pol\u00edtica\npadeceram no Brasil, mas tamb\u00e9m na remiss\u00e3o da verba do filme do FSA pela\nAncine, subordinada \u00e0 secretaria de cultura do governo federal, ap\u00f3s a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2019\/02\/filme-marighella-de-wagner-moura-estreia-sob-aplausos-em-berlim.shtml\">recep\u00e7\u00e3o forte<\/a> na premi\u00e8re do filme no Festival de\nBerlim em 2019. A estreia tamb\u00e9m gerou um movimento virtual organizado para o\nboicote do filme no site IMDB, um agregador de avalia\u00e7\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, ap\u00f3s dois anos de luta para realizar um lan\u00e7amento comercial\nnos cinemas e uma recep\u00e7\u00e3o pungente por parte do p\u00fablico (<a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/cultura\/marighella-arrecada-r-2-milhoes-em-bilheteria-na-semana-de-estreia\/\">com 40 mil pessoas<\/a> assistindo e uma receita de mais de\ndois milh\u00f5es de reais na semana de estreia) e parte da cr\u00edtica especializada,\ntanto Moura quanto p\u00fablico se perguntam: Como viemos parar aqui? <\/p>\n\n\n\n<p><strong>O fantasma da ditadura <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para o professor Erivan Karvat, do N\u00facleo de Hist\u00f3ria e\nImagem da Universidade Estadual de Ponta Grossa, a recep\u00e7\u00e3o hostil por parte do\np\u00fablico que boicotou o filme no site IMDB, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2021\/10\/marighella-e-atacado-por-haters-no-imdb-e-site-muda-forma-de-avaliacao-do-longa.shtml\">a ponto do site\nalterar o mecanismo de avalia\u00e7\u00e3o<\/a>, est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 rela\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds tem com a\nditadura e com o modus operandi do governo Bolsonaro no que tange \u00e0 cultura. <\/p>\n\n\n\n<p>O professor explica que o longa e sua trajet\u00f3ria por si s\u00f3\nj\u00e1 merecem um olhar diferente: \u201cO filme acaba se tornando fundamental para\ndiscutirmos esse per\u00edodo que o Brasil perpassa\u201d. Karvat comenta que muita da\nhostilidade recebida pelo longa, tanto pela parcela mais conservadora do\np\u00fablico quanto por parte dos \u00f3rg\u00e3os estatais, \u00e9 conectada a como o pa\u00eds prefere\nn\u00e3o lembrar do per\u00edodo da ditadura militar, tema central da obra.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o d\u00e1 para n\u00e3o querer n\u00e3o falar e empurrar o assunto para\ndebaixo do tapete. \u00c9 um contexto hist\u00f3rico que est\u00e1 a\u00ed como um fantasma que ir\u00e1\nnos assolar enquanto n\u00e3o for resolvido. O mero esquecimento n\u00e3o far\u00e1 a gente se\nlivrar dele. Existem traumas do per\u00edodo, ent\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de terapia.\nEnquanto n\u00e3o for tratada e trabalhada, as dores tendem retornar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal inten\u00e7\u00e3o foi tamb\u00e9m verbalizada pelo diretor durante a <em>press tour<\/em> do filme.&nbsp; \u201cBolsonaro \u00e9 um personagem profundamente\nancorado no esgoto da hist\u00f3ria do Brasil, que \u00e9 escravagista, genocida,\nautorit\u00e1rio, militarista, anti-cultura, anti-pensamento cr\u00edtico, med\u00edocre\u201d,\nafirmou Moura durante entrevista ao programa <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=FvOO3Gysd7Q&amp;t=3698s\">Roda Viva<\/a>. <\/p>\n\n\n\n<p>O professor Erivan comenta que os eventos que procederam \u00e0\nanistia generalizada ap\u00f3s a ditadura foram um empecilho para o defronte direto\ndo trauma social causado. \u201cAp\u00f3s a anistia voc\u00ea tem um per\u00edodo de silenciamento\nsobre o tema. E isso \u00e9 um fen\u00f4meno brasileiro. Se pegarmos o exemplo argentino,\neles levaram militares a julgamento anos depois\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Karvat argumenta que a diferen\u00e7a entre os dois pa\u00edses\naconteceu devido ao tratamento que foi dado aos crimes e aos criminosos no\nBrasil. \u201dA dificuldade foi que poucos foram indiciados. Foi duro de at\u00e9 mesmo\nlevar os militares a depor no tempo da Comiss\u00e3o da Verdade. \u201d <\/p>\n\n\n\n<p><strong>A hist\u00f3ria em tempo real<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos atos de censura da Ancine, Karvat argumenta\nque subterf\u00fagios foram usados, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 novidade que a ideologia do filme \u00e9\nconflitante com a do governo. \u201cNo 1\u00ba semestre de 2019, houve a cassa\u00e7\u00e3o de um\nedital que promovia a representatividade LGBTQIA+, e no 2\u00ba, houve a suspens\u00e3o\nda linha de cr\u00e9dito para a divulga\u00e7\u00e3o de &#8216;Marighella&#8217;. A pol\u00edtica de filtragem,\ncomo Bolsonaro a chamou, nunca foi sutil. \u00c9 uma coisa absurda, j\u00e1 que ambos\nprojetos e agentes culturais j\u00e1 haviam sido contemplados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A gest\u00e3o Bolsonaro tamb\u00e9m foi respons\u00e1vel por cortar 43% do <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2019\/09\/em-ofensiva-contra-ancine-bolsonaro-corta-43-de-fundo-do-audiovisual.shtml\">or\u00e7amento do FSA<\/a> em 2020. \u201cA produ\u00e7\u00e3o nacional\nsobreviveu gra\u00e7as a produ\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de streaming das gigantes do mercado\ninstaladas no Brasil\u201d, afirma o produtor da GP7-Cinema, Gutto Pasko. \u201cContudo,\nesse atraso na distribui\u00e7\u00e3o causou um grande engavetamento das obras que agora\nprecisam ser escoadas para o mercado e por isso ter\u00e3o ainda menos tempo para\ncompetirem com outros lan\u00e7amentos norte-americanos\u201d, finaliza o produtor. <\/p>\n\n\n\n<p>Tal constipa\u00e7\u00e3o do mercado impactou na estrat\u00e9gia de\ndistribui\u00e7\u00e3o de \u201cMarighella\u201d. Com o or\u00e7amento de distribui\u00e7\u00e3o limitado a 300\nsalas, os produtores optaram por privilegiar espa\u00e7os de cinema alternativos e\npr\u00e9-estreias em sedes de movimentos progressistas alinhados com as ideologias\nde Moura e da obra. <\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o causou uma grande\nconcentra\u00e7\u00e3o de sess\u00f5es no eixo Rio-S\u00e3o Paulo, regi\u00e3o com o maior n\u00famero desses\nespa\u00e7os, e o lan\u00e7amento dessincronizado em outras regi\u00f5es. Este foi o caso da\ncidade de Ponta Grossa, no Paran\u00e1, onde o filme estreou com duas semanas de\natraso e sess\u00e3o \u00fanica.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a rea\u00e7\u00e3o forte do p\u00fablico que marcou presen\u00e7a na semana\nde estreia revela uma contra disposi\u00e7\u00e3o significativa da outra parcela dos\nespectadores, algo que o professor disserta como mais um indicativo da\nrelev\u00e2ncia hist\u00f3rica do filme. \u201cEle se tornou um ve\u00edculo para catarse coletiva,\nj\u00e1 que voc\u00ea se v\u00ea na retrata\u00e7\u00e3o, na figura hist\u00f3rica e naquilo que assiste.\nPois tudo surge como uma alternativa que contrap\u00f5em aos Ustras hoje em dia que\ns\u00e3o saldados pelo pr\u00f3prio presidente\u201d, conclui Karvat.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio da quest\u00e3o dram\u00e1tica que assola o protagonista\ndo longa, em que seu maior desafio \u00e9 se conectar com uma popula\u00e7\u00e3o severamente\nbombardeada pela m\u00e1quina de difama\u00e7\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o estatal contra o\nprotagonista, Wagner Moura conseguiu encontrar o elo com a atualidade e o\np\u00fablico ao que parece.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p>Para Moura, essa comunica\u00e7\u00e3o vem da uni\u00e3o entre o que \u00e9\npopular e o que \u00e9 pol\u00edtico. \u201cAprendi com o Z\u00e9 Padilha durante os Tropas [de\nElite] que essa barreira n\u00e3o precisa existir. E isso \u00e9 algo que serve tanto\npara o filme e para todo o campo progressista, que de uns tempos para c\u00e1 parou\nde se comunicar com seu p\u00fablico\u201d, afirmou o ator e diretor.&nbsp; <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2012 o ator Wagner Moura e o roteirista Felipe Braga iniciaram a escrita do roteiro de \u201cMarighella\u201d (2021), que seria lan\u00e7ado apenas nove anos depois. Na \u00e9poca, o Brasil gozava de certa estabilidade sob a tutela do segundo ano de governo da presidente Dilma Roussef. Contudo, nos nove anos seguintes em que o projeto&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":570,"featured_media":6641,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[74,15,125],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6640"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/users\/570"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6640"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6640\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6640"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6640"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6640"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}