{"id":6732,"date":"2021-11-24T17:32:29","date_gmt":"2021-11-24T20:32:29","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=6732"},"modified":"2021-11-24T17:32:29","modified_gmt":"2021-11-24T20:32:29","slug":"noite-passada-em-soho-diverte-mas-deixa-gosto-amargo-por-priorizar-espetaculo-em-vez-de-tema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/noite-passada-em-soho-diverte-mas-deixa-gosto-amargo-por-priorizar-espetaculo-em-vez-de-tema\/","title":{"rendered":"\u201cNoite Passada em Soho\u201d diverte, mas deixa gosto amargo por priorizar espet\u00e1culo em vez de tema"},"content":{"rendered":"\n<p>Edgar Wright \u00e9 um cineasta \u00edmpar. Ao longo dos 20 anos de sua carreira ele tornou-se uma refer\u00eancia quando se fala em cinema de a\u00e7\u00e3o com com\u00e9dia. Seu virtuosismo na condu\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o meticulosa das cenas s\u00e3o sempre inventivas em sua capacidade de criar energia cin\u00e9tica para cada situa\u00e7\u00e3o que os roteiros prop\u00f5em. O que faz dele um ex\u00edmio showman do audiovisual contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, nos \u00faltimos cinco anos Wright tem se dedicado a acrescentar tons mais s\u00f3brios \u00e0s suas est\u00f3rias. Em \u201c<em>Baby Driver\u201d<\/em>&nbsp;(2017) seu senso de divers\u00e3o e temas recorrentes como amizade e amadurecimento continuam presentes, mas em nada lembram a galhofa e farra que a trilogia \u201c<em>Cornetto<\/em>&nbsp;[<em>Todo Mundo Quase Morto<\/em>&nbsp;(2004),&nbsp;<em>Chumbo Grosso<\/em>&nbsp;(2008) e&nbsp;<em>Her\u00f3is de Ressaca<\/em>&nbsp;(2013)] e \u201c<em>Scott Pilgrim Contra O Mundo<\/em>\u201d (2010) esbanjaram. O que nos traz para o seu novo, mais ambicioso e mais sombrio projeto at\u00e9 a data,&nbsp;<em>Noite Passada em Soho<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme acompanha Elouise Turner (Thomasin McKenzie), jovem interiorana que chega a Londres para realizar o sonho de virar uma estilista. Apaixonada pela cultura londrina dos anos 60, ela \u00e9 acometida por uma experi\u00eancia singular. Toda noite quando se deita para dormir \u00e9 transportada para a pele de Sandie (Anya Taylor-Joy), uma cantora da \u00e9poca que luta para se inserir no showbiz do c\u00e9lebre bairro de Soho. Adentrando em um mundo de glamour, brilho e sucesso, ambas s\u00e3o tragadas para um universo vicioso e cruel que se esconde sobre a perigosa fachada da nostalgia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante os dois ter\u00e7os iniciais do filme tudo ocorre de maneira sublime. Amparado por um roteiro afiado, que combina imagens e texto de maneira org\u00e2nica e potente, e uma trilha sonora escolhida a dedo, Wright e equipe usam de todo o arsenal de truques que disp\u00f5em para nos colocar na pele de Elouise. O cineasta nos faz sentir a diferen\u00e7a entre a Londres contempor\u00e2nea, desbotada e povoada por pessoas mesquinhas que lutam a todo custo para ter um resqu\u00edcio de identidade; e a Londres dos anos 60, onde tudo se move com a eleg\u00e2ncia, brilho e charme de uma partida de xadrez com pe\u00e7as de cristais.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo fica ainda mais intenso quando, a partir da metade do 2\u00ba ato, todo o deslumbre \u00e9 usado para virar as expectativas de Elouise, e do p\u00fablico, e jog\u00e1-la dentro da sordidez machista do universo de Sandie. Wright e companhia transformam toda a m\u00e1gica da nostalgia em um espiral diab\u00f3lico digno de Roman Polanski e D\u00e1rio Argento para ilustrar os abusos aos quais a cantora foi submetida por seu ent\u00e3o agente e namorado Jack (Matt Smith). Algo que exp\u00f5e,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.indiewire.com\/2021\/10\/last-night-in-soho-edgar-wright-interview-1234675085\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">como o pr\u00f3prio diretor relatou na tour press do filme<\/a>, um sentimento de desilus\u00e3o e terror com a outrora doce face da nostalgia.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, no ato final tanto roteiro, escrito por Wright e pela roteirista Kristy Wilson \u2013 Cairnes (1917), quanto dire\u00e7\u00e3o, que caminhavam afinados, minam a trama. Para o bem ou para o mal, Edgar Wright \u00e9, acima de tudo, um showman. Sua abordagem se esfor\u00e7a para fazer tudo respingar no p\u00fablico como um grande circo de horrores em que cada reviravolta \u00e9 arquitetada para parecer mais oper\u00e1tica e perturbadora que a anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso tem efeito d\u00fabio. Se na primeira metade funciona para catalisar as descobertas de Elouise, j\u00e1 na 2\u00aa, se torna um imbr\u00f3glio.<\/p>\n\n\n\n<p>Artif\u00edcios come\u00e7am a se repetir e a perder o efeito, personagens entram em conflito com suas caracteriza\u00e7\u00f5es e tornam certas revela\u00e7\u00f5es ou previs\u00edveis ou apenas confusas. Como \u00e9 o caso do personagem do veterano Terrence Stamp. Todo o brilhantismo de sua escala\u00e7\u00e3o como um stalker<a href=\"https:\/\/outlook.live.com\/mail\/0\/inbox\/id\/AQQkADAwATY3ZmYAZS1jNGQ4LTZkZmEtMDACLTAwCgAQAFcUHm5v3M9Ch%2Bw5qXahHYc%3D#x__ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, algo que remete ao seu papel ic\u00f4nico como o vil\u00e3o de&nbsp;<em>O Colecionador<\/em>&nbsp;(1965), \u00e9 anulado por seu desfecho mal constru\u00eddo. J\u00e1 o personagem de John (Michael Ajao) \u00e9 transformado em uma marionete narrativa ao reagir de forma incongruente a eventos que deveriam afast\u00e1-lo de Elouise.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 primeira vista, nada disso parece realmente atrapalhar a experi\u00eancia, j\u00e1 que o ritmo perfeito da condu\u00e7\u00e3o de Wright sempre sabe como embalar o p\u00fablico. Mas sob uma lupa criteriosa, \u00e9 cristalino como o filme presta um desservi\u00e7o para as mulheres da \u00e9poca, pessoas talentosas que foram exploradas, mortas e relegadas ao ostracismo hist\u00f3rico, que supostamente tenta homenagear.<\/p>\n\n\n\n<p>A incessante busca de criar suspense \u00e0 base de choques e est\u00edmulos sensoriais destr\u00f3i gradualmente todo o argumento e esfor\u00e7o do filme para jogar luz sobre pr\u00e1ticas machistas e torpes da \u00e9poca que foram encobertas pela idealiza\u00e7\u00e3o que se criou em torno dela.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme n\u00e3o chega a ser uma decep\u00e7\u00e3o, pois ainda tem m\u00e9ritos suficientes oriundos da inventividade de seu criador para valer a investida. \u00c9 apenas triste que a mesma inventividade sacrificou a entrega de elenco e equipe por julgar que precisava ganhar ainda mais a aten\u00e7\u00e3o do espectador. O que \u00e9 ir\u00f4nico visto que, desde o come\u00e7o quando vemos imageticamente toda a paix\u00e3o de Elouise por sua idealiza\u00e7\u00e3o dos anos 60, j\u00e1 a tinha.<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Edgar Wright \u00e9 um cineasta \u00edmpar. Ao longo dos 20 anos de sua carreira ele tornou-se uma refer\u00eancia quando se fala em cinema de a\u00e7\u00e3o com com\u00e9dia. Seu virtuosismo na condu\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o meticulosa das cenas s\u00e3o sempre inventivas em sua capacidade de criar energia cin\u00e9tica para cada situa\u00e7\u00e3o que os roteiros prop\u00f5em. 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