{"id":6916,"date":"2022-03-01T13:31:16","date_gmt":"2022-03-01T16:31:16","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=6916"},"modified":"2022-03-01T13:31:16","modified_gmt":"2022-03-01T16:31:16","slug":"amor-sublime-amor-tratando-das-chagas-do-presente-spielberg-cria-um-espetaculo-a-moda-antiga-embebido-na-melancolia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/amor-sublime-amor-tratando-das-chagas-do-presente-spielberg-cria-um-espetaculo-a-moda-antiga-embebido-na-melancolia\/","title":{"rendered":"AMOR SUBLIME AMOR: Tratando das chagas do presente, Spielberg cria um espet\u00e1culo \u00e0 moda antiga embebido na melancolia."},"content":{"rendered":"\n<p>Por mais que nostalgia e saudosismo sejam termos que tendem a ser usados em contextos semelhantes, h\u00e1 uma diferen\u00e7a. Enquanto a nostalgia parte de um sentimento melanc\u00f3lico em rela\u00e7\u00e3o ao passado, \u00e0 base de mem\u00f3rias primordiais, o saudosismo \u00e9 alimentado pela mesma fonte, mas as usa para criar uma realidade romantizada a partir do que se lembra e, principalmente do que se ignora do passado. Se uma \u00e9 um porto seguro para autoprote\u00e7\u00e3o e delimita\u00e7\u00e3o de nossa personalidade frente ao desconhecido do presente, a outra \u00e9 uma forma de escape e nega\u00e7\u00e3o da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Na nova vers\u00e3o de <em>Amor, Sublime Amor<\/em> (2022), Steven Spielberg, amante declarado do cinema cl\u00e1ssico, resiste \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de se debru\u00e7ar sobre a eleg\u00e2ncia saudosista do passado e sua ilus\u00e3o de maior simplicidade. Ao inv\u00e9s disso, escolhe enveredar pela via nost\u00e1lgica para refletir sobre o que conecta a trag\u00e9dia criada por Stephen Sondheim nos anos 1950, aos moldes de <em>Romeu &amp; Julieta<\/em>, e o presente: a raiz facilmente inflam\u00e1vel do preconceito e do machismo que n\u00e3o se aquietam enquanto n\u00e3o ceifarem a todos que as alimentam.<\/p>\n\n\n\n<p>A nova vers\u00e3o traz novamente o casal formado por Maria (Rachel Zegler), imigrante de Porto Rico, e Tony (Ansel Egort), descendente de irlandeses, tentando fazer seu romance florescer em meio \u00e0 guerra de gangues a que ambos s\u00e3o presos de alguma forma em cada lado. Por mais que a sinopse seja a mesma da vers\u00e3o de 1961, as semelhan\u00e7as ficam apenas na superf\u00edcie.<\/p>\n\n\n\n<p>Mudando contextos e personagens de alguns n\u00fameros musicais e reinventando os demais, o filme transpira frescor por, ironicamente, conseguir trazer o espirito jovial e rom\u00e2ntico pr\u00e9 Nova Hollywood (1969-1980) dos musicais da era de ouro. Se isso \u00e9 poss\u00edvel, \u00e9 porque Spielberg \u00e9 um dos poucos cineastas vivos capazes de recriar tal atmosfera rom\u00e2ntica e com tons de fantasia da \u00e9poca e, simultaneamente, repelir o cinismo facilmente associado ao g\u00eanero musical.<\/p>\n\n\n\n<p>A escolha de trazer atores de origem e etnia condizentes com os personagens, principalmente os latinos, d\u00e1 ao filme uma autenticidade que por si s\u00f3 j\u00e1 justifica sua exist\u00eancia. Por mais que seja um cl\u00e1ssico absoluto com todos os m\u00e9ritos criativos e relev\u00e2ncia cultural, a produ\u00e7\u00e3o original de Jerome Robbins e Robert Wise \u00e9 datada, j\u00e1 que o <em>casting<\/em> n\u00e3o possui atores concordantes com a etnia de seus papeis. Tra\u00e7o vergonhoso do racismo de praxe na ind\u00fastria da \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o com a fidedignidade com os retratados e seus lugares de fala se estende para o n\u00facleo feminino. Se no original as quest\u00f5es de conflito entre g\u00eaneros no grupo dos Sharks tinham tons de rebeldia para alimentar os jogos de sedu\u00e7\u00e3o entre os integrantes, aqui \u00e9 n\u00edtido que o diretor e o roteirista Tony Kushner acrescentam tridimensionalidade \u00e0s camadas pol\u00edticas desse conflito. Como fica evidenciado na imaginativa nova encena\u00e7\u00e3o de \u201cAmerica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O texto tamb\u00e9m ressalta na segunda metade que, em grande parte, o conflito entre Sharks e Jets existe mais por raz\u00e3o de bravata e virilidade exacerbada do machismo de seus integrantes. N\u00e3o \u00e0 toa, a relut\u00e2ncia de Tony em voltar aos Jets \u00e9 um s\u00edmbolo de sua maturidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em termos musicais, o diretor e sua equipe se esfor\u00e7am para deixar cada segmento menos teatral e mais pulsante na linguagem cinematogr\u00e1fica. Todos os n\u00fameros s\u00e3o beneficiados por contarem pequenas hist\u00f3rias de forma en\u00e9rgica &#8211; marca cl\u00e1ssica de Spielberg &#8211; e em sintonia com letras e coreografia.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas o n\u00famero do baile fica atr\u00e1s da vers\u00e3o de 1962, a qual era glamorosa por usar de v\u00e1rios artif\u00edcios \u00f3ticos em sua composi\u00e7\u00e3o. De resto, todas conseguem reimaginar e refor\u00e7ar a beleza das composi\u00e7\u00f5es de Sondheim. O destaque fica para \u201cGee, Officer Krupke\u201d que, mesmo se passando em um \u00fanico lugar, usa de todo o brilhantismo da <em>mise-en-scene<\/em> de Spileberg e cia para divertir e ilustrar a displic\u00eancia dos Jets.<\/p>\n\n\n\n<p>Mestre da encena\u00e7\u00e3o e do ritmo, Spielberg continua t\u00e3o afiado quanto em seus filmes de guerra e a\u00e7\u00e3o. Mesmo que empregue menos planos longos e silhuetas &#8211; marcas caracter\u00edsticas de sua autoria -, o diretor ainda est\u00e1 em casa ao poder se esbaldar na est\u00e9tica impressionista do per\u00edodo que retrata, essa sim de inofensivo teor saudosista. Ao conciliar paix\u00f5es criativas com o subtexto poderoso da pe\u00e7a, o diretor atua em um equil\u00edbrio preciso que permite ao elenco, de rostos desconhecidos na maioria, e \u00e0 equipe,exprimirem o melhor que podem de cada um.<\/p>\n\n\n\n<p>Em especial, o parceiro de longa data do cineasta, o cinemat\u00f3grafo Januz Kaminski, orquestra no longa um de seus melhores trabalhos. Com cores vivas, texturas fant\u00e1sticas e luzes expressionistas, ele cria uma atmosfera alheia \u00e0 qualquer senso de realismo c\u00ednico para criar algo mais poderoso em sintonia com o tema da hist\u00f3ria: a bravura inocente da juventude como escape para uma realidade turbulenta.<\/p>\n\n\n\n<p>(Alerta para revela\u00e7\u00f5es do enredo)<\/p>\n\n\n\n<p>Mantendo o final original, mas sob o olhar de Valentina (Rita Moreno, a Anita da vers\u00e3o de 1962), o longa exibe uma faceta melanc\u00f3lica incomum no cinema de Spielberg. Famoso pelo otimismo, o cineasta adota uma postura semelhante \u00e0 da chefe de Tony. Valentina acredita maternalmente na bondade dos meninos que viu crescer nas ruas do bairro. Mas vendo os v\u00e2ndalos, brutos e estupradores que se tornaram, ela n\u00e3o pode mais deixar de sentir a dor de saber que nem tudo pode ser resolvido com empatia e boas inten\u00e7\u00f5es. O que agride os valores em que sua vida \u00e9 pautada.<\/p>\n\n\n\n<p>Como diz a letra de \u201cSomewhere\u201d, cantada por Moreno, \u201cexistir\u00e1 um tempo e um lugar para n\u00f3s\u201d. No contexto do filme, ela \u00e9 direcionada para Tony e Maria, a quem \u00e9 negado a possibilidade de viver um amor puro longe do caos daquela realidade. Mas vendo dentro do contexto geral, ela fala sobre pessoas como Valentina, que acreditam em um futuro melhor, mas que a cada golpe da realidade, deixam tal sonho definhar gradativamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando vemos o desfecho de Tony, constatamos, com pesar, que talvez o \u201clugar e tempo\u201d de Somewhere esteja em outro mundo. A guerra entre gangues pode ter acabado quando os cr\u00e9ditos sobem, mas seu pre\u00e7o foi um \u00e1rduo despertar que saudosismo nenhum pode combater. O de saber que, seja no passado ou no presente, as consequ\u00eancias da xenofobia, do machismo e da intoler\u00e2ncia se mostram, infelizmente, atemporais.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por mais que nostalgia e saudosismo sejam termos que tendem a ser usados em contextos semelhantes, h\u00e1 uma diferen\u00e7a. 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