{"id":6919,"date":"2022-03-02T13:34:27","date_gmt":"2022-03-02T16:34:27","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=6919"},"modified":"2022-03-02T13:34:27","modified_gmt":"2022-03-02T16:34:27","slug":"questionando-o-seu-destino-em-no-ritmo-do-coracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/questionando-o-seu-destino-em-no-ritmo-do-coracao\/","title":{"rendered":"Questionando o seu destino em \u201cNo Ritmo do Cora\u00e7\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p><em>CODA<\/em>, t\u00edtulo original do filme, \u00e9 uma sigla para &#8220;Filho de Pais Surdos&#8221;, na tradu\u00e7\u00e3o livre. A adapta\u00e7\u00e3o hollywoodiana da produ\u00e7\u00e3o franc\u00easa <em>A Fam\u00edlia B\u00e9lier <\/em>(2014) nos situa no pequeno n\u00facleo familiar de Ruby (Emilia Jones), onde ambos seus pais e seu irm\u00e3o s\u00e3o surdos, tornando a ca\u00e7ula do grupo int\u00e9rprete dos seus membros. Aos 17 anos, a jovem encontra ref\u00fagio no futuro promissor como cantora e busca recursos para ingressar na faculdade de m\u00fasica. A proposta inicial estabelece o principal dilema da protagonista: como ir atr\u00e1s de um sonho t\u00e3o distante da realidade de seus progenitores?<\/p>\n\n\n\n<p>Sian Heder, diretora do longa, nos leva aos principais locais da narrativa em uma sequ\u00eancia j\u00e1 conhecida em outros filmes <em>coming-of-age<\/em>. Conhecemos a escola de Ruby, onde a garota n\u00e3o se sente acolhida; o barco de pesca onde seu pai e irm\u00e3o trabalham e ela os segue para auxiliar como int\u00e9rprete; seu quarto estilizado como nos anos 1990, t\u00edpico do estere\u00f3tipo em que a protagonista n\u00e3o \u00e9 \u201ccomo as outras garotas\u201d. Ent\u00e3o o filme apresenta o local mais pr\u00f3ximo ao cora\u00e7\u00e3o da jovem: um lago atr\u00e1s de sua casa, onde ela tem momentos de reflex\u00e3o enquanto est\u00e1 s\u00f3. E a solid\u00e3o \u00e9 bem explorada na narrativa visual do filme, com fotografia simples mas precisa em momentos de conversa do n\u00facleo familiar. Em uma das sequ\u00eancias mais emblem\u00e1ticas do longa, Jackie (Marlee Matlin), sua m\u00e3e, admite ter desejado que a filha tivesse nascido surda para que ela n\u00e3o sofresse sozinha, e Ruby segura as l\u00e1grimas durante a discuss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, a quebra do clich\u00ea estilo \u201cSess\u00e3o da Tarde\u201d consegue reafirmar a \u00f3tima performance de Emilia Jones, mas s\u00e3o os seus pais, coadjuvantes da hist\u00f3ria, que entregam as melhores cenas. A narrativa de que a protagonista rejeitada na escola ganha destaque por ser, na realidade, o talento escondido, perde a gra\u00e7a rapidamente por ser t\u00e3o \u00f3bvia. Mais simples ainda \u00e9 o tra\u00e7o de personalidade t\u00edmido da personagem, que falha uma ou duas vezes antes de conseguir mostrar sua real aptid\u00e3o. Esta timidez, por\u00e9m, \u00e9 trabalhada com uma nova perspectiva em um breve momento, quando Ruby admite ter sido insegura no seu processo de aprendizagem de fala pois \u201cfalava como uma pessoa surda\u201d. E o interesse do longa est\u00e1 ali. Qual \u00e9 o caminho para dar credibilidade \u00e0 voz da filha ca\u00e7ula, quando ela est\u00e1 t\u00e3o perto de se tornar uma mulher independente?<\/p>\n\n\n\n<p>O constrangimento \u00e9 pautado diversas vezes durante o longa, e como espectadora, a frustra\u00e7\u00e3o gerada pela extrema depend\u00eancia de seu pai Frank (Troy Kotsur) e seu irm\u00e3o, Leo (Daniel Durant), pela menina s\u00e3o imensur\u00e1veis. N\u00e3o cabe ao espectador julgar qual \u00e9 a melhor escolha, quem est\u00e1 mais ou menos correto em necessitar ter seus desejos atendidos. Quando Jackie tenta integrar a comunidade ao trabalhar perto de outras mulheres al\u00e9m de sua filha, a dificuldade em se comunicar \u00e9 devastadora. Analisando o sentido do filme como um todo, dispensaria algumas tentativas de comicidade pela delicadeza ao tratar do assunto principal, como na cena em que Frank toca com a ponta dos dedos no pesco\u00e7o de Ruby para conseguir sentir as vibra\u00e7\u00f5es das cordas vocais enquanto ela canta a can\u00e7\u00e3o-tema do filme, \u201c<em>You\u2019re All I Need to Get By<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe um potencial na forma em que o roteiro explora a linguagem de sinais e que traz os momentos de \u00e1pice do longa, e honestamente, os mais not\u00f3rios s\u00e3o quando essa t\u00e9cnica \u00e9 aplicada. Dois deles saem em destaque, o primeiro sendo a explica\u00e7\u00e3o da protagonista sobre o que sente pela m\u00fasica atrav\u00e9s de um gesto de expans\u00e3o com as m\u00e3os, finalizando o movimento com um balan\u00e7o suave de seus dedos pelo ar. O segundo instante envolve a inser\u00e7\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o na linguagem de sinais na audi\u00e7\u00e3o final da protagonista.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que a execu\u00e7\u00e3o de seu roteiro seja previs\u00edvel para quem j\u00e1 conhecia a vers\u00e3o original, <em>No Ritmo do Cora\u00e7\u00e3o<\/em> caminha ao lado de produ\u00e7\u00f5es c\u00e9lebres onde jovens mulheres buscam independ\u00eancia, como <em>A Hora de Voar<\/em>, de 2017, e <em>Fora de S\u00e9rie<\/em> (no original, <em>Booksmart<\/em>), de 2019. Com o adicional da peculiaridade de imers\u00e3o na realidade de uma filha t\u00e3o codependente de sua fam\u00edlia quanto \u00e0 sua expectativa por um mundo novo que lhe \u00e9 apresentado, a pel\u00edcula consegue ter altos e baixos comuns ao trabalhar entre drama e al\u00edvio c\u00f4mico numa experi\u00eancia onde a representatividade de pessoas com defici\u00eancia auditiva ainda \u00e9 um espa\u00e7o a se expandir no protagonismo de narrativas de cinema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CODA, t\u00edtulo original do filme, \u00e9 uma sigla para &#8220;Filho de Pais Surdos&#8221;, na tradu\u00e7\u00e3o livre. A adapta\u00e7\u00e3o hollywoodiana da produ\u00e7\u00e3o franc\u00easa A Fam\u00edlia B\u00e9lier (2014) nos situa no pequeno n\u00facleo familiar de Ruby (Emilia Jones), onde ambos seus pais e seu irm\u00e3o s\u00e3o surdos, tornando a ca\u00e7ula do grupo int\u00e9rprete dos seus membros. 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