{"id":6930,"date":"2022-03-05T15:46:03","date_gmt":"2022-03-05T18:46:03","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=6930"},"modified":"2022-03-05T15:46:03","modified_gmt":"2022-03-05T18:46:03","slug":"batman-2022","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/batman-2022\/","title":{"rendered":"Novo reboot traz um Batman indissoci\u00e1vel da cidade de Gotham"},"content":{"rendered":"\n<p>Emille Durkheim a tempos j\u00e1 diagnosticou a exist\u00eancia da criminalidade urbana como sintoma de um problema cuja a responsabilidade pende na inefic\u00e1cia do poder p\u00fablico em todas as extens\u00f5es que lhe competem zelar. Como nas melhores est\u00f3rias do g\u00eanero noir, contos sensacionalistas oriundos de livretos que ganharam prestigio no melodrama expressionista do cinema P\u00f3s Segunda Guerra Mundial, o crime- mais especificamente o assassinato- \u00e9 meramente uma penugem solta que se puxado, desenrola o tecido social at\u00e9 o expor toda a corrup\u00e7\u00e3o e disfuncionalidade que n\u00e3o podem mais serem encobertas pelos beneficiados por tal decad\u00eancia. Sabendo eles ou n\u00e3o desse papel que exercem.<\/p>\n\n\n\n<p>Buscando al\u00e7ar o vigilante noturno mais ic\u00f4nico da cultura pop \u00e0 novos territ\u00f3rios no cinema-desafio consider\u00e1vel se levarmos em conta que esse \u00e9 o terceiro reboot que o personagem ganha em menos de 20 anos &#8211; o diretor Matt Reeves se inspira nas \u00e9pocas de forma\u00e7\u00e3o do her\u00f3i pr\u00e9 CMMA<a href=\"#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a> e na dos anos 80 &#8211; onde ele passou por grandes crises morais e existenciais-, para confront\u00e1-lo em seu mito de forma\u00e7\u00e3o e question\u00e1-lo sobre sua responsabilidade no caos que tenta combater.<\/p>\n\n\n\n<p>Imerso na est\u00e9tica neo-noir, o longa-metragem traz Batman (Robert Pattinson), pouco experiente em seu segundo ano de combate ao crime, tendo de lidar com o sinistro assassino serial Charada (Paul Dano). Este n\u00e3o apenas se regozija com o p\u00e2nico que causa na decadente cidade de Gotham, mas tamb\u00e9m deixa claro a disciplina de um cavaleiro templ\u00e1rio com que conduz sua miss\u00e3o de desmascarar as mentiras em que ela foi atirada pelos criminosos que a administram.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca antes o medo esteve t\u00e3o associado a figura do Batman como nesta obra. Mesmo sendo componente basilar em sua motiva\u00e7\u00e3o na trilogia de Christopher Nolan (2005-2012), o medo dessa vez deixa de representar a figura do her\u00f3i para emanar dele. Caracterizando o Batman de Pattinson como um anjo vingador implac\u00e1vel em sua f\u00faria contra a cidade que lhe roubou a fam\u00edlia- algo que a edi\u00e7\u00e3o de som valoriza magistralmente ao fazer sua movimenta\u00e7\u00e3o sempre soar pesada e desconfort\u00e1vel para todos que compartilham o ambiente- Reeves opta por fazer da figura do her\u00f3i a pr\u00f3pria materializa\u00e7\u00e3o do p\u00e2nico e da raiva vingativa dos impotentes cidad\u00e3os de Gotham frente ao caos urbano em que vivem.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal abordagem se beneficia da ambienta\u00e7\u00e3o desoladora do g\u00eanero noir e da grande capacidade de Reeves de visualmente ilustrar cen\u00e1rios erosivos- vide seu esplendido trabalho nos dois \u00faltimos filmes da saga <em>Planeta dos Macacos<\/em> (2014-2017). Mais do que retratar o imagin\u00e1rio comum de decad\u00eancia urbana, a imagina\u00e7\u00e3o de Reeves e cia faz tal caracteriza\u00e7\u00e3o ir a fundo no que o g\u00eanero tem de mais potente: A forma\u00e7\u00e3o de uma atmosfera intoxicante que bestializa todos os expostos a ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um esfor\u00e7o extraordin\u00e1rio na cria\u00e7\u00e3o de uma das Gothans mais expressivas j\u00e1 feitas, a dire\u00e7\u00e3o de arte exterioriza as mazelas da cidade atrav\u00e9s de suas constru\u00e7\u00f5es abortadas, pr\u00e9dios sedentos por recauchutagens para cobrir suas funda\u00e7\u00f5es expostas por v\u00e2ndalos e bueiros sempre vaporizantes em sua retrata\u00e7\u00e3o do regurgito inevit\u00e1vel do local contra a criminalidade. Da mesma forma, Batman exterioriza suas chagas da alma tanto na f\u00faria e inconsequ\u00eancia com que trata seus advers\u00e1rios, como no modo alienante e absurdamente desgastado em que vive quando disposto da indument\u00e1ria que aderiu como sua verdadeira pele- M\u00e9rito da composi\u00e7\u00e3o g\u00f3tica de Pattinson que sabe como alternar entre o desanimo enfermo e os espasmos col\u00e9ricos do personagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas de nada serviria um ambiente t\u00e3o meticulosamente constru\u00eddo se n\u00e3o houvesse uma hist\u00f3ria que o explorasse da maneira adequada. Mesmo empalidecendo frente a expoentes superiores do g\u00eanero como <em>Se7en <\/em>(1995) e <em>Chinatown<\/em> (1974), o roteiro de Reeves e Peter Craig deve ser exaltado por, primorosamente, conseguir criar e manter o interesse do espectador em uma trama de tr\u00eas horas sem desvirtuar a abordagem a que se prop\u00f5em.<\/p>\n\n\n\n<p>Fazendo o protagonista vagar por situa\u00e7\u00f5es, ambientes e personagens entorpecidos pelos poderes, sedu\u00e7\u00f5es e agress\u00f5es da ilegalidade- m\u00e9ritos de elenco e do roteiro que cria um distingu\u00edvel espectro de ebuli\u00e7\u00e3o moral para situar cada personagem- a condu\u00e7\u00e3o de Reeves \u00e9 eximia por aproveitar dentro da estrutura epis\u00f3dica do filme os altos e baixos da dicotomia freudiana, em que prazeres proibidos e choques fatalistas s\u00e3o mesclados caoticamente em contos de perda de inoc\u00eancia, das narrativas noirs hegem\u00f4nicas.<\/p>\n\n\n\n<p>A trilha sonora do colaborador de longa data de Reeves, Michael Giachinno, merece destaque por ser o grande elemento que une tanto tom, quanto ritmo e temas da hist\u00f3ria. Inspirando-se no trabalho de Shilrey Walker na s\u00e9rie animada de 1992 e acrescentado nuances sinuosas para personagens como Mulher Gato (Zoe Kravitz) e Charada, mais de uma vez a trilha do compositor deixa de ser um complemento das cenas para atuar ativamente dentro narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Os melhores exemplos s\u00e3o na primeira cena de intera\u00e7\u00e3o entre Batman e Mulher-Gato, onde a mescla de suspense e atra\u00e7\u00e3o \u00e9 justaposta, e na cena de persegui\u00e7\u00e3o contra ao Pinguim (Colin Farrel). O tema principal surge como uma can\u00e7\u00e3o burlesca e cresce at\u00e9 se tornar oper\u00edstico a l\u00e1 Richard Wagner.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguindo a conven\u00e7\u00e3o do g\u00eanero noir em seu final caucion\u00e1rio, o filme apresenta uma ir\u00f4nica, ainda que otimista, vis\u00e3o do her\u00f3i. Batman, at\u00e9 ent\u00e3o autointitulado e saudado como a materializa\u00e7\u00e3o da vingan\u00e7a em Gotham, acaba por sentir na pele e na alma o vindouro efeito do veneno que tomou para definir sua vida e a da cidade at\u00e9 ent\u00e3o. \u00c0s duras penas, Bruce Wayne descobre que n\u00e3o h\u00e1 catarse que compense o fato de que em termos de vingan\u00e7a, os \u00fanicos punidos somos n\u00f3s mesmos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal choque doxal devastador promete consequ\u00eancias s\u00e9rias para o futuro de uma Gotham, assim como o her\u00f3i, for\u00e7ada a se reconstruir. Um futuro, que assim como Batman, mal podemos esperar para acompanhar nos pr\u00f3ximos cap\u00edtulos da saga de Reeves.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>_______________<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><a href=\"#sdfootnote1anc\">1<\/a> Comics Magazine Association of America ou Associa\u00e7\u00e3o Americana de Revistas em Quadrinhos, organiza\u00e7\u00e3o a qual foi atribu\u00edda a autoridade pela observ\u00e2ncia da aplica\u00e7\u00e3o do &#8220;C\u00f3digo dos Quadrinhos&#8221; (Comic Code Authority) foi criada na d\u00e9cada de 1950 pelas editoras como uma forma de autocensura no conte\u00fado dos quadrinhos americanos, em resposta a uma recomenda\u00e7\u00e3o do Congresso e ao clamor moralista insuflado pelo psiquiatra Fredric Wertham, autor do livro Seduction of the Innocent<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Emille Durkheim a tempos j\u00e1 diagnosticou a exist\u00eancia da criminalidade urbana como sintoma de um problema cuja a responsabilidade pende na inefic\u00e1cia do poder p\u00fablico em todas as extens\u00f5es que lhe competem zelar. 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