{"id":6936,"date":"2022-03-07T08:40:38","date_gmt":"2022-03-07T11:40:38","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=6936"},"modified":"2022-03-07T08:40:38","modified_gmt":"2022-03-07T11:40:38","slug":"beco-do-pesadelo-oscar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/beco-do-pesadelo-oscar\/","title":{"rendered":"Nova adapta\u00e7\u00e3o do romance de William Lindsay Gresham pode ser morosa, mas compensa pela atmosfera luxuosa e desfecho arrebatador"},"content":{"rendered":"\n<p>O mito de <em>\u00c9dipo Rei<\/em>, de S\u00f3focles, onde o protagonista desconhecendo a verdade \u00e9 levado a matar o pr\u00f3prio pai e casar-se com a m\u00e3e, j\u00e1 foi interpretado de diversas maneiras por v\u00e1rios campos do conhecimento humano. Uma das mais interessantes diz respeito \u00e0 ilustra\u00e7\u00e3o da m\u00e1xima de que o indiv\u00edduo que n\u00e3o conhece &#8211; ou n\u00e3o compreende &#8211; a pr\u00f3pria hist\u00f3ria est\u00e1 fadado a repeti-la e a ruir sua vida <em>ad nauseum<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Beco do Pesadelo<\/em>, de Guillermo Del Toro, adaptado diretamente do livro hom\u00f4nimo de William Lindsay Gresham de 1946, investe todas as suas fichas nessa interpreta\u00e7\u00e3o de tons freudianos ao narrar a hist\u00f3ria do charlat\u00e3o atormentado Stan Carlisle (Bradley Cooper). Expulso de um circo de horrores junto de sua amante Molly (Rooney Mara), o rec\u00e9m-formado mentalista amador muda-se para a Nova York de 1939 para viver de farsas e ilus\u00f5es em eventos da alta classe. Como maior que a confian\u00e7a de Stan em si mesmo \u00e9 apenas sua ambi\u00e7\u00e3o, ele se insere em um jogo perigoso de explora\u00e7\u00e3o da boa-f\u00e9 alheia junto da psicanalista Lilith Ritter, sem saber que sua sorte est\u00e1 prestes a mudar.<\/p>\n\n\n\n<p>Del Toro, maior expoente do cinema fant\u00e1stico contempor\u00e2neo, sempre foi fascinado pela rela\u00e7\u00e3o entre moralidade e desumaniza\u00e7\u00e3o. Seja atrav\u00e9s do Capit\u00e3o Vidal (Sergi L\u00f3pes) em <em>Labirinto do Fauno <\/em>(2006), ou do Comandante Strikeland (Michael Shanon) em <em>A Forma da \u00c1gua <\/em>(2017), todos os seus grandes vil\u00f5es s\u00e3o amontoados de obsess\u00f5es que n\u00e3o se importam de destruir as vidas ao seu redor. Sendo assim, Carlisle faz parte de uma galeria vasta de personagens cujas as obras s\u00e3o movidas primariamente por \u00f3dio ao que a humanidade, em particular a masculinidade, tem de mais asqueroso e t\u00f3xico. Dessa vez, o diferencial \u00e9 que Del Toro aborda essa figura humana demon\u00edaca de frente, como motor central da obra.<\/p>\n\n\n\n<p>Aproveitando as possibilidades est\u00e9tico narrativas que g\u00eanero <em>noir<\/em> possibilita, j\u00e1 <a href=\"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=6930&amp;fbclid=IwAR2CPvl9dTnzC6Utn_TIsWVY6E0woQEYdTfqcFJaiOVd6Qj3bTeSOySOkLY\">mencionadas anteriormente<\/a>, o diretor faz uma intersec\u00e7\u00e3o com o estilo \u00e9pico para oferecer brilho e sangue na mesma medida enquanto narra a saga sobre a derrocada de Stan. Um homem movido por ambi\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m- m\u00e9rito dessa vers\u00e3o &#8211; pela incapacidade de se perdoar, logo, de tamb\u00e9m se redimir. Algo que o impele a machucar os que lhe amam e a compactuar com os que o querem morto.<\/p>\n\n\n\n<p>Bradley Cooper pode n\u00e3o ter o garbo de Tyrone Power (que interpretou Carlisle na vers\u00e3o de 1947), mas a inoc\u00eancia e desespero que consegue transmitir com os olhares perdidos faz dele um int\u00e9rprete escolhido a dedo para o papel. Seu Stan transpira problemas do passado que urgem por serem resolvidos. Sua inf\u00e2ncia, desprovida de amor, o faz perder oportunidades incr\u00edveis de redimir-se aos pr\u00f3prios olhos enquanto o atira para os bra\u00e7os de charlat\u00f5es t\u00e3o ou mais inescrupulosos que ele, como \u00e9 o caso de Ritter.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda essa caracteriza\u00e7\u00e3o rica, que fornece a Cooper material suficiente para compor um personagem s\u00f3lido, vem \u00e0s custas do ritmo do filme. Por mais que a fotografia de Dan Laustsen e todo o esmero do design de produ\u00e7\u00e3o sejam um banquete aos olhos &#8211; e \u00e0 narrativa por fazer do brilho e das cores signos da confus\u00e3o entre realidade e ambi\u00e7\u00e3o que Stan cria em suas fantasias de grandeza deturpadas -, \u00e9 ineg\u00e1vel que o andamento da metade inicial \u00e9 moroso em seu desenlace. Tal detalhe n\u00e3o chega a afetar a qualidade final da obra, j\u00e1 que oferece elementos que a justificam, como o m\u00f3rbido simbolismo presente entre o beb\u00ea Enoch guardado por Clem Hotley (Willem Dafoe), e o \u201cgeek\u201d, atra\u00e7\u00e3o macabra do circo. Apenas o restringe a uma parcela do p\u00fablico menos afeita \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o do ultra detalhismo est\u00e9tico narrativo do diretor.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas para os que estimam obras com riquezas semi\u00f3ticas, o filme \u00e9 um festim por ir com passos firmes rumo ao desfecho tr\u00e1gico de Stan. Ao contr\u00e1rio da obra da d\u00e9cada de 1940, que por imposi\u00e7\u00f5es executivas foi obrigado a incluir no desfecho uma reden\u00e7\u00e3o for\u00e7ada para seu protagonista, Del Toro usa de uma energia digna do velho testamento para salientar as consequ\u00eancias do mal-uso das habilidades do protagonista.<\/p>\n\n\n\n<p>Entendendo o entretenimento, e por extens\u00e3o a arte, como uma habilidade m\u00e1gica cujo a responsabilidade de uso deve ser pautada pela cautela e nunca para explorar financeiramente as fraquezas individuais dos outros, o filme faz do arco do protagonista um conto caucion\u00e1rio brutal &#8211; tra\u00e7o inconfund\u00edvel do melodrama <em>noir<\/em> e do pr\u00f3prio Del Toro. Se Stan se recusa a agir e evoluir como um ser humano com todas as oportunidades que teve, representadas pela compaix\u00e3o de Molly, ele n\u00e3o merece ser chamado disso. Logo, s\u00f3 lhe resta a vida de besta b\u00edpede que construiu para si.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que aqui personagens como Zeena (Toni Collete) e Peter (David Strathairn) recebam muito menos aten\u00e7\u00e3o e carisma em compara\u00e7\u00e3o com a vers\u00e3o de 1947, o novo longa se destaca enquanto exerc\u00edcio competente de g\u00eanero. Ao fazer jus ao fatalismo imperdo\u00e1vel presente na obra de Gresham, Del Toro e cia ressaltam a import\u00e2ncia do perd\u00e3o, seja com os outros, com a vida e, principalmente, consigo mesmo.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mito de \u00c9dipo Rei, de S\u00f3focles, onde o protagonista desconhecendo a verdade \u00e9 levado a matar o pr\u00f3prio pai e casar-se com a m\u00e3e, j\u00e1 foi interpretado de diversas maneiras por v\u00e1rios campos do conhecimento humano. 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