{"id":6952,"date":"2022-03-14T13:26:00","date_gmt":"2022-03-14T16:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=6952"},"modified":"2022-03-14T13:26:00","modified_gmt":"2022-03-14T16:26:00","slug":"licorice-pizza-miopia-do-roteiro-limita-a-beleza-do-filme","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/licorice-pizza-miopia-do-roteiro-limita-a-beleza-do-filme\/","title":{"rendered":"Licorice pizza: miopia do roteiro limita a beleza do filme"},"content":{"rendered":"\n<p>A m\u00edstica que une realidade e fic\u00e7\u00e3o sempre permeia retrata\u00e7\u00f5es da cidade de Los Angeles, j\u00e1 que \u00e9 algo indissoci\u00e1vel de sua hist\u00f3ria povoada por estrelas atemporais do cinema. Por\u00e9m, apenas os que crescem l\u00e1 conseguem entender isso bem, j\u00e1 que para n\u00f3s, de outro pa\u00eds e outra realidade, tal m\u00edstica \u00e9 t\u00e3o produto da fic\u00e7\u00e3o quanto as demais fic\u00e7\u00f5es produzidas na ic\u00f4nica cidade californiana. &nbsp;O que mata o suposto charme especial ou uma conex\u00e3o com o al\u00e9m-tela que a m\u00edstica poderia apresentar.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso faz de sua reprodu\u00e7\u00e3o al\u00e9m dos EUA algo condenado a morrer de inani\u00e7\u00e3o, mal que atinge todos os que n\u00e3o compartilham da vis\u00e3o de Paul Thomas Anderson sobre o local em seu novo projeto, <em>Licorice Pizza<\/em>. No longa, a cidade e sua \u00e1urea s\u00e3o t\u00e3o protagonistas quanto o romance do casal formado por Gary (Cooper Hoffman) e Alana (Alana Haim). Ambos vivem aventuras e percal\u00e7os pela cidade no in\u00edcio da tumultuada d\u00e9cada de 70 enquanto tentam decidir se a amizade &#8211; de uma mo\u00e7a de 25 anos e um rapaz de 15 &#8211; pode vir a ser algo mais dentro dessa realidade hiperb\u00f3lica. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O amontoado de vinhetas que comp\u00f5em a est\u00f3ria \u00e9 fruto de v\u00e1rias lembran\u00e7as da juventude de Anderson e de seus amigos dentro do Vale de S\u00e3o Fernando em Los Angeles. Fazendo da hist\u00f3ria o seu pr\u00f3prio <em>Amarcord<\/em> (1973) particular, onde a nostalgia \u00e9 banqueteada pelo carinho melanc\u00f3lico de quem olha inconsequente para o pr\u00f3prio passado, o cineasta, que dirigiu obras monumentais do cinema americano recente como <em>Sangue Negro<\/em> (2007) e <em>O Mestre<\/em> (2012), acaba caindo na armadilha do saudosismo e apresentando seu trabalho mais relaxado e autocentrado.<\/p>\n\n\n\n<p>O hermetismo dos filmes anteriores de Anderson nunca foi um problema. A riqueza dram\u00e1tica de seus personagens e a sua maestria em conduzir tais narrativas, seja pelo subtexto ou pela <em>mise-en-scene<\/em>, sempre imprimiam um aspecto universal \u00e0s est\u00f3rias particulares de pessoas obsessivas procurando ser amadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em <em>Licorice Pizza<\/em>, pela primeira vez, isso n\u00e3o ocorre. &nbsp;A aus\u00eancia de uma espinha mais clara e definida tira do filme toda a beleza que a dire\u00e7\u00e3o constr\u00f3i. Al\u00e9m de expor o qu\u00e3o alienado o diretor e suas vis\u00f5es sobre o amor s\u00e3o em compara\u00e7\u00e3o com as contempor\u00e2neas. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A maestria da dire\u00e7\u00e3o \u00e9 magn\u00e9tica por combinar movimentos de c\u00e2mera, texturas, cores e orquestra\u00e7\u00e3o dos atores. Suas deixas s\u00e3o precisas na hora de inserir m\u00fasicas po\u00e9ticas por dialogarem com o subtexto das cenas &#8211; destaques para \u201cLet me Roll it\u201d de Paul Maccartney e \u201cSlip Away\u201d de Clarence Carter. Todo o ritmo da edi\u00e7\u00e3o cria um embalo agrad\u00e1vel e sedutor para se acompanhar os altos e baixos do romance do casal principal conforme figuras como Jon Peters (Bradley Cooper), Jack Holden (Sean Penn) Mary Grady (Marriet Samsom Harris) \u2013 todos baseados em figuras reais da \u00e9poca &#8211; pipocam em tela para oferecer contrapostos ao casal.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nada disso \u00e9 capaz de tirar a impress\u00e3o de que tal deleite cinematogr\u00e1fico \u00e9 apenas uma grande vitrine brilhosa que obscurece uma hist\u00f3ria problem\u00e1tica contada de forma relapsa em sua estrutura e descaso com os arredores do n\u00facleo principal.<\/p>\n\n\n\n<p>O romance principal pode ser gracioso em seu desenvolvimento. Inocente, ele cria um ar de pureza que s\u00f3 a juventude, livre das obsess\u00f5es que petrificam a vida dos adultos da trama, consegue proporcionar.&nbsp; Mas quando analisamos um pouco mais al\u00e9m da beleza et\u00e9rea que as lentes e holofotes de Anderson e Michael Bauman produzem na superf\u00edcie, vemos que este flerte entre pessoas em \u00e9pocas da vida diferentes \u00e9 pautado em uma rela\u00e7\u00e3o vertical e deprimente.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo que diz respeito \u00e0 personagem de Alana \u00e9 sempre limitado ao desejo e a vis\u00e3o de Gary sobre ela. A discri\u00e7\u00e3o de seu ambiente familiar judaico conservador e o fato de ela decidir ficar com o rapaz por falta de op\u00e7\u00f5es melhores revelam o sexismo com que Anderson enxerga a personagem. Por mais cativante e competente que sua int\u00e9rprete seja, \u00e9 imposs\u00edvel percebe-la como algo al\u00e9m de um fetiche ambulante da dire\u00e7\u00e3o, que frequentemente a coloca sendo mostrada ou seminua, ou sofrendo ass\u00e9dio de homens mais velhos.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme tenta justificar esses e demais destrates com minorias se escorando no argumento de que s\u00e3o componentes basilares para uma retrata\u00e7\u00e3o fidedigna da \u00e9poca. Contudo, ao n\u00e3o apresentar nenhum detalhe da \u00e9poca que ressoe com a contemporaneidade, o filme se torna um esfor\u00e7o de nostalgia esvaziado que n\u00e3o consegue disfar\u00e7ar seu machismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente existe um esplendor reconhec\u00edvel vindo do fato do filme ser um resqu\u00edcio precioso da juventude e do amor de seu criador pela cidade de Los Angeles. Mas quando consideramos o modo como isso foi feito em tela, soa como contar uma piada interna para algu\u00e9m de fora do grupo. O receptor desavisado pode at\u00e9 entender o cerne do humor, ou nesse caso da magia do conto, mas nunca o captar\u00e1 propriamente a ponto de aproveit\u00e1-lo por completo. E at\u00e9 \u00e9 bem prov\u00e1vel que saia se sentindo ofendido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A m\u00edstica que une realidade e fic\u00e7\u00e3o sempre permeia retrata\u00e7\u00f5es da cidade de Los Angeles, j\u00e1 que \u00e9 algo indissoci\u00e1vel de sua hist\u00f3ria povoada por estrelas atemporais do cinema. 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