{"id":6963,"date":"2022-03-18T15:46:32","date_gmt":"2022-03-18T18:46:32","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=6963"},"modified":"2022-03-18T15:46:32","modified_gmt":"2022-03-18T18:46:32","slug":"drive-my-car-longa-japones-no-oscar-faz-da-virtude-da-paciencia-um-mantra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/drive-my-car-longa-japones-no-oscar-faz-da-virtude-da-paciencia-um-mantra\/","title":{"rendered":"Drive my car: longa japon\u00eas no Oscar faz da virtude da paci\u00eancia um mantra"},"content":{"rendered":"\n<p>A influ\u00eancia da dura\u00e7\u00e3o de um filme \u00e9 ligada ao \u00eaxito da edi\u00e7\u00e3o e da montagem. Se estas n\u00e3o cumprem o seu papel, at\u00e9 mesmo o mais fren\u00e9tico filme de uma hora e meia soar\u00e1 como uma eternidade para o espectador. O inverso tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel quando se trata de um filme de mais de duas horas e meia cuja passagem de tempo mal \u00e9 notada devido \u00e0 fluidez com que causa imers\u00e3o na est\u00f3ria de seus personagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Drive my Car (2021), longa metragem internacional sensa\u00e7\u00e3o da temporada de premia\u00e7\u00f5es de 2022, se posiciona em um meio termo curioso. Seu ritmo lento faz com que cada minuto de suas tr\u00eas horas de dura\u00e7\u00e3o sejam sentidos. Mas por outro lado, o \u00eaxito do filme \u00e9 indissoci\u00e1vel desse caminhar vagaroso que a dire\u00e7\u00e3o de Ry\u00fbsuke Hamaguchi e a edi\u00e7\u00e3o de Azusa Yamazaki imp\u00f5em ao projeto. Pois ele dialoga intrinsecamente com a assombra\u00e7\u00e3o de carregar o peso de uma vida inteira de sentimentos n\u00e3o expressos por seus personagens.<\/p>\n\n\n\n<p>A trama acompanha o ator e diretor Yus\u00fbke Kafufu (Hidetoshi Nishijima) em sua viagem para dirigir uma vers\u00e3o japonesa da pe\u00e7a Tio Vania (1898), de Anton Tchekhov, em Hiroshima. Desiludido pelo falecimento da esposa infiel, o artista \u00e9 incapaz de performar um papel que domina por conta da semelhan\u00e7a invasiva que este possui com seus pr\u00f3prios dramas pessoais. Tentando se reerguer, ele v\u00ea na amizade com sua motorista, a jovem Misaki (T\u00f4ko Miura), uma chance de reorganizar as mis\u00e9rias e esplendores do passado.<\/p>\n\n\n\n<p>A escolha de inserir um pr\u00f3logo de 40 minutos para apresentar a ang\u00fastia do protagonista cria um lapso do filme com o status quo do cinema contempor\u00e2neo. Em uma \u00e9poca onde a import\u00e2ncia de elementos de inser\u00e7\u00e3o no primeiro ato \u00e9 dilu\u00edda para dar a ef\u00eamera sensa\u00e7\u00e3o de frenesi ao p\u00fablico, o filme vira uma ant\u00edtese ao n\u00e3o s\u00f3 construir bases s\u00f3lidas para a trama, como tamb\u00e9m acrescentar um adendo detalhado para garantir que saibamos sobre tudo que inflige dor ao protagonista. Algo que facilmente seria explorado em uma cita\u00e7\u00e3o ou, no m\u00e1ximo, em um flashback em produ\u00e7\u00f5es mais convencionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Na superf\u00edcie, tal escolha \u00e9 um rasante rumo ao fracasso de p\u00fablico. Se n\u00e3o bastassem todas as barreiras culturais constru\u00eddas em volta de filmes estrangeiros ao eixo ocidental \u2013 ou que meramente necessitem de legendas &#8211; existe um conflito inato com a forma de consumo compulsiva dos espectadores atuais. Inflex\u00edveis a tudo que n\u00e3o apele ao imediatismo imag\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo t\u00e3o presente que plataformas de streaming foram obrigadas a incluir op\u00e7\u00f5es de velocidade de reprodu\u00e7\u00e3o. Disposi\u00e7\u00e3o que invalida o trabalho meticuloso dos editores cinematogr\u00e1ficos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os 180 minutos, aliados \u00e0 condu\u00e7\u00e3o pouca cin\u00e9tica de Hamaguchi, fazem da obra restritiva e decepcionante para o acompanhante m\u00e9dio do \u00d3scar. Por outro lado, a excentricidade dessa proposta \u00e9 justamente o que lhe confere distin\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos concorrentes. O que valida a leitura de sua chegada \u00e0 premia\u00e7\u00e3o ocidental &#8211; sustentada no prestigio adquirido durante a passagem no Festival de Cannes &#8211; como um ind\u00edcio da identifica\u00e7\u00e3o da obra pela academia como um respiro ao padr\u00e3o dos demais indicados, e do cinema vigente como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda a falta de urg\u00eancia com que a trama se move transpira um capricho minimalista, artesanal. Constru\u00e7\u00e3o comumente associada a virtudes japonesas como paci\u00eancia e resili\u00eancia, que na s\u00e9tima arte, possuem como um dos maiores expoentes o cineasta Yasujiro Ozu (1903-1963), que via grandeza e dignidade em est\u00f3rias e personagens que outrora seriam banais, comuns ou mundanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo, as quatro indica\u00e7\u00f5es do filme s\u00e3o primeiramente um movimento que celebra a nostalgia, n\u00e3o necessariamente de um passado especifico, mas um em que havia paci\u00eancia para se abordar tramas que, exteriormente, pouco oferecem aos olhos do p\u00fablico adestrado a concentrar a aten\u00e7\u00e3o apenas naquilo que \u00e9 berrante. A qual privilegia universos interiores ricos de personagens facilmente encontrados fora das telas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal abordagem se justifica no terceiro ato. As sementes narrativas plantadas no in\u00edcio d\u00e3o ao p\u00fablico resiliente os frutos de uma catarse cuja riqueza se resume ao esfor\u00e7o simples, mas poderoso, de gerar empatia pela reden\u00e7\u00e3o alheia. Aqui e acol\u00e1, tal esfor\u00e7o \u00e9 encorpado com medita\u00e7\u00f5es sobre temas como amor, monogamia e a for\u00e7a nociva de sentimentos enterrados no \u00e2mago da alma que nunca viram a luz do dia.<\/p>\n\n\n\n<p>A jornada \u00e9 compensadora para os que chegam ao fim. Ainda que atualmente, e infelizmente, seja dif\u00edcil cogitar quem faria isso. Em todo caso, o reconhecimento que a obra, favorita ao pr\u00eamio de melhor filme internacional, vem angariando \u00e9 valido. Mesmo pautado em saudosismo, ele coloca o filme como uma op\u00e7\u00e3o a quem n\u00e3o suporta mais o car\u00e1ter imediatista indissoci\u00e1vel de tudo que \u00e9 contempor\u00e2neo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A influ\u00eancia da dura\u00e7\u00e3o de um filme \u00e9 ligada ao \u00eaxito da edi\u00e7\u00e3o e da montagem. Se estas n\u00e3o cumprem o seu papel, at\u00e9 mesmo o mais fren\u00e9tico filme de uma hora e meia soar\u00e1 como uma eternidade para o espectador. 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