{"id":7070,"date":"2022-04-19T12:20:45","date_gmt":"2022-04-19T15:20:45","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=7070"},"modified":"2022-04-19T12:20:45","modified_gmt":"2022-04-19T15:20:45","slug":"dois-abolicionistas-se-encontram-nas-oficinas-da-rede-em-pg","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/dois-abolicionistas-se-encontram-nas-oficinas-da-rede-em-pg\/","title":{"rendered":"Dois abolicionistas se encontram nas Oficinas da Rede em PG"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 numa esquina com pouca ilumina\u00e7\u00e3o e, at\u00e9 h\u00e1 pouco silenciosa, que se registra um encontro in\u00e9dito de duas lend\u00e1rias figuras de lutas abolicionistas do Brasil ainda n\u00e3o republicano. O paraibano que viveu e lutou no Recife, Vidal de Negreiros (1606-1680), desce rumo \u00e0 Vila Oficinas, enquanto o baiano-paulista Luiz Gama (1830-1882) atravessa a \u00faltima via, antes dos port\u00f5es de acesso ao atual Germano Krueger, pouco abaixo da antiga linha da Via\u00e7\u00e3o F\u00e9rrea que ligava S\u00e3o Paulo ao Rio Grande do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 todo dia que se pode celebrar, ao menos em mem\u00f3ria e leitura, um inusitado encontro de duas ilustres figuras que fizeram parte das incont\u00e1veis iniciativas pelo fim da coloniza\u00e7\u00e3o e da escravid\u00e3o no Pa\u00eds. E, talvez, mais improv\u00e1vel ainda seria imaginar tal cruzamento em uma das cidades paranaenses, onde a pr\u00f3pria hist\u00f3ria regional ainda parece silenciar quando algu\u00e9m ousa lembrar que, por aqui, as oligarquias insistem em se perpetuar em fam\u00edlias herdeiras de sesmarias e fazendas que sobrevivem \u00e0s sombras de mortes, execu\u00e7\u00f5es e apropria\u00e7\u00f5es indevidas de \u00e1reas sob documentos \u2018grilados\u2019 ao longo das margens do Iap\u00f3, Tibagi at\u00e9 supostas constru\u00e7\u00f5es ilegais em alagados locais. \u201cAh, mas aqui n\u00e3o teve ditadura, viu?\u201d, reclamam os porta-vozes.<\/p>\n\n\n\n<p>O que impressiona, por aqui, decorre dos registros laterais, ainda presentes. Afinal, \u00e9 a mesma regi\u00e3o onde a principal rua comercial leva o nome de um ex-governador que fugiu ao primeiro boato de tropas rebeldes das bandas sulistas e, t\u00e3o logo voltaram os federalistas, tratou de condenar e matar o mesmo bar\u00e3o que negociou um acordo de n\u00e3o viol\u00eancia com rebeldes ocupantes para evitar saque na capital.<\/p>\n\n\n\n<p>O fim da tarde no encontro da Vidal de Negreiros com Luiz Gama lembra um pouco o ambiente ermo, silencioso e pouco movimentado, na regi\u00e3o das antigas oficinas da rede ferrovi\u00e1ria. Quase tudo \u00e9 hist\u00f3ria, de um passado de que se orgulham moradores que viram a Cidade crescer ao longo da linha que ligou dois dos principais bairros povoados gra\u00e7as ao desenvolvimento e urbaniza\u00e7\u00e3o da rede: Uvaranas e Oficinas, passando pelas duas esta\u00e7\u00f5es centrais (uma que virou Saudade, a outra nomeada como Arte).<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto a Vidal de Negreiros liga a Rua Alberto Torres aos fundos da Vila Oficinas, Luiz Gama conecta, na transversal, a Visconde de Mau\u00e1 com a Padre N\u00f3brega. Para quem anda no trajeto, e conhece o bairro, ou mesmo para quem acessa mapas digitais, verifica-se que Gama e Negreiros s\u00e3o vias com aproximadamente 800 metros cada, em ambos os casos ladeadas basicamente por moradias modestas, eventualmente margeadas por algum lote vazio, cena comum em \u00e1rea de especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, como \u00e9 o caso da Princesa dos Campos.<\/p>\n\n\n\n<p>O improv\u00e1vel encontro de dois defensores da independ\u00eancia, anticoloniais e, por variadas raz\u00f5es, abolicionistas, registram uma dist\u00e2ncia cronol\u00f3gica de quase dois s\u00e9culos, mas mostram que a nomea\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os p\u00fablicos \u00e9, sempre, fundamental para atualizar a mem\u00f3ria da vida e hist\u00f3ria de uma na\u00e7\u00e3o que \u00e9 formada por atores sociais, que presenciaram injusti\u00e7as e tamb\u00e9m ousaram n\u00e3o silenciar frente aos incont\u00e1veis desmandos registrados no que foi o tempo pr\u00e9-republicano em terras verde-amarelas.<\/p>\n\n\n\n<p>Temor, ainda que silencioso, \u00e9 de que porta-vozes das ensandecidas oligarquias regionais, ao saber de tais nomea\u00e7\u00f5es que, por sua vez, inspiram encontros de abolicionistas em ruelas na princesa dos campos generais, resolvam levantar motins de boatos ou mentiras l\u00e1 pelas bandas dos pal\u00e1cios da Ronda, como aconteceu nos anos recentes, quando se fala em hist\u00f3ria, direitos humanos, mem\u00f3ria e vida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>S\u00e9rgio Gadini<\/em><\/strong>, jornalista e cronista em situa\u00e7\u00f5es ocasionais na prov\u00edncia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 numa esquina com pouca ilumina\u00e7\u00e3o e, at\u00e9 h\u00e1 pouco silenciosa, que se registra um encontro in\u00e9dito de duas lend\u00e1rias figuras de lutas abolicionistas do Brasil ainda n\u00e3o republicano. 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