{"id":7131,"date":"2022-05-14T11:11:05","date_gmt":"2022-05-14T14:11:05","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=7131"},"modified":"2022-05-14T11:11:05","modified_gmt":"2022-05-14T14:11:05","slug":"o-homem-do-norte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/o-homem-do-norte\/","title":{"rendered":"\u00c9pico de Robert Eggers oxigena o g\u00eanero ao unir a teatralidade Shakesperiana com a fatalidade de \u00c9dipo Rei"},"content":{"rendered":"\n<p>O conto de \u201c\u00c9dipo Rei\u201d \u00e9 um alicerce da cultura ocidental. A trag\u00e9dia protagonizada pelo herdeiro do monte Citre\u00e3o, ainda que comumente simplificada em sua propaga\u00e7\u00e3o, \u00e9 rica nos dramas que aborda sobre a condi\u00e7\u00e3o humana e a depend\u00eancia de agentes externos que a influenciam, como a fam\u00edlia, a cria\u00e7\u00e3o e os c\u00f3digos de valores alimentados durante a forma\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A estrutura e a moral da narrativa de S\u00f3focles mant\u00eam-se sempre em voga por cativar desde estudiosos das mais diversas \u00e1reas, como o \u00edcone da psican\u00e1lise Sigmund Freud, at\u00e9 grandes contadores de est\u00f3rias como William Shakespeare em sua pe\u00e7a \u201cHamlet\u201d (1601) e sua inspira\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria, a saga dinamarquesa \u201cA Lenda de Amleth\u201d (S\u00e9culo XVII) de Saxo Grammaticus, que serviu de fonte para Robert Eggers.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme adapta a epopeia do pr\u00edncipe Amleth (Alexander Skarsgard) em sua volta do ex\u00edlio sedento por vingan\u00e7a contra o tio Fjolnir (Claes Bang), o assassino de seu pai, para o contexto n\u00f3rdico do s\u00e9culo IX. Eggers \u00e9 sagaz n\u00e3o apenas na condu\u00e7\u00e3o ultracalculada do longa, mas tamb\u00e9m nas formas que acrescenta novos sabores e texturas para refrescar a est\u00f3ria t\u00e3o enraizada no inconsciente ocidental nos \u00faltimos s\u00e9culos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Deleitando-se na teatralidade que o texto base prov\u00e9m, algo natural em sua proposta de encenar um conto de forma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria, o diretor escapa da principal armadilha que tal op\u00e7\u00e3o oferecia: a estagna\u00e7\u00e3o na teatralidade, no barulho e na pompa como uma justificativa para si pr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<p>O longa pode seguir as mesmas divis\u00f3rias da trag\u00e9dia Shakesperiana &#8211; \u00e9 at\u00e9 ordenado em cap\u00edtulos e possui dialetos que mesclam pompa e f\u00faria para manter o verniz dramat\u00fargico &#8211; mas ao traz\u00ea-la para a realidade dos Vikings, a obra ganha contornos de novidade por ser refor\u00e7ada por sistemas de cren\u00e7as, costumes e toques pontuais, mas poderosos, de fantasia pr\u00f3prios dessa cultura que s\u00e3o resgatados e empregados pelo cineasta e sua equipe.<\/p>\n\n\n\n<p>Os movimentos de c\u00e2mera precisos em concord\u00e2ncia com a trilha, o desenho de som e a encena\u00e7\u00e3o, simultaneamente emulam a perspectiva onipotente de Odin &#8211; divindade m\u00e1xima da cultura n\u00f3rdica que narra o pr\u00f3logo do filme &#8211; e a cegueira fan\u00e1tica do protagonista em suas motiva\u00e7\u00f5es raivosas, arraigadas na heran\u00e7a patriarcal que recebeu como legado do pai Aurvandil (Ethan Hawke).<\/p>\n\n\n\n<p>O diretor, o cinegrafista Jarin Blaschke e o departamento de arte, assim como o roteiro escrito por Eggers e o autor island\u00eas Sj\u00f3n, criam um universo rico em camadas hier\u00e1rquicas, simb\u00f3licas e metaf\u00edsicas que enriquecem a experi\u00eancia do espectador ao fazer tudo possuir uma utilidade n\u00e3o apenas pr\u00e1tica, mas tamb\u00e9m simb\u00f3lica dentro da narrativa do longa. O melhor exemplo disso s\u00e3o os rituais empregados dramaticamente que s\u00e3o inseridos na trama para conduzir e mostrar que tipo de ideologias e atitudes s\u00e3o enraizadas neste universo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Contudo, tal constru\u00e7\u00e3o poderia soar como uma vaidade t\u00e9cnica sem uma proposta de hist\u00f3ria que n\u00e3o investigasse as mazelas e contradi\u00e7\u00f5es do mundo Viking. Ou seja, uma que n\u00e3o tivesse uma vis\u00e3o s\u00f3lida em termos dram\u00e1ticos. Felizmente esse passa longe de ser o caso de \u201cO Homem do Norte\u201d (2022). Usando dos artif\u00edcios da cultura para imbuir e desenvolver significados que d\u00e3o sust\u00e2ncia ao drama de Amleth &#8211; algo que vai da arma do protagonista, seus aliados animais at\u00e9 sua religi\u00e3o &#8211; Eggers imprime uma vis\u00e3o que abomina a selvageria e masculinidade t\u00f3xica presentes no imagin\u00e1rio Viking e celebra a vit\u00f3ria pessoal do protagonista sobre sua cria\u00e7\u00e3o equivocada. Algo feito de forma que o conecta aos deuses que venera e o distancia dos valores martelados pelos homens.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto oferece aos envolvidos, em especial ao elenco, oportunidades de brilhar para al\u00e9m dos arqu\u00e9tipos representados e emprestar mais humanidade ao roteiro essencialmente pautado por s\u00edmbolos. Enquanto Skarsgard evolui harmonicamente da besta sanguin\u00e1ria para o incauto perante a reviravolta de sua vida, Annya Taylor-Joy oferece uma de suas melhores interpreta\u00e7\u00f5es ao transcender o arqu\u00e9tipo de Oph\u00e9lia que lhe \u00e9 dado. Tendo de ser a ponte entre passado e futuro para o protagonista, sua Olga \u00e9 composta com equil\u00edbrio entre a docilidade e a coragem para se estabelecer nesse universo selvagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os demais atores s\u00e3o escolhas competentes, sejam em suas pontas ou pap\u00e9is recorrentes, como \u00e9 o caso de Claes Bang e seu antagonista mais complicado do que aparenta. Enquanto Ethan Hawke emprega todo o carisma e severidade dispon\u00edveis para fazer de Aurvandil uma presen\u00e7a marcante e misteriosa para o resto do filme, Nicole Kidman usa de toda a sua experi\u00eancia para fazer de Rainha Gundrum o personagem mais complexo e amb\u00edguo do filme.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00fanico ponto em que o filme deixa a desejar \u00e9 talvez a pressa com que inicia o envolvimento de Amleth e Olga. Mas, assim que este \u00e9 estabelecido, rapidamente floresce para, surpreendentemente, injetar um pouco de ternura e afeto em um longa-metragem marcado pela barb\u00e1rie. Algo que o faz ter uma alma e pathos para estofar o cl\u00edmax.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A mescla do filme entre os polos de viol\u00eancia e amor em uma narrativa tradicional provam a capacidade de adapta\u00e7\u00e3o e versatilidade de Eggers, at\u00e9 ent\u00e3o definido pelo estilo herm\u00e9tico e instigantemente lac\u00f4nico de seus filmes anteriores como \u201cA Bruxa\u201d (2016) e \u201cO Farol\u201d (2019). Unindo a fixa\u00e7\u00e3o por fidedignidade hist\u00f3rica a a coes\u00e3o narrativa agu\u00e7ada em \u201cO Homem do Norte\u201d, o cineasta se consolida como um dos nomes mais formid\u00e1veis do cinema contempor\u00e2neo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O conto de \u201c\u00c9dipo Rei\u201d \u00e9 um alicerce da cultura ocidental. A trag\u00e9dia protagonizada pelo herdeiro do monte Citre\u00e3o, ainda que comumente simplificada em sua propaga\u00e7\u00e3o, \u00e9 rica nos dramas que aborda sobre a condi\u00e7\u00e3o humana e a depend\u00eancia de agentes externos que a influenciam, como a fam\u00edlia, a cria\u00e7\u00e3o e os c\u00f3digos de valores&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":570,"featured_media":7132,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[15,125],"tags":[130],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7131"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/users\/570"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7131"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7131\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7131"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7131"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7131"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}