{"id":7309,"date":"2022-06-30T09:47:34","date_gmt":"2022-06-30T12:47:34","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=7309"},"modified":"2022-06-30T09:47:34","modified_gmt":"2022-06-30T12:47:34","slug":"tudo-em-todo-lugar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/tudo-em-todo-lugar\/","title":{"rendered":"\u201cTudo em todo lugar ao mesmo tempo\u201d: Uma saga sobre o poder de ressurgir dentro da pr\u00f3pria hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de nossa hist\u00f3ria de vida perpassa por momentos-chave que moldam n\u00e3o apenas nosso destino como tamb\u00e9m nossa personalidade. Em algum momento, as quest\u00f5es \u201ce se tivesse sido diferente? Seria melhor? Ou pior?\u201d j\u00e1 nos assolaram. Normalmente, tendem a nos atacar justamente quando nos deparamos com um fracasso que gostar\u00edamos de ter previsto ou ao menos remediado as consequ\u00eancias.&nbsp; Mas, e se na verdade, todos esses \u201cfracassos\u201d forem o que realmente nos levaram para o que seria a nossa melhor vers\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 a proposta de \u201cTudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo\u201d (2022), que conta a saga fam\u00edlia de Evelyn Wang (Michelle Yeoh) nos desafios que a possibilidade de conferir como suas vidas seriam se tivessem tomado decis\u00f5es diferentes ao longo de suas trajet\u00f3rias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma obra com tantos g\u00eaneros abrangidos, \u00e9 dif\u00edcil definir um filme como este. Ele possui tanto elementos de drama existencial, com\u00e9dia escatol\u00f3gica &#8211; principalmente na forma an\u00e1rquica como o roteiro permite o salto entre dimens\u00f5es paralelas &#8211; quanto de a\u00e7\u00e3o e aventura\/artes marciais. O que liga constru\u00e7\u00f5es t\u00e3o dispares \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o do filme: a rela\u00e7\u00e3o agridoce de Evelyn e sua filha Joy (Stephanie Hsu) para criar a liga emocional que sustenta esse ex\u00f3tico espet\u00e1culo de possibilidades infinitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao conduzir a narrativa de Evelyn pelas \u00e1guas da ambival\u00eancia entre poder ser tudo mas nunca atingir o potencial pleno em nenhum lugar, os diretores e roteiristas Daniel Kwan e Daniel Scheinert criam um filme disposto a acolher aqueles que veem na gentileza com os seus o rem\u00e9dio contra a indiferen\u00e7a acachapante que nossa exist\u00eancia, por vezes, nos imp\u00f5em como t\u00e9cnica de sobreviv\u00eancia. Se o estupor de saber o que \u00e9 em outro universo faz Evelyn lutar para mudar sua realidade &#8211; apenas para sucumbir ao niilismo quando descobre que tamb\u00e9m possui desgostos por l\u00e1 -, \u00e9 a investiga\u00e7\u00e3o sobre os pontos-chave que moldaram seu car\u00e1ter que a fazem evoluir para reconquistar o prazer de viver com os seus.<\/p>\n\n\n\n<p>A versatilidade com que os Daniels (como assinam) criam esse espet\u00e1culo equilibra a ternura e os elementos nonsense para florescer uma viagem ora boba demais para ser questionada em sua l\u00f3gica interna, ora muito profunda para n\u00e3o ser admir\u00e1vel em sua mensagem sobre o poder renovador do fracasso. Algo que agrega para o g\u00eanero das artes marciais e o reinventa ao focar n\u00e3o no \u00eaxito de tons meritocr\u00e1ticos comum em hist\u00f3rias dessa estirpe, mas sim na dor que ensina, que transforma e nos leva para caminhos que nosso ego nunca nos permitiu enxergar. Um entretenimento criativo e instigante na medida certa na maior parte do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro de uma chave que alterna frequentemente entre o intimismo e a futilidade, o filme sedimenta sua autenticidade na escolha de basear tais pirotecnias cinematogr\u00e1ficas em um conto com um pano de fundo da ancestralidade imigrante dos sino-americanos. O que poderia soar superficial e condescendente se revela uma bem-vinda imers\u00e3o sem ressalvas em quest\u00f5es arquet\u00edpicas da hist\u00f3ria dessa comunidade nos EUA. Como o valor do esfor\u00e7o, da repress\u00e3o emocional e escolhas pautadas pela censura patriarcal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que n\u00e3o poderia ser mais moldado para todos os talentos que a atriz, modelo, cantora e artista marcial Michelle Yeoh possui. Despontando no ocidente como \u00edcone marcial desde \u201cO Tigre e o Drag\u00e3o\u201d (2000), aqui ela encontra o papel quintess\u00eancia de sua carreira e o interpreta com todas as facetas que \u00e9 capaz de oferecer \u00e0 figura prosaica no exterior, mas emocionalmente complexa que \u00e9 sua Evelyn. Uma atua\u00e7\u00e3o poderosa que concede unidade e um rico estofo emocional \u00e0 espinha dorsal propositalmente ca\u00f3tica do longa. Ke Huy Quang tamb\u00e9m merece aplausos por dar conta de fazer de seu Waymond o personagem mais divertido e mais deprimido do filme.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No carnaval felliniano de cores, luzes e sombras que \u00e9 \u201cTudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo\u201d, quem chora, levanta e se diverte \u00e9 o espectador que, assim como Evelyn, descobre a complexa rela\u00e7\u00e3o entre mis\u00e9ria, beleza e confraterniza\u00e7\u00e3o que comp\u00f5em nossa exist\u00eancia. Nos moldes da can\u00e7\u00e3o <em>Epit\u00e1fio<\/em>, da banda Tit\u00e3s, a obra desabrocha seguindo a m\u00e1xima: \u201cO acaso vai me proteger enquanto eu andar distra\u00eddo\u201d. Viva o acaso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A constru\u00e7\u00e3o de nossa hist\u00f3ria de vida perpassa por momentos-chave que moldam n\u00e3o apenas nosso destino como tamb\u00e9m nossa personalidade. Em algum momento, as quest\u00f5es \u201ce se tivesse sido diferente? Seria melhor? Ou pior?\u201d j\u00e1 nos assolaram. 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