{"id":7363,"date":"2022-07-16T08:11:19","date_gmt":"2022-07-16T11:11:19","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=7363"},"modified":"2022-07-16T08:11:19","modified_gmt":"2022-07-16T11:11:19","slug":"verniz-de-baz-lhurman-faz-de-elvis-sua-melhor-tragedia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/verniz-de-baz-lhurman-faz-de-elvis-sua-melhor-tragedia\/","title":{"rendered":"Verniz de Baz Lhurman faz de Elvis sua melhor trag\u00e9dia"},"content":{"rendered":"\n<p>O corpo da obra do cineasta Baz Lhurmann sempre teve predile\u00e7\u00e3o pelo mito tr\u00e1gico de \u00cdcaro. Seja no musical rom\u00e2ntico <em>Moulin Rouge<\/em> (2005), no ultra fashion e art deco <em>O Grande Gatsby<\/em> (2013) ou no ber\u00e7o do hip hop em <em>Get Down<\/em> (2016-2017), sua decupagem burlesca sempre acaba em est\u00f3rias sobre a natureza ingrata do espet\u00e1culo. Elemento indissoci\u00e1vel da hist\u00f3ria do cinema americano que sempre teve fissura por est\u00f3rias como essa em cl\u00e1ssicos como <em>Cidad\u00e3o Kane<\/em> (1941), <em>Lawrence da Ar\u00e1bia<\/em> (1962) e <em>Touro Indom\u00e1vel<\/em> (1980).<\/p>\n\n\n\n<p>Em <em>Elvis<\/em> (2022), o diretor acha o her\u00f3i cristalino para exteriorizar suas neuras e fasc\u00ednios sobre a natureza perversa da vida olimpiana dentro do show business. O filme conta a trajet\u00f3ria de Elvis Presley (Austin Butler) sob a perspectiva daquele que criou o mito do rei do rock e tamb\u00e9m o abusou at\u00e9 n\u00e3o sobrar mais nada do que fora: o empres\u00e1rio Coronel Tom Parker (Tom Hanks).<\/p>\n\n\n\n<p>Interpretado como uma for\u00e7a da natureza pelo novato Austin Butler, o \u00edcone mor dos <em>baby boomers<\/em> n\u00e3o poderia pedir por uma representa\u00e7\u00e3o melhor. Ainda que d\u00edspar da fronte arredondada de Presley, Butler encarna com perfei\u00e7\u00e3o tudo que associamos a Elvis: ginga, sensualidade, presen\u00e7a e, principalmente, o timbre de voz. Butler nos d\u00e1 um personagem que \u00e9 magn\u00e9tico no charme e integridade art\u00edstica e tr\u00e1gico no qu\u00e3o longe \u00e9 disposto a ir em fun\u00e7\u00e3o disso. Como ressaltam os planos de silhueta e c\u00e2mera lenta de Lhurmann, nada menos que ic\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<p>Tom Hanks, ator de envergadura muito maior do que o r\u00f3tulo de bom mo\u00e7o lhe estereotipa, complexifica um vil\u00e3o que, nas m\u00e3os de um int\u00e9rprete menos capaz, seria um mais um Mefisto caricato. Debaixo da maquiagem pesada, a interpreta\u00e7\u00e3o de Hanks faz de um aproveitador sem remorso algu\u00e9m cuja vis\u00e3o de mundo n\u00e3o difere pessoas de cifras e que por isso teve a oportunidade de deslanchar muito tarde. Algu\u00e9m que claramente se v\u00ea apenas como um sobrevivente que luta com as armas que a vida lhe deu.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma decis\u00e3o sagaz, o roteiro mostra a hist\u00f3ria sob a perspectiva de Parker. O que nos inteira sobre sua natureza hip\u00f3crita e cria tens\u00e3o por antecipa\u00e7\u00e3o do como ele arru\u00edna a carreira de Elvis enquanto posa de figura paterna para o astro. O roteiro de Lhurmann e cia brilha quando ornamenta momentos decisivos da vida do cantor ao som de suas composi\u00e7\u00f5es marcantes. Dentro de pequenas sequencias que unem trag\u00e9dia e espet\u00e1culo, a condu\u00e7\u00e3o prima por nunca deixar de fazer cada beat ter seu devido impacto.<\/p>\n\n\n\n<p>Os excessos de Lhurmann, outrora sua cruz para a imprensa especializada, d\u00e3o o sabor da est\u00f3ria. O uso anacr\u00f4nico de can\u00e7\u00f5es cria avatares no passado para m\u00fasica contempor\u00e2nea. A fotografia exuberante remonta a textura technicolor das d\u00e9cadas de 50 e 60 para trazer textura para esse universo e depois emudecer-se conforme a vida e obra de Presley rumam para o destino final. E a edi\u00e7\u00e3o, mordaz ferramenta de ritmo, faz dos mil e um recursos empregados na dilata\u00e7\u00e3o do tempo um adendo fren\u00e9tico para ilustrar o qu\u00e3o intoxicante foi o poder et\u00edlico da fama e do prestigio sob seu protagonista. Um poderio audiovisual que nem Aaron Sorkin seria capaz de criar via di\u00e1logo e que Lhurman emprega no auge de sua criatividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que alguns segmentos e personagens secund\u00e1rios soem atrofiados dentro da trama e a escolha de Olivia de Jonge seja no m\u00ednimo ambivalente para o papel de Priscilla Presley, a obra nunca decepciona. \u00cdcaro nunca esteve mais vivo do que na epopeia americana cl\u00e1ssica do menino do Alabama que voou perto demais do sol e caiu atr\u00e1s dos port\u00f5es de ouro do hotel Continental de Las Vegas. Como dizia George Bernard Shaw, \u201cexistem duas trag\u00e9dias na vida: Uma \u00e9 n\u00e3o conseguir o que se quer, a outra \u00e9 conseguir\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O corpo da obra do cineasta Baz Lhurmann sempre teve predile\u00e7\u00e3o pelo mito tr\u00e1gico de \u00cdcaro. 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