{"id":971,"date":"2013-04-01T22:13:03","date_gmt":"2013-04-01T22:13:03","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=971"},"modified":"2013-04-01T22:13:03","modified_gmt":"2013-04-01T22:13:03","slug":"para-mudar-a-mentira-de-uma-versao-oficial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/para-mudar-a-mentira-de-uma-versao-oficial\/","title":{"rendered":"Para mudar a mentira de uma vers\u00e3o oficial"},"content":{"rendered":"<p>O domingo mereceria uma data diferente no calend\u00e1rio. Ele caiu num 31 de Mar\u00e7o, dia reconhecido por setores conservadores da sociedade como marco do golpe militar de 1964. Apesar da passagem do tempo, ainda hoje se convive com a mentira de vers\u00f5es oficiais oferecidas at\u00e9 1985 e com os fantasmas dos mortos e dos desaparecidos pol\u00edticos. Por outro lado, a cultura e o pensamento t\u00eam conseguido ilustrar os cidad\u00e3os dos anos 2000 sobre a cat\u00e1strofe nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e o drama humano condicionados pela ditadura.<\/p>\n<p>O regime militar promoveu a tortura de modo sistem\u00e1tico e foram comuns \u201cacidentes de trabalho\u201d, quando o \u201cdepoente\u201d terminava morto depois de sucessivas sess\u00f5es de castigos corporais. Era recorrente oferecer a vers\u00e3o do suic\u00eddio para explicar \u00f3bitos nas salas de interrogat\u00f3rio. Vladimir Herzog (1975) e Alexandre Vannucchi Leme (1973) est\u00e3o no grupo dos que seu assassinato mediante o flagelo foi seguido da atribui\u00e7\u00e3o da culpa para a pr\u00f3pria v\u00edtima.<\/p>\n<p>Alexandre Vannucchi Leme era natural de Sorocaba, tinha 22 anos e estudava o quarto ano de Geologia da USP. Foi detido por agentes do DOI-Codi para prestar informa\u00e7\u00f5es sobre sua participa\u00e7\u00e3o em atos da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN) realizados justamente quando se recuperava de uma cirurgia para retirar o ap\u00eandice. Ao saberem de sua morte, seus colegas de universidade paralisaram as aulas em revolta. Reconheciam nele um l\u00edder, um amigo e uma pessoa como eles.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia de Alexandre recebeu duas vers\u00f5es para seu falecimento. Uma foi a de suic\u00eddio com uma l\u00e2mina de barbear. A outra foi de atropelamento por um ve\u00edculo na regi\u00e3o do Br\u00e1s, depois de fuga. No IML, os pais iriam descobrir que o corpo do filho havia sido enterrado como indigente no Cemit\u00e9rio de Perus com uma p\u00e1 de cal sobre o corpo para acelerar sua decomposi\u00e7\u00e3o. Apenas 10 anos depois da ocorr\u00eancia, eles puderam resgatar seus restos mortais.<\/p>\n<p>No dia 15 de mar\u00e7o passado, o esqueleto de dinossauro e a rocha da exposi\u00e7\u00e3o permanente do Instituto de Geoci\u00eancias da USP dividiram espa\u00e7o com um ato p\u00fablico em que Alexandre recebeu sua anistia pol\u00edtica e a fam\u00edlia de Vladimir Herzog obteve um novo atestado de \u00f3bito, recuperando um atraso de 38 anos. A sess\u00e3o foi concorrida por professores, estudantes, pol\u00edticos, ativistas e tipos diversos de cidad\u00e3os interessados na hist\u00f3ria brasileira.<\/p>\n<p>Rodas de conversa lembravam hist\u00f3rias a se registrar e um panfleto circulava distribu\u00eddo de m\u00e3o e em m\u00e3o, informava sua procura por entrevistados para document\u00e1rio dedicado a tema in\u00e9dito na filmografia sobre a ditadura. Ivo Herzog, filho de \u201cVlado\u201d, usou sua declara\u00e7\u00e3o para destacar a import\u00e2ncia de haver um documento expedido por um juiz atestando a mentira da vers\u00e3o oficial de 1975 \u2013 a do suic\u00eddio. No novo texto, a causa da morte do ent\u00e3o diretor de jornalismo da TV Cultura s\u00e3o as les\u00f5es e maus-tratos sofridos durante interrogat\u00f3rio no DOI-Codi, \u00f3rg\u00e3o ligado ao Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Apesar de o estado de exce\u00e7\u00e3o ser fator de vergonha para um povo livre, at\u00e9 novembro de 2010, a comemora\u00e7\u00e3o do 31 de Mar\u00e7o ainda constava do portal do Ex\u00e9rcito na internet e, em 2013, Clubes Militares continuam a homenagem a referida \u00e9poca. Basta consultar a manifesta\u00e7\u00e3o assinada no Rio de Janeiro pelos presidentes do Clube Militar, do Clube da Aeron\u00e1utica e do Clube Naval. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o Grupo Tortura Nunca Mais (RJ) h\u00e1 25 anos promove o Pr\u00eamio Chico Mendes, entregando o t\u00edtulo a dez pessoas e entidades que tenham se destacado em lutas de resist\u00eancia no Brasil e Am\u00e9rica Latina. A sess\u00e3o desse ano ser\u00e1 na Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa (ABI) e um dos contemplados \u00e9 o cineasta Silvio Tendler.<\/p>\n<p>Para montar o mosaico dos anos de chumbo, \u00e9 preciso se informar. As artes conseguem nos ajudar a interpretar de modo mais qualificado o per\u00edodo. N\u00e3o perde o programa quem procura: (a) o doc \u201cCidad\u00e3o Boilesen\u201d (Chaim Litewski, 2009 \/ 92 min), um dos vencedores da 14\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival Internacional de Document\u00e1rios &#8211; \u00c9 Tudo Verdade; (b) o drama \u201cCara ou coroa\u201d (Ugo Giorgetti, 2012), com Walmor Chagas interpretando a cativante figura de um militar da reserva, her\u00f3i da FEB; (c) o romance \u201cK.\u201d, de Bernardo Kucinski (<em>Express\u00e3o Popular<\/em>, 2011; R$ 18,00), men\u00e7\u00e3o honrosa do Pr\u00eamio Portugal Telecom de Literatura em 2012. Esta, por sinal, \u00e9 uma narrativa de pai para filha.<\/p>\n<p>Os atos p\u00fablicos, as artes e o trabalho de pesquisadores t\u00eam permitido que, nos anos 2000, a mentira deixe de predominar em vers\u00f5es oficiais sobre o nosso passado recente. Afinal, n\u00e3o s\u00e3o apenas fatos pol\u00edticos. O que est\u00e1 em jogo s\u00e3o hist\u00f3rias de vida, tanto das pessoas que se foram quanto daquelas que ficaram. Dar uma resposta para cada caso de morto ou desaparecido pol\u00edtico \u00e9 um dever do estado brasileiro. \u00c9 o m\u00ednimo que se pode fazer.<\/p>\n<p>Texto de<strong>\u00a0<\/strong><a href=\"http:\/\/www.culturaplural.com.br\/search?SearchableText=Ben-Hur%20Demeneck\">Ben-Hur Demeneck<\/a><\/p>\n<p>* O autor \u00e9 jornalista formado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e doutorando em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o pela Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo (ECA-USP).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O domingo mereceria uma data diferente no calend\u00e1rio. Ele caiu num 31 de Mar\u00e7o, dia reconhecido por setores conservadores da sociedade como marco do golpe militar de 1964. 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