{"id":1118,"date":"2021-06-17T14:17:59","date_gmt":"2021-06-17T14:17:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/?p=1118"},"modified":"2021-07-05T22:17:03","modified_gmt":"2021-07-05T22:17:03","slug":"reviver-associacao-de-assistencia-para-pessoas-vivendo-com-hiv-e-ou-doentes-de-aids-em-ponta-grossa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/reviver-associacao-de-assistencia-para-pessoas-vivendo-com-hiv-e-ou-doentes-de-aids-em-ponta-grossa\/","title":{"rendered":"Reviver, associa\u00e7\u00e3o de assist\u00eancia para pessoas vivendo com HIV e\/ou doentes de AIDS em Ponta Grossa"},"content":{"rendered":"<p>No Brasil, a d\u00e9cada de 1990 presenciou uma reconfigura\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais, concomitante \u00e0 reabertura democr\u00e1tica que ent\u00e3o ocorria, num momento de ofensiva do neoliberalismo em v\u00e1rias partes do mundo. Organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais (ONGs) surgiram no per\u00edodo como express\u00f5es dessas novas configura\u00e7\u00f5es, que remetem a um conjunto espec\u00edfico de aspectos sociais e pol\u00edticos da rela\u00e7\u00e3o entre Estado e sociedade civil (MONTA\u00d1O e DURIGUETTO, 2011).<\/p>\n<p>Tal contexto tamb\u00e9m foi marcado pelo enfrentamento \u00e0 epidemia de HIV no Brasil, em not\u00e1vel ascens\u00e3o no in\u00edcio da mesma d\u00e9cada (MARQUES, 2003). Para al\u00e9m de diferentes a\u00e7\u00f5es e programas do Estado brasileiro, a resposta \u00e0 epidemia em solo nacional tamb\u00e9m foi amplamente influenciada pela atua\u00e7\u00e3o da sociedade civil, na medida em que, como bem vaticinou Altman (1995, p.21), \u201c[&#8230;] sem rea\u00e7\u00f5es fortes originadas na comunidade, os melhores recursos dos sistemas de sa\u00fade p\u00fablica n\u00e3o seriam capazes de enfrentar a crise da AIDS\u201d.<\/p>\n<p>O primeiro caso de infec\u00e7\u00e3o pelo HIV oficialmente registrado em Ponta Grossa remonta a 1987, e a partir desse ano o n\u00famero de diagn\u00f3sticos e de \u00f3bitos manteve-se em curva ascendente (BARSZCZ, 2020). Em meados de 1989 foi criado um ambulat\u00f3rio de infectologia na regi\u00e3o central da cidade, que funcionava como centro de especialidades, ainda modesto em equipe e estrutura (WISNIEWSKI, 2000). Foi nesse espa\u00e7o que, em 1991, religiosas da \u00a0Congrega\u00e7\u00e3o Copiosa Reden\u00e7\u00e3o,\u00a0rec\u00e9m fundada no munic\u00edpio, travaram contato com profissionais de sa\u00fade para oferecer suporte espiritual e assistencial \u00e0s pessoas soropositivas para o HIV e suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Tal parceria sustentou-se at\u00e9 que em 1995 ocorreu a decis\u00e3o de se fundar uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental que buscasse expandir um conjunto de a\u00e7\u00f5es sobre o HIV, sobretudo aspectos de sua preven\u00e7\u00e3o. Dessa forma, em 07 de setembro daquele ano, foi fundada a Associa\u00e7\u00e3o Reviver de Assist\u00eancia ao Portador de HIV, pioneira no enfoque espec\u00edfico ao apoio, acolhida, informa\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia social para pessoas vivendo com HIV e\/ou doentes de AIDS em Ponta Grossa. Criada por um conjunto de atores da sociedade civil, a institui\u00e7\u00e3o passou por diferentes fases ao longo de seus 25 anos.<\/p>\n<p>Entre os anos de 1996 e 1997 a institui\u00e7\u00e3o reunia seus integrantes em uma sala no 7\u00ba andar do Edif\u00edcio Itapu\u00e3, localizado no centro da cidade, espa\u00e7o cedido em uma parceria assinada com o Centro de Direitos Humanos de Ponta Grossa (CDH-PG). \u00c0 \u00e9poca, as a\u00e7\u00f5es do grupo mais se caracterizam por participa\u00e7\u00f5es em eventos municipais com \u00eanfase para a visibilidade e preven\u00e7\u00e3o ao v\u00edrus e forma\u00e7\u00e3o de grupo de discuss\u00e3o de gays, l\u00e9sbicas ou simpatizantes da causa da diversidade sexual (GLS). Uma vez que o CDH-PG n\u00e3o deu continuidade \u00e0 parceria no ano seguinte, a entidade teve sua sede alterada para uma sala situada aos fundos do Diret\u00f3rio Central de Estudantes da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).<\/p>\n<p>Neste per\u00edodo, compreendido entre mar\u00e7o e agosto de 1998, a Associa\u00e7\u00e3o Reviver passou a redigir seus primeiros projetos, assistida por professoras do curso de Servi\u00e7o Social da UEPG e representantes da j\u00e1 ent\u00e3o consolidada organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental curitibana <em>Grupo Dignidade<\/em>. \u00a0Os objetivos desse per\u00edodo direcionaram-se para firmar parcerias junto ao Estado brasileiro por meio do programa AIDS I (GALV\u00c3O, 2000). Tamb\u00e9m esse per\u00edodo remonta \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um grupo informal de mulheres que passou a se encontrar regularmente no espa\u00e7o da ONG.<\/p>\n<p>Foi ainda no de 1998 que a Associa\u00e7\u00e3o Reviver passou a ocupar uma nova sede, cedida pela prefeitura, na rua Rio Grande do Sul, n\u00ba 400. Com espa\u00e7o f\u00edsico amplo, suficientemente adequado \u00e0 nova realidade da entidade, agora financiada pelo programa AIDS I, a Reviver passou a desenvolver um conjunto de projetos: alguns voltados para a\u00e7\u00f5es externas de maior abrang\u00eancia,\u00a0 como campanhas preventivas, palestras em empresas e escolas, a busca ativa junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o ent\u00e3o identificada como \u2018grupos de risco\u2019; outros voltados para a\u00e7\u00f5es internas, o que implicou em tornar a associa\u00e7\u00e3o um espa\u00e7o de conviv\u00eancia e sociabilidade, caracter\u00edstica fundamental da Reviver ao longo de toda a trajet\u00f3ria vindoura<\/p>\n<p>Desse ponto em diante, foram diversos os projetos desenvolvidos pelo Reviver. A maioria deles em parcerias firmadas com o poder p\u00fablico. Voltados para a popula\u00e7\u00e3o geral ou para grupos espec\u00edficos, mencionamos aqui alguns deles. O primeiro projeto aprovado foi o \u2018Projeto Margarida\u2019, voltado especificamente para mulheres soropositivas para o HIV. Foi decorrente das reuni\u00f5es e encontros informais que mulheres passaram a realizar na institui\u00e7\u00e3o desde meados de 1998. Seu objetivo principal voltava-se para capacita\u00e7\u00e3o de mulheres de Ponta Grossa e regi\u00e3o sobre as diversas quest\u00f5es englobadas pelo HIV\/AIDS e atingiu distintas atrizes sociais: l\u00edderes comunit\u00e1rias, mulheres da \u00e1rea rural, jovens e adolescentes, mulheres soropositivas para o HIV e membras de equipes t\u00e9cnicas de sa\u00fade do munic\u00edpio (BARSZCZ, 2020). Com o sucesso mundial da terapia antirretroviral, a partir de 1996, a entidade passou a enfatizar a necessidade do acesso aos f\u00e1rmacos pela popula\u00e7\u00e3o bem como a ades\u00e3o desta aos tratamentos medicamentosos dispon\u00edveis.<\/p>\n<p>Outros projetos se seguiram e, dentre eles, o \u2018Roda Pi\u00e3o\u2019, voltado para crian\u00e7as vivendo com HIV; o \u2018Maluco Beleza\u2019, que contava com abordagens de rua e a\u00e7\u00f5es de orienta\u00e7\u00e3o, preven\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o de danos junto a usu\u00e1rios de subst\u00e2ncias psicoativas; o \u2018Androgenius\u2019, extens\u00e3o do \u2018Grupo GLS\u2019, que trabalhava especificamente com a comunidade de gays, bissexuais, l\u00e9sbicas e travestis, entre outros. \u00c9 importante destacar que parte das equipes de trabalho de tais projetos foi composta de pessoas vivendo com HIV e tal protagonismo tamb\u00e9m caracterizou a resposta municipal e da ONG \u00e0 epidemia (BARSZCZ, 2020).<\/p>\n<p>A partir de 2006 o cen\u00e1rio nacional de enfrentamento ao HIV passou por mudan\u00e7as expressivas. Por um lado, foi o ano que marcou o fim dos programas de financiamento por parte do Banco Mundial; por outro lado, o programa nacional passou a destinar recursos financeiros aos governos locais, fomentando parcerias diretas entre munic\u00edpios e as organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, embora n\u00e3o tenha criado mecanismos para garantir sua efetividade de destina\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o raro, o per\u00edodo \u00e9 descrito na literatura do tema como de crise no financiamento das ONGs (CORR\u00caA, 2016; CALAZANS, 2018).<\/p>\n<p>Neste mesmo ano de 2006 a ONG obteve uma sede pr\u00f3pria, situada at\u00e9 os dias atuais na rua Manoel Soares do Santos, 585. Com o fim do aporte financeiro do Banco Mundial e com a centraliza\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o municipal ao HIV no Servi\u00e7o de Assist\u00eancia Especializada (SAE) fundado em 2001, a ONG precisou readequar seus projetos e frentes de atua\u00e7\u00e3o. Assim, al\u00e9m do trabalho em grupos com a popula\u00e7\u00e3o vivendo com HIV, passou a buscar financiamento de projeto junto a empresas, bem como aproximou-se da Pol\u00edtica Nacional de Assist\u00eancia Social.<\/p>\n<p>Atualmente, a Reviver desenvolve a\u00e7\u00f5es como a participa\u00e7\u00e3o em eventos municipais, articula\u00e7\u00f5es com o SAE, promo\u00e7\u00e3o e garantia de direitos, e oficinas tem\u00e1ticas variadas, que v\u00e3o desde a preven\u00e7\u00e3o e ades\u00e3o terap\u00eautica at\u00e9 a promo\u00e7\u00e3o de habilidades manuais e art\u00edsticas. A despeito da perda de especificidade de muitos dos projetos para a quest\u00e3o do HIV, a Reviver permanece como um espa\u00e7o de refer\u00eancia na acolhida, sociabilidade, garantia de direitos e reconhecimento identit\u00e1rio para a popula\u00e7\u00e3o que vive com o HIV em Ponta Grossa e regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>ALTMAN, D. <em>Poder e comunidade.<\/em> Respostas organizacionais e culturais \u00e0 AIDS. Rio de Janeiro: Relume-Dumar\u00e1; ABIA; UERJ, 1995.<\/p>\n<p>BARSZCZ, M. V. <em>Hist\u00f3ria, mem\u00f3ria e protagonismos: <\/em>a associa\u00e7\u00e3o Reviver de assist\u00eancia ao portador de HIV e a resposta do munic\u00edpio de Ponta Grossa \u00e0 AIDS. Disserta\u00e7\u00e3o (mestrado em Ci\u00eancias Sociais Aplicadas). Universidade Estadual de Ponta Grossa, Paran\u00e1, 2020.<\/p>\n<p>BRASIL. Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social e Combate \u00e0 Fome. Secretaria Nacional de Assist\u00eancia Social. <em>Tipifica\u00e7\u00e3o Nacional de Servi\u00e7os Socioassistenciais.<\/em> Bras\u00edlia: MDS, 2014.<\/p>\n<p>CALAZANS, G. J. <em>Pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade e reconhecimento: um estudo sobre preven\u00e7\u00e3o da infec\u00e7\u00e3o pelo HIV para homens que fazem sexo com homens.<\/em> 2018, 223 p. Tese (Doutorado em Medicina Preventiva) \u2013 Faculdade de Medicina, Universidade de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, 2018.<\/p>\n<p>C\u00d4RREA, S. A resposta brasileira ao HIV e \u00e0 AIDS em tempos tormentosos e incertos. In: ASSOCIA\u00c7\u00c2O BRASILEIRA INTERDISCIPLINAR DE AIDS \u2013 ABIA. <em>Mito vs Realidade:<\/em> sobre a resposta brasileira \u00e0 epidemia de HIV e AIDS em 2016.<\/p>\n<p>GALV\u00c3O, J. <em>AIDS no Brasil<\/em><em>: A Agenda De constru\u00e7\u00e3o De Uma Epidemia<\/em>. Rio de Janeiro; S\u00e3o Paulo: ABIA; Editora 34, 2000.<\/p>\n<p>MARQUES, M. C. C. <em>A hist\u00f3ria de uma epidemia moderna:<\/em> A emerg\u00eancia pol\u00edtica da AIDS\/HIV no Brasil. Maring\u00e1: EDUEM, 2003.<\/p>\n<p>MONTA\u00d1O, C; DURIGUETTO, M. L. <em>Estado, Classe e Movimento Social.<\/em> S\u00e3o Paulo: Cortez, 2011.<\/p>\n<p>PARKER, R. <em>Pol\u00edticas, Institui\u00e7\u00f5es e AIDS.<\/em> Enfrentando a epidemia no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed; ABIA, 1997.<\/p>\n<p>SEFFNER, F; PARKER, R. A neoliberaliza\u00e7\u00e3o da preven\u00e7\u00e3o do HIV e a resposta brasileira \u00e0 AIDS. In: ASSOCIA\u00c7\u00c2O BRASILEIRA INTERDISCIPLINAR DE AIDS \u2013 ABIA. <em>Mito vs Realidade<\/em>: sobre a resposta brasileira \u00e0 epidemia de HIV e AIDS em 2016. Rio de Janeiro, RJ, ABIA, 2016.<\/p>\n<p>WISNIEWSKI, M. <em>O atendimento p\u00fablico em HIV\/AIDS na cidade de Ponta Grossa \u2013 PR e a vis\u00e3o das equipes multidisciplinares sobre a utiliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica nacional de humaniza\u00e7\u00e3o no gerenciamento da epidemia.<\/em> Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Ci\u00eancias Sociais Aplicadas) \u2013 Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, 2015.<\/p>\n<p><strong>AUTOR:<\/strong> Marcos Vin\u00edcius Barszcz, psic\u00f3logo. Mestre em Ci\u00eancias Sociais Aplicadas pela UEPG, 2020.<\/p>\n<p><strong>ANO:<\/strong> 2021<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, a d\u00e9cada de 1990 presenciou uma reconfigura\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais, concomitante \u00e0 reabertura democr\u00e1tica que ent\u00e3o ocorria, num momento de ofensiva do neoliberalismo em v\u00e1rias partes do mundo. 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