{"id":1282,"date":"2024-07-23T20:00:53","date_gmt":"2024-07-23T20:00:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/?p=1282"},"modified":"2024-07-23T20:04:23","modified_gmt":"2024-07-23T20:04:23","slug":"nucleo-31-de-marco-em-ponta-grossa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/nucleo-31-de-marco-em-ponta-grossa\/","title":{"rendered":"N\u00facleo 31 de Mar\u00e7o em Ponta Grossa"},"content":{"rendered":"<p><b>\u00a0<\/b> <span style=\"font-weight: 400\">No dia 31 de mar\u00e7o de 1964 a na\u00e7\u00e3o brasileira entra em um tr\u00e1gico cap\u00edtulo da sua hist\u00f3ria: a ditadura militar. Foram longos anos de repress\u00e3o e censura contra o povo, e a mesma s\u00f3 teria fim no dia 15 de mar\u00e7o de 1985, momento marcado pela redemocratiza\u00e7\u00e3o brasileira. Ponta Grossa assim como qualquer outra cidade do pa\u00eds foi impactada pela ditadura, mas sem d\u00favidas teve uma forte manipula\u00e7\u00e3o por parte dos militares.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Tr\u00eas anos ap\u00f3s o golpe, o jornal ponta-grossense Di\u00e1rio dos Campos publica a not\u00edcia: \u201cNa\u00e7\u00e3o comemora o III\u00ba anivers\u00e1rio da revolu\u00e7\u00e3o\u201d e tamb\u00e9m \u201cPG recebe hoje casas da COHAB\u201d anunciando a entrega das 1000 casas do n\u00facleo em 31 de Mar\u00e7o de 1967. A cerim\u00f4nia de lan\u00e7amento do n\u00facleo se deu a partir da entrega de tr\u00eas casas a cidad\u00e3os pertencentes \u00e0 For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira, com presen\u00e7a do governador Paulo Pimentel e outras autoridades do governo durante a ditadura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em mar\u00e7o de 1965, um grupo de militantes da For\u00e7a Armada de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (FALN) foi cercado por militares na estrada entre Capanema e Cascavel e logo entraram em conflito. Com a troca de tiros, o Sargento Carlos Argemiro Camargo, natural de Ponta Grossa, foi baleado e faleceu. Na inaugura\u00e7\u00e3o do bairro em 1967, todas as ruas receberam nomes de min\u00e9rios, com exce\u00e7\u00e3o da principal rua do N\u00facleo: a Rua Sargento Argemiro Camargo, homenagem ao falecido sargento morto em combate, que anos depois deixou de ser a principal rua do bairro com o crescimento do mesmo. Assim como o nome da rua, o nome do n\u00facleo tamb\u00e9m leva uma auto-homenagem \u00e0 ditadura, sendo 31 de mar\u00e7o o dia do golpe militar brasileiro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A influ\u00eancia do regime militar sobre os jornais locais da \u00e9poca pode ser sentida pela tem\u00e1tica, angula\u00e7\u00e3o e teor das manchetes, mat\u00e9rias, editoriais e artigos. V\u00e1rios generais se posicionaram sobre o golpe nos jornais da \u00e9poca e a grande maioria, sen\u00e3o todos, tinham um discurso que a \u201crevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d, como preferiam chamar, seria um apelo da sociedade que pedia um basta para a situa\u00e7\u00e3o do Brasil da d\u00e9cada de 60, assim, ignorando a voz e realidade daqueles que eram contra e resistiram a ela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O n\u00facleo 31 de mar\u00e7o foi importante para modificar o formato da cidade. Pela primeira vez uma regi\u00e3o perif\u00e9rica apresentou n\u00edveis de povoamento equivalentes ao do centro, o que era algo raro, j\u00e1 que na d\u00e9cada de 1960, Ponta Grossa n\u00e3o tinha uma popula\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande. Ele tamb\u00e9m foi importante para o crescimento da cidade, j\u00e1 que a inaugura\u00e7\u00e3o de 1000 casas trouxe v\u00e1rias fam\u00edlias de outros lugares para a regi\u00e3o. A estrutura das casas era pequena e pr\u00f3xima umas das outras e as ruas eram estreitas, como podemos perceber at\u00e9 os dias de hoje. Por esse motivo, o n\u00facleo ganhou at\u00e9 uma \u201clenda urbana\u201d, que fez o 31 de Mar\u00e7o ficar conhecido como \u201cReden\u00e7\u00e3o\u201d, nome de uma novela de \u00e9poca, mais especificamente de 1966 a 1968, cujo a principal personagem seria a fofoqueira Dona Maroca. A regi\u00e3o ficou famosa por ser prop\u00edcia ao \u201cdiz-que-diz-que\u201d, pois quando algu\u00e9m falava algo, n\u00e3o era dif\u00edcil que o vizinho escutasse com a proximidade das casas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Muitos anos depois do fim da ditadura, o movimento idealizado por Thiago Divardim e Ben-Hur Demeneck e intitulado como \u201c31 pelo 15\u201d surge e coloca em discuss\u00e3o o nome do N\u00facleo. Como todos sabemos, a ditadura \u00e9 marcada por repress\u00e3o, censura e principalmente tortura e persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e0queles que se opuseram a mesma. Portanto, esse movimento recente tinha como principal ideia mudar o nome do n\u00facleo de 31 de Mar\u00e7o, dia do golpe em 1964, para 15 de Mar\u00e7o, dia que marca o fim da ditadura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O primeiro passo se deu na rede social \u201cTwitter\u201d, pela conta @31pelo15: \u201cEssa \u00e9 edi\u00e7\u00e3o virtual de um movimento espont\u00e2neo em favor da troca do nome do n\u00facleo \u201831 de mar\u00e7o\u2019 por \u201815 de mar\u00e7o\u2019\u201d. O \u201c31 pelo 15\u201d fez render pelo menos oito artigos apenas em 2010. Quanto \u00e0 repercuss\u00e3o do movimento, ela se fez notar em jornais impressos, em duas mat\u00e9rias na TV, em meio digital e em programas de r\u00e1dio. No dia 31 de Mar\u00e7o de 2010, a imprensa local fez circular os artigos \u201cPor que trocar o 31 pelo 15\u201d, de Ben\u2010Hur Demeneck, no Di\u00e1rio dos Campos, e \u201cQuem a gente quer ser\u201d, de Thiago Divardim, material publicado simultaneamente no Di\u00e1rio dos Campos e no Jornal da Manh\u00e3. Ou seja, todo o espa\u00e7o opinativo dos di\u00e1rios foi ocupado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A discuss\u00e3o se estendeu por mais algumas edi\u00e7\u00f5es do jornal, nas quais pessoas tamb\u00e9m articularam a favor do movimento e outras que opuseram-se. No dia 5 de abril foi publicado o primeiro enunciado cr\u00edtico ao movimento, no qual\u00a0 o articulista Klaus Writer foi o autor da manchete \u201cA velha \u201831\u201d, que n\u00e3o disfar\u00e7a seu inc\u00f4modo sobre essa discuss\u00e3o e esse espa\u00e7o da cidade carregado de hist\u00f3rias. Na edi\u00e7\u00e3o de 11\/12 de abril, no mesmo jornal, a edi\u00e7\u00e3o do dia traz texto de membro do 31 pelo 15: \u201cPor que o 31 de Mar\u00e7o \u00e9 assunto popular\u201d. Nele, o autor esclarece que n\u00e3o se quer atropelar identidades, mas sim lutar contra a desinforma\u00e7\u00e3o. Uma semana depois, nos dias 18\u201019 de abril foi a vez de se manifestar um empres\u00e1rio e produtor rural, Douglas Taques Fonseca, que\u00a0 apresentou o enunciado \u201cTemos orgulho do 31 de Mar\u00e7o\u201d. Trata-se de uma defesa aberta \u00e0 ditadura civil\u2010militar e de seu legado, a ponto de considerar como &#8220;inf\u00e2mia&#8221; discursos cr\u00edticos a ela. Para ele, os brasileiros comemoraram com a bandeira na m\u00e3o a \u201crevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d e que os jovens de hoje est\u00e3o desinformados em rela\u00e7\u00e3o ao saudoso governo militar. Sem demora, apareceu uma r\u00e9plica, intitulada \u201cO 31 pelo 15 para chegar ao s\u00e9culo XXI\u201d, no Di\u00e1rio dos Campos de 20 de abril. Trabalho de autoria do historiador e professor do Departamento de Hist\u00f3ria e das p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es de Hist\u00f3ria e de Educa\u00e7\u00e3o da UEPG, Luiz Fernando Cerri, qualifica o \u201cbanho oficial de sangue\u201d como a principal marca do 31 de Mar\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No portal comunit\u00e1rio \u201cMem\u00f3rias Digitais\u201d da UEPG, a mat\u00e9ria \u201cO bairro, o golpe e a mem\u00f3ria de Uma Ditadura em Ponta Grossa\u201d mostra o relato de Rosa Covalski Barreto, uma das primeiras moradoras do 31 de Mar\u00e7o. Na mat\u00e9ria, Rosa lembra que, na \u00e9poca, quem dava a escritura das casas era o ex\u00e9rcito. \u201cTinha o escrit\u00f3rio de um Major aposentado na entrada do bairro. Pagamos 700 cruzeiros de mensalidade para os militares\u201d, conta.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias:<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">OLIVEIRA, T. A. e Demeneck, B. H. (2016). <\/span><b>\u201c31 de Mar\u00e7o\u201d: um n\u00facleo habitacional como enunciado e elemento da cultura hist\u00f3rica.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Anais Eletr\u00f4nicos, 11(3), 478-491.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DEMENECK, Ben-Hur. <\/span><b>Jornal Grimpa: Nem tudo s\u00e3o espinhos na imprensa paranaense: descri\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria de um peri\u00f3dico do interior.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> In: VI Congresso Nacional de Hist\u00f3ria da M\u00eddia. GT M\u00eddia Alternativa. Universidade Federal Fluminense (UFF), Niter\u00f3i\/RJ: 13 a 16 Maio de 2008. Anais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">PORTAL COMUNIT\u00c1RIO. <\/span><b>O bairro, o golpe e a mem\u00f3ria de uma ditadura em Ponta Grossa<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Blog Portal Comunit\u00e1rio. 28 jul. 2014,. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/memoria.apps.uepg.br\/portalcomunitario\/index.php\/neves\/3784-o-bairro-o-golpe-e-a-memoria-de-uma-ditadura-em-ponta-grossa.html\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/memoria.apps.uepg.br\/portalcomunitario\/index.php\/neves\/3784-o-bairro-o-golpe-e-a-memoria-de-uma-ditadura-em-ponta-grossa.html<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. Acesso em: 10 ago. 2023.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">DEMENECK, B.-H., &amp; OLIVEIRA, T. A. (2011). <\/span><b>\u201cMajor, viemos pagar o aluguel\u201d: um n\u00facleo habitacional como caso de homenagem e auto-homenagem do regime militar a partir de di\u00e1rios de 1967 e de 2010 -a opini\u00e3o p\u00fablica de 25 anos de democracia. <\/b><span style=\"font-weight: 400\">VIII Encontro Nacional de Hist\u00f3ria da M\u00eddia. Guarapuava-PR: Unicentro.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Autor:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Gustavo de Jesus Silva<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Acad\u00eamico do 2\u00b0 ano de Licenciatura em Hist\u00f3ria, UEPG.<\/span><\/p>\n<p><b>Ano:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> 2023<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 No dia 31 de mar\u00e7o de 1964 a na\u00e7\u00e3o brasileira entra em um tr\u00e1gico cap\u00edtulo da sua hist\u00f3ria: a ditadura militar. 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