{"id":1284,"date":"2024-07-23T20:03:30","date_gmt":"2024-07-23T20:03:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/?p=1284"},"modified":"2024-07-27T17:19:33","modified_gmt":"2024-07-27T17:19:33","slug":"escravidao-nos-campos-gerais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/escravidao-nos-campos-gerais\/","title":{"rendered":"Escravid\u00e3o nos Campos Gerais"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Sabe-se muito da escravid\u00e3o no Brasil e pouco sobre ela em nossa regi\u00e3o. Come\u00e7amos ent\u00e3o com uma ideia b\u00e1sica: a escravid\u00e3o existiu nos Campos Gerais e a m\u00e3o de obra escrava foi fundamental para o desenvolvimento econ\u00f4mico da regi\u00e3o. O n\u00famero de senhores de escravarias dos Campos Gerais era maior que o da pr\u00f3pria Curitiba. Aqui o percentual de cativos chegava a 20% enquanto em Curitiba e no litoral paranaense chegava a 12,4% e 18,5%, isso nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">As atividades que os escravos realizavam em nosso territ\u00f3rio eram diversas: servi\u00e7os dom\u00e9sticos, na agricultura, na pecu\u00e1ria e at\u00e9 mesmo em atividades especializadas como alfaiate, domador, roceiro, entre outras. A posse de escravos, o com\u00e9rcio, principalmente de animais, juntamente com as propriedades de terra consolidaram as grandes fortunas da elite escravista do s\u00e9culo XIX.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outro elemento fundamental para a escravid\u00e3o surgir e se manter por tantos anos foi a atividade tropeira. No Paran\u00e1, era mais comum as tropas serem de mulas e os viajantes partiam do Sul em dire\u00e7\u00e3o ao Norte. Essa atividade era muito lucrativa e poucos tropeiros repetiam essa viagem mais de uma vez, visto a dificuldade da travessia e tamb\u00e9m pelo valor econ\u00f4mico que eles obtinham somente com uma viagem. Ela j\u00e1 era suficiente para enriquecer o tropeiro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Muitas das fazendas escravistas que aqui existiam possu\u00edam a caracter\u00edstica absente\u00edsta, isto quer dizer que, a maioria dos seus donos eram comerciantes paulistas que deixavam a organiza\u00e7\u00e3o e administra\u00e7\u00e3o da fazenda nas m\u00e3os dos escravos. Uma fazenda conhecida em nossa regi\u00e3o com esta caracter\u00edstica \u00e9 a Fazenda Cap\u00e3o Alto, localizada na cidade de Castro. Os escravos que ali residiam realizavam elei\u00e7\u00f5es semanais para escolher o administrador que comandaria a fazenda.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A fazenda Cap\u00e3o Alto tinha muito destaque na \u00e9poca e podemos perceber isso por dois fatores. O primeiro era a passagem dos tropeiros. Eles utilizavam a rota para transportar animais at\u00e9 Sorocaba, passavam pelo rio Iap\u00f3 e quando este enchia, eles paravam na fazenda e acampavam por ali at\u00e9 que o rio voltasse ao normal. O segundo fator importante era a igreja presente neste local. A capela constru\u00edda de barro, datada de 300 anos, \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o mais antiga do interior do Paran\u00e1.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0Isso demostra que em nossa regi\u00e3o a escravid\u00e3o tomava formas e possuia caracter\u00edsticas diferentes de se desenvolver, comparado a todo territ\u00f3rio brasileiro, por\u00e9m, nem por isso devemos achar que a escravid\u00e3o no sul do pa\u00eds se deu de forma branda, ou mais amena. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Por 94 anos os escravos da Fazenda Cap\u00e3o Alto estavam em condi\u00e7\u00e3o de \u201cliberdade\u201d, continuavam sendo escravos, por\u00e9m escravos sem donos. Os Campos Gerais deram essa \u201cliberdade\u201d disfar\u00e7ada de controle para que n\u00e3o houvesse revoltas, o que permitiu a escravid\u00e3o por tantos anos. Isso transmite tranquilidade e mansid\u00e3o, como se essa situa\u00e7\u00e3o apagasse todos crimes e castigos cometidos e como se desaparecesse a condi\u00e7\u00e3o de escravos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A escravid\u00e3o que aqui ocorreu foi t\u00e3o cruel e sanguin\u00e1ria como qualquer outra. Quando falamos de submiss\u00e3o e maus tratos \u00e0 vida humana n\u00e3o podemos fazer compara\u00e7\u00f5es, ela sempre vai ser repudiada, seja qual for a maneira que ela aconte\u00e7a.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mas como era a posi\u00e7\u00e3o das pessoas que estavam em uma condi\u00e7\u00e3o imposta de escravos? Elas aceitavam de bom grado essa condi\u00e7\u00e3o? Podemos ver claramente que houve muita luta e resist\u00eancia desse povo contra a escravid\u00e3o. Os escravos usavam v\u00e1rias estrat\u00e9gias a fim de escapar e faziam isso por meio de \u201cbrechas\u201d, para ent\u00e3o almejarem a t\u00e3o sonhada liberdade. Enquanto o sonho da carta de alforria estava longe de se realizar, os escravizados usavam a subordina\u00e7\u00e3o, a fuga, a revolta e a rebeli\u00e3o para conquistar a liberdade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dam\u00e1sia era uma escrava, que para conseguir sua liberdade, fugiu de sua senhora na noite do dia 12 para o dia 13 de abril de 1850, acompanhada de seu filho Jo\u00e3o. Tomou os caminhos que levaram para dentro do mato em sentido ao Rio Iap\u00f3, nos Campos Gerais. A sua fuga que durou tr\u00eas dias chegou ao fim quando seu filho sofreu uma picada de cobra que o deixou debilitado. A m\u00e3e, com medo de perder seu filho, tenta retornar o mais r\u00e1pido poss\u00edvel para a casa de sua ex senhora. Ao longo do caminho infelizmente o pequeno Jo\u00e3o n\u00e3o resistiu. Ign\u00e1cia Maria, a senhora, logo convocou as autoridades locais, que declaram Dam\u00e1sia como suspeita de assassinato de seu pr\u00f3prio filho. Em tribunal, durante o julgamento, o Juiz Municipal declarou-a inocente sobre a morte de seu filho por possuir \u201csentimentos de humanidade\u201d, encerrando assim o caso.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Dam\u00e1sia foi uma das tantas escravas que sofreram os males da escravid\u00e3o. Colocada em uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o triste, a pobre m\u00e3e ainda sofreu ao ser acusada de assassina de seu pr\u00f3prio filho. Inocentada por \u201csofrer sentimentos de humanidade\u201d, Dam\u00e1sia \u00e9 colocada em condi\u00e7\u00e3o de animal, condi\u00e7\u00e3o de algo que n\u00e3o \u00e9 ser humano.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os escravos n\u00e3o eram vistos como seres humanos, eram vistos e tratados como animais que \u00e0s vezes por um milagre divino, tinham sentimentos humanos. \u00c9 t\u00e3o triste e repudiante pensar que centenas de milhares de escravos foram tratados desta maneira, onde o \u00fanico desejo era a liberdade, algo que toda pessoa tem direito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0Dam\u00e1sia foi um exemplo do que acontecia aos escravos que tentavam fugir. Tantos outros foram chicoteados, esmurrados, presos em algemas ou at\u00e9 mesmo mortos por simplesmente quererem algo simples e fundamental para a vida humana: a liberdade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BANDEIREIRA, Miriani Cruz Oliveira. <\/span><b>Terra, trabalho e escravo: fortunas escravistas nos Campos Gerais Paranaense (1826-1850). <\/b><span style=\"font-weight: 400\">ANPUH, Encontro Estadual de Hist\u00f3ria, Rio Grande do Sul, 2014.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BANDEIRA, Miriani Cruz Oliveira<\/span><b>. Caminhos e (des)caminhos em busca de liberdade: Dam\u00e1sia e Benedita nos registros judiciais da vila de Castro, na segunda metade do s\u00e9culo XIX.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> ANPUH \u2013 Brasil, 30\u00ba Simp\u00f3sio Nacional de Hist\u00f3ria, Recife, 2019.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Autora:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Maria Fernanda Voinarovicz<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Acad\u00eamica do 3\u00b0 ano do curso de Licenciatura em Hist\u00f3ria, UEPG.<\/span><\/p>\n<p><b>Ano: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">2023<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabe-se muito da escravid\u00e3o no Brasil e pouco sobre ela em nossa regi\u00e3o. Come\u00e7amos ent\u00e3o com uma ideia b\u00e1sica: a escravid\u00e3o existiu nos Campos Gerais e a m\u00e3o de obra escrava foi fundamental para o desenvolvimento econ\u00f4mico da regi\u00e3o. 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