{"id":1301,"date":"2025-10-03T22:11:21","date_gmt":"2025-10-03T22:11:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/?p=1301"},"modified":"2025-10-03T22:11:21","modified_gmt":"2025-10-03T22:11:21","slug":"o-bairro-de-uvaranas-e-suas-caracteristicas-de-pertencimento-da-populacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/o-bairro-de-uvaranas-e-suas-caracteristicas-de-pertencimento-da-populacao\/","title":{"rendered":"O bairro de Uvaranas e suas caracter\u00edsticas de pertencimento da popula\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Situado na cidade de Ponta Grossa, Uvaranas \u00e9 detentor do t\u00edtulo de maior bairro da cidade, compreendendo a regi\u00e3o leste e possuindo subdivis\u00f5es em v\u00e1rias vilas menores. O seguinte trabalho busca apresentar e analisar a no\u00e7\u00e3o de pertencimento e identidade no bairro a partir das duas vertentes definidas por Pierre Mayol em \u201cO Bairro\u201d, sendo elas: a sociologia urbana e a s\u00f3cio-etnografia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A primeira delas diz respeito \u00e0 quest\u00e3o quantitativa e demogr\u00e1fica, representando a an\u00e1lise de espa\u00e7os urbanos, delimita\u00e7\u00f5es e fluxos de pessoas atrav\u00e9s de uma vertente mais focada no material. J\u00e1 a s\u00f3cio-etnografia tem um foco maior nas rela\u00e7\u00f5es de cultura e intera\u00e7\u00e3o social com o ambiente definido, sendo isso, o que traz a vivacidade e pertencimento ao local, pois, por meio da rela\u00e7\u00e3o entre essas duas categorias, gera-se formas de intera\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o com o espa\u00e7o p\u00fablico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Atrav\u00e9s da intera\u00e7\u00e3o desses dois meios de an\u00e1lise, tal qual a rela\u00e7\u00e3o do p\u00fablico e privado do bairro, forma-se a identifica\u00e7\u00e3o e pertencimento da popula\u00e7\u00e3o por aquela determinada regi\u00e3o, onde cada sujeito atua atrav\u00e9s de conveni\u00eancia no agir para formar em sua pequena parte, a forma que esse bairro se apresenta e age como um todo. Nas palavras de Mayol:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cO p\u00fablico e o privado n\u00e3o s\u00e3o remetidos um de costas para o outro, como dois elementos ex\u00f3genos, embora coexistentes; s\u00e3o muito mais, s\u00e3o sempre interdependentes um do outro, porque, no bairro, um n\u00e3o tem nenhuma significa\u00e7\u00e3o sem o outro.\u201d (MAYOL, 1996)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A partir da d\u00e9cada de 1870, a regi\u00e3o foi habitada por russos-alem\u00e3es chamados de Volga, e era conhecida como a \u201cEstrada de Uvaranas\u201d, pois o desenvolvimento urbano local cresceu a partir de uma \u00fanica via que ligava a estrada de contorno da cidade, com a regi\u00e3o central, e\u00a0 hoje permanece atuando como uma liga\u00e7\u00e3o arterial com o centro da cidade, tendo a linha do trem que ainda \u00e9 utilizada como uma esp\u00e9cie de limite.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Assim como todo o munic\u00edpio de Ponta Grossa, Uvaranas carrega a mesma caracter\u00edstica urbana de esconder seus espa\u00e7os perif\u00e9ricos em \u00e1reas mais baixas, enquanto privilegia regi\u00f5es altas. Esse aspecto \u00e9 salientado justamente pela antiga Estrada de Uvaranas &#8211; atual Carlos Cavalcanti &#8211; ser situada em uma regi\u00e3o alta da cidade, concentrando todo o fluxo urbano em si mesma e consequentemente, tornando invis\u00edvel seus arredores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Isso demonstra que aquilo que tr\u00e1s uma integra\u00e7\u00e3o do bairro como uma coisa s\u00f3, \u00e9 justamente a caracter\u00edstica de toda a faixa urbana atuar como uma periferia de uma \u00fanica rua, esta tendo todo o desenvolvimento urbano, como mercados, lojas, padarias, terminal de \u00f4nibus, \u00e1rea militar, e tamb\u00e9m a Universidade Estadual de Ponta Grossa. Sendo assim, ao falar de uma identidade bairrista, ou apropria\u00e7\u00e3o do bairro pelo povo, \u00e9 poss\u00edvel relacionar todo o bairro a essa \u00fanica rua e sua regi\u00e3o de entorno.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Voltemos agora para a quest\u00e3o de demarca\u00e7\u00e3o externa da regi\u00e3o. At\u00e9 que ponto \u00e9 considerado Uvaranas, e quando deixa de ser? Para responder isso, \u00e9 preciso falar do contorno da cidade, que teoricamente serviria como uma estrada de desvio do grande centro urbano, entretanto, foi atrav\u00e9s dessa estrada que diversas vilas tiveram origem, somando-se a ferrovia que acompanha essa rua. Em outras palavras, o bairro tem sua delimita\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do contorno da cidade, iniciando com ele e encerrando-se ao atingir contato com outro bairro da cidade que cresceu em sentido de colis\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Entretanto, devido a uma explos\u00e3o demogr\u00e1fica da cidade na \u00faltima d\u00e9cada, alguns desses preceitos come\u00e7aram a ser postos em jogo, enquanto a Carlos Cavalcanti permanece intacta em sua unifica\u00e7\u00e3o e liga\u00e7\u00e3o arterial, a estrada do contorno perdeu for\u00e7a como delimitadora, pois devido a falta de espa\u00e7o e pouca verticaliza\u00e7\u00e3o no bairro, diversas novas vilas come\u00e7aram a surgir para al\u00e9m da ferrovia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essas fam\u00edlias, podem n\u00e3o ter um grande v\u00ednculo ou afetividade ao bairro justamente pelo car\u00e1ter ef\u00eamero de suas vidas ligado \u00e0 pobreza e a chegada recente, mas devido a isso, tendem, como explicitado por Agier, estender sua liga\u00e7\u00e3o familiar ao meio externo, significando suas pr\u00e1ticas sociais ao meio urbano e moldando a identidade do bairro em um troca m\u00fatua de contatos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A tend\u00eancia a n\u00e3o verticaliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligada especialmente a uma especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria do centro da cidade, esse sim extremamente verticalizado e valorizado economicamente, por\u00e9m, para sua realiza\u00e7\u00e3o, necessita que \u00e1reas perif\u00e9ricas sejam criadas, com baix\u00edssima infraestrutura para que o grande centro urbano seja cada vez mais elitizado e com pre\u00e7os exorbitantes. Essa tend\u00eancia obriga a classe pobre a morar em locais cada vez mais distantes e com \u00e1reas de lazer inexistentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Indo para a rela\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-etnogr\u00e1fica da regi\u00e3o, se torna n\u00edtido que ela est\u00e1 ligada tamb\u00e9m \u00e0s regi\u00f5es pr\u00f3ximas da Carlos Cavalcanti, pois \u00e9 o local com maior circula\u00e7\u00e3o de pessoas e conflu\u00eancia de costumes, h\u00e1bitos e viv\u00eancias. Como maior delimitador de contato de grande parte do bairro, h\u00e1 o Campus da Universidade Estadual de Ponta Grossa, pois atua como um ponto de contato entre diferentes pessoas de diferentes regi\u00f5es do bairro e tamb\u00e9m da cidade, unificando tanto os estudantes e funcion\u00e1rios do local, quanto tamb\u00e9m pessoas que utilizam do espa\u00e7o para lazer e recrea\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de formar em seu entorno, edifica\u00e7\u00f5es destinadas a morada de estudantes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O terminal de \u00f4nibus tamb\u00e9m atua como espa\u00e7o de contato social, pois atrav\u00e9s dele, toda uma rede de diferentes vilas \u00e9 conectada, juntando diferentes sujeitos de diferentes lugares e com diferentes formas de conveni\u00eancia ao cotidiano, em um s\u00f3 ponto, ressaltando a quest\u00e3o da familiariza\u00e7\u00e3o com espa\u00e7os mais ligados ao popular e n\u00e3o \u00e0s classes altas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Vale ressaltar que a unifica\u00e7\u00e3o do bairro por um local espec\u00edfico n\u00e3o significa que n\u00e3o haja espa\u00e7os de conviv\u00eancia e integra\u00e7\u00e3o em cada uma das vilas menores, mas sim, que s\u00e3o espa\u00e7os ligados a regi\u00f5es menores que o bairro de uvaranas em sua totalidade, mas que representam delimita\u00e7\u00f5es e fixidez desses locais. Esses espa\u00e7os s\u00e3o ainda mais carregados do car\u00e1ter familiar justamente por serem mais perif\u00e9ricos, e consequentemente, dotados de sentidos, identidades, e familiariza\u00e7\u00e3o de diferentes sujeitos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">H\u00e1 tamb\u00e9m a quest\u00e3o memorial\u00edstica presente na regi\u00e3o, pois atrav\u00e9s de lembran\u00e7as e viv\u00eancias anteriores nos espa\u00e7os, a sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento na vila e consequentemente no bairro em geral \u00e9 criada, n\u00e3o importa se voc\u00ea alterou de vila durante sua vida, mas a perman\u00eancia no mesmo bairro j\u00e1 manteria minimamente o sentimento de estar no mesmo local.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com isso, conclui-se que o bairro de Uvaranas carrega consigo uma identidade e sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento social muito atrelada ao seu local de origem, a avenida Carlos Cavalcanti, pois foi atrav\u00e9s dela que toda a regi\u00e3o se urbanizou, e permanece ligada como ponto central, mesmo com espa\u00e7os de conviv\u00eancias em menor escala, esse local atua como n\u00e3o s\u00f3 uma unifica\u00e7\u00e3o do bairro mas tamb\u00e9m a porta de contato com o grande centro da cidade, sendo ele, o mais espa\u00e7o de conv\u00edvio social atrav\u00e9s de locais como a Universidade Estadual de Ponta Grossa e o Terminal de \u00d4nibus estarem localizados l\u00e1.<\/span><\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias:<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">MAYOL, Pierre. O bairro. In: CERTEAU, Michel de; GIARD, Luce; MAYOL, Pierre. <\/span><b><i>A inven\u00e7\u00e3o do cotidiano:<\/i><\/b><i><span style=\"font-weight: 400\"> 2. Morar, cozinhar<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Tradu\u00e7\u00e3o de Ephraim Ferreira Alves. Petr\u00f3polis: Vozes, 1996. p. 31-76.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">SOUSA, Waldece Wagner A. Uvaranas, bairro de Ponta Grossa. In: <\/span><b>DICION\u00c1RIO HIST\u00d3RICO DOS CAMPOS GERAIS.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Universidade Estadual de Ponta Grossa \u2013 UEPG, 14 nov. 2018. Dispon\u00edvel em:<\/span><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/uvaranas-bairro-de-ponta-grossa\/\"> <span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/uvaranas-bairro-de-ponta-grossa\/<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. Acesso em: 17 abr. 2025.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">AGIER, Michel. O que torna a cidade familiar. In: AGIER, Michel. <\/span><b><i>Antropologia da cidade: lugares, situa\u00e7\u00f5es, movimentos<\/i><\/b><b>.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Tradu\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7a \u00cdndias Cordeiro. S\u00e3o Paulo: Terceiro Nome, 2011. p. 103\u2013116.<\/span><\/p>\n<p><strong>Autor:\u00a0<\/strong>Jo\u00e3o Victor Maciel de Souza<\/p>\n<p>Acad\u00eamico do 3\u00ba ano do curso de Licenciatura em Hist\u00f3ria da UEPG<\/p>\n<p><strong>Ano:\u00a0<\/strong>2025<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Situado na cidade de Ponta Grossa, Uvaranas \u00e9 detentor do t\u00edtulo de maior bairro da cidade, compreendendo a regi\u00e3o leste e possuindo subdivis\u00f5es em v\u00e1rias vilas menores. 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