{"id":675,"date":"2019-07-28T21:08:59","date_gmt":"2019-07-28T21:08:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/?p=675"},"modified":"2021-05-17T20:07:33","modified_gmt":"2021-05-17T20:07:33","slug":"cerveja-na-cidade-de-ponta-grossa-o-saber-fazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/cerveja-na-cidade-de-ponta-grossa-o-saber-fazer\/","title":{"rendered":"Cerveja na cidade de Ponta Grossa, o saber-fazer"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00a0<\/strong>Desde a d\u00e9cada de 1870 Ponta Grossa come\u00e7ou a receber grandes levas de imigrantes europeus, principalmente poloneses, austr\u00edacos, alem\u00e3es e italianos que se estabeleceram na cidade e em col\u00f4nias rurais criadas para receb\u00ea-los ou nas j\u00e1 existentes (GON\u00c7ALVES; PINTO, 1983). A inten\u00e7\u00e3o governamental (desde o imperial at\u00e9 o municipal) para a fixa\u00e7\u00e3o desses imigrantes era que estes se dedicassem \u00e0s lidas da atividade agr\u00edcola, visto a constante falta de alimentos na regi\u00e3o. No entanto, muitos abandonaram a agricultura fixando-se no espa\u00e7o urbano e realizando atividades econ\u00f4micas j\u00e1 praticadas em sua p\u00e1tria-m\u00e3e. Gon\u00e7alves e Pinto (1983) analisaram a distribui\u00e7\u00e3o dos imigrantes em Ponta Grossa entre 1889 e 1920, por ocupa\u00e7\u00f5es produtivas conforme a nacionalidade, \u00a0e apontaram a ocorr\u00eancia de trinta e quatro atividades econ\u00f4micas praticadas por eles, al\u00e9m da agricultura. As historiadoras demonstraram tanto a diversidade \u00e9tnica quanto a profissional daquele momento.<\/p>\n<p>Dentre os estabelecimentos abertos por imigrantes europeus na cidade encontram-se as f\u00e1bricas de cerveja. A primeira delas a ter o seu alvar\u00e1 de licen\u00e7a fornecido pela Prefeitura Municipal de Ponta Grossa foi a do imigrante italiano Francisco Gioppo, em abril de 1903 (PREFEITURA, 1904). Provavelmente este estabelecimento n\u00e3o foi o primeiro na cidade a produzir cerveja comercialmente, pois segundo Ferreira (1936) a primeira f\u00e1brica foi fundada em 1882 por Frederico Lorgues, no entanto, o empreendimento n\u00e3o teve uma vida longa. Ferreira tamb\u00e9m menciona a abertura na cidade de outras duas f\u00e1bricas de cervejas e gasosas, uma administrada por Guilherme Metzenthim (Cervejaria Oceana) e outra por Carlos Schethler. Ainda para o s\u00e9culo XIX encontram-se registros da exist\u00eancia da F\u00e1brica Grossel, originalmente de Curitiba e que em 1894 abriu uma filial em Ponta Grossa (COMPANHIA, 1934).<\/p>\n<p>Apesar da exist\u00eancia dessas f\u00e1bricas mais antigas a Cervejaria Francisco Gioppo &amp; Cia. foi a primeira a conseguir seu registro de alvar\u00e1 perante os \u00f3rg\u00e3os municipais. Tal situa\u00e7\u00e3o nos leva a ponderar que o ato de produzir cerveja em Ponta Grossa n\u00e3o teve in\u00edcio somente a partir da abertura dessas empresas e do recolhimento de seus impostos, mas iniciou no espa\u00e7o dom\u00e9stico, em lares de imigrantes europeus, para posteriormente se tornar uma atividade rent\u00e1vel voltada a um p\u00fablico maior. Por esse motivo \u00e9 poss\u00edvel afirmar que o saber-fazer cerveja \u00e9 um bem patrimonial que se constituiu em Ponta Grossa a partir da chegada de imigrantes europeus no final do s\u00e9culo XIX, vindo a se tornar um elemento componente da identidade ponta-grossense, assim como integrante de seu desenvolvimento econ\u00f4mico e cultural.<\/p>\n<p>De acordo com Sant\u2019Anna \u201ca perman\u00eancia no tempo das express\u00f5es materiais dessas tradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 o aspecto mais importante, e sim o conhecimento necess\u00e1rio para reproduzi-las\u201d (2003, p. 49). Sendo assim, o conhecimento para se produzir cerveja pode ser reconhecido como um patrim\u00f4nio cultural, isto \u00e9, o\u00a0<em>saber-fazer<\/em>, que \u00e9 um dos elementos estruturantes de todo patrim\u00f4nio imaterial. Esse saber-fazer algo n\u00e3o se mant\u00e9m congelado no tempo, pois todo patrim\u00f4nio passa por modifica\u00e7\u00f5es para conseguir se manter vivo (em uso, praticado). Pode-se perguntar: a cerveja feita em casa pelos imigrantes estabelecidos em Ponta Grossa desde o final do s\u00e9culo XIX era a mesma que aquela feita nas diferentes f\u00e1bricas desse mesmo per\u00edodo? Provavelmente n\u00e3o. Mas o saber-fazer dessa bebida em especial \u00e9 que pode ser classificado como um bem patrimonial para muitos ponta-grossenses. Representava n\u00e3o apenas a confec\u00e7\u00e3o de uma bebida, mas a manuten\u00e7\u00e3o de elementos culturais trazidos de sua p\u00e1tria-m\u00e3e, assim como rela\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que esse ato se concretizasse. Nesse aspecto \u00e9 interessante ressaltar que a quest\u00e3o econ\u00f4mica do fabricar cerveja \u00e9 apenas um dos lados desse prisma cultural.<\/p>\n<p>Pesquisando nos Livros de Registro de Alvar\u00e1s e nos Livros de Registro de Imposto sobre Neg\u00f3cios e Profiss\u00f5es da Prefeitura de Ponta Grossa, no per\u00edodo entre 1899 a 1948 (esse intervalo de tempo corresponde aos livros da Prefeitura Municipal de Ponta Grossa dispon\u00edveis para pesquisa no acervo da Casa da Mem\u00f3ria Paran\u00e1), constatou-se uma consider\u00e1vel exist\u00eancia de f\u00e1bricas de cerveja, algumas com uma vida comercial de mais de quinze anos e outras com vida ef\u00eamera. Entre estes estabelecimentos comerciais que produziram cerveja na cidade encontram-se as f\u00e1bricas de Guilherme Metzenthin (Cervejaria Oceana, 1901-1917), Carlos Schetter (1901-1906), Francisco Gioppo &amp; Cia. (1903), Oscar Baher (1907-1913), Paulo Canto (1908-1910), Bernardo Lampe (1910-1915), Jo\u00e3o Baptista Baglioli (1911-1915), Mathias &amp; Cia. (1911), Jo\u00e3o Orlikawski (1914), Vi\u00fava Schetler (1914) e Jacob Ditzel (1927). Entre 1901 (primeiro livro de cobran\u00e7a de imposto) e 1927 consta a exist\u00eancia de doze fabricantes de cerveja distintos, sendo quatro estabelecidos no Largo S\u00e3o Jo\u00e3o, posteriormente pra\u00e7a Bar\u00e3o de Guara\u00fana em diferentes momentos desse mesmo recorte temporal.<\/p>\n<p>Um dos fabricantes de cerveja que se destacou na cidade foi Henrique Thielen, que fundou em 1906 a F\u00e1brica Adri\u00e1tica de Cervejas a partir da filial da Cervejaria Grossel, f\u00e1brica que ele mesmo trouxe para Ponta Grossa em 1894. Ainda analisando os livros da Prefeitura Municipal constatou-se que a partir de 1927 somente a Adri\u00e1tica aparece como f\u00e1brica de cerveja atuando na cidade. Isso significa que se parou de fazer cerveja em casa mantendo-se apenas a atividade fabril com fun\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica? Com certeza n\u00e3o.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o desse verbete n\u00e3o \u00e9 analisar as grandes cervejarias que existiram e existem em Ponta Grossa, mas pensar o saber-fazer cerveja trazido por imigrantes de diferentes nacionalidades que se estabeleceram na cidade. Esse saber-fazer tornou-se um elemento do desenvolvimento local, n\u00e3o apenas pela perspectiva econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m por uma perspectiva sociocultural. Por isso pode ser considerado como um patrim\u00f4nio cultural local.<\/p>\n<p><strong>FONTES<\/strong><\/p>\n<p>COMPANHIA Cervejaria Adri\u00e1tica. Lembran\u00e7as do seu 40\u00ba anivers\u00e1rio. Ponta Grossa, 1934. Acervo Casa da Mem\u00f3ria Paran\u00e1.<\/p>\n<p>PREFEITURA Municipal de Ponta Grossa. Registro de Alvar\u00e1s de Licen\u00e7a. Livro n\u00ba 1, setembro de 1899 a janeiro de 1904. Acervo Casa da Mem\u00f3ria Paran\u00e1.<\/p>\n<p>PREFEITURA Municipal de Ponta Grossa. Registro de Alvar\u00e1s de Licen\u00e7a. Livro n\u00ba 2, janeiro de 1904 a agosto de 1908. Acervo Casa da Mem\u00f3ria Paran\u00e1.<\/p>\n<p>PREFEITURA Municipal de Ponta Grossa. Registro de Alvar\u00e1s de Licen\u00e7a e Outros. Livro n\u00ba 3, setembro de 1908 a outubro de 1911. Acervo Casa da Mem\u00f3ria Paran\u00e1.<\/p>\n<p>PREFEITURA Municipal de Ponta Grossa. Registro de Alvar\u00e1s de Licen\u00e7a. Livro n\u00ba 4, agosto de 1911 a setembro de 1914. Acervo Casa da Mem\u00f3ria Paran\u00e1.<\/p>\n<p>PREFEITURA Municipal de Ponta Grossa. Livro de Registro de Impostosobre Neg\u00f3cios e Profiss\u00f5es, anos de 1901, 1905, 1906, 1908, 1909, 1910, 1913, 1914, 1915, 1917, 1927, 1929, 1935, 1940, 1942, 1945, 1946 e 1948. Acervo Casa da Mem\u00f3ria Paran\u00e1.<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>FERREIRA, Manoel Cyrillo. <em>Miscel\u00e2neas da hist\u00f3ria de Ponta Grossa.<\/em>Ponta Grossa: s. ed., 1936, 67 p.<\/p>\n<p>GON\u00c7ALVES, Maria Aparecida C; PINTO, Elisabete A. <em>Ponta Grossa \u2013 um s\u00e9culo de vida (1823-1923).<\/em>1 ed. Ponta Grossa: Kugler Artes Gr\u00e1ficas Ltda, 1983, 132 p.<\/p>\n<p>SANT\u2019ANNA, M\u00e1rcia. A face imaterial do patrim\u00f4nio cultural: os novos instrumentos de reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o. In: ABREU, Regina; CHAGAS, M\u00e1rio (orgs.). <em>Mem\u00f3ria e patrim\u00f4nio: ensaios contempor\u00e2neos<\/em>. 1 ed. Rio de Janeiro: DP&amp;A, 2003, 320 p.<\/p>\n<p><strong>Autora:\u00a0<\/strong>Elizabeth Johansen<\/p>\n<p>Professora Adjunta do Departamento de Hist\u00f3ria UEPG<\/p>\n<p><strong>Ano<\/strong>: 2019<\/p>\n<p><strong>Revis\u00e3o<\/strong>: 2020<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Desde a d\u00e9cada de 1870 Ponta Grossa come\u00e7ou a receber grandes levas de imigrantes europeus, principalmente poloneses, austr\u00edacos, alem\u00e3es e italianos que se estabeleceram na cidade e em col\u00f4nias rurais criadas para receb\u00ea-los ou nas j\u00e1 existentes (GON\u00c7ALVES; PINTO, 1983). 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