{"id":758,"date":"2019-08-11T02:52:21","date_gmt":"2019-08-11T02:52:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/?p=758"},"modified":"2021-05-17T20:08:17","modified_gmt":"2021-05-17T20:08:17","slug":"escravos-dos-campos-gerais-na-primeira-metade-do-seculo-xix-a-presenca-e-a-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/escravos-dos-campos-gerais-na-primeira-metade-do-seculo-xix-a-presenca-e-a-resistencia\/","title":{"rendered":"Escravos dos Campos Gerais na primeira metade do s\u00e9culo XIX, a presen\u00e7a e a resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>A historiografia tem demostrado que a presen\u00e7a e a atua\u00e7\u00e3o dos escravos foi significativa no processo de ocupa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias partes do Sul do Brasil. No in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII \u201ca instala\u00e7\u00e3o de terras de invernada nos Campos Gerais foi levada adiante por propriet\u00e1rios quase sempre absente\u00edstas, em geral comerciantes paulistas que delegavam a prepostos ou a escravos a responsabilidade pela administra\u00e7\u00e3o das propriedades\u201d (MACHADO, 2008, p.27-28). Sabe-se que nos primeiros anos dos oitocentos, \u201co escravo era m\u00e3o-de-obra fundamental nas grandes fazendas, e os propriet\u00e1rios dos Campos Gerais eram geralmente senhores de escravarias maiores do que os das terras curitibanas\u201d (MACHADO, 2008, p.30).<\/p>\n<p>De fato, nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX a regi\u00e3o abrigava um contingente significativo de escravos. Em 1816 era o territ\u00f3rio do Paran\u00e1 com maior percentual de cativos. Enquanto\u00a0o litoral e o planalto curitibano apresentavam \u00edndices de 18,5% e 12,4% da popula\u00e7\u00e3o cativa, respectivamente, nos Campos Gerais o \u00edndice somava mais de 20% (WESTPHALEN, 1997, p.35). \u00a0Tal propor\u00e7\u00e3o manteve-se durante toda primeira metade daquele s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o, a popula\u00e7\u00e3o escrava constitu\u00eda-se majoritariamente de crioulos (escravos nascidos no Brasil). Havia equil\u00edbrio entre os sexos e um grande n\u00famero de crian\u00e7as (PORTELA, 2007, p.2). Predominavam os pequenos planteis: \u201cpouco mais de 60% dos escravistas congregavam em suas posses quatro ou menos cativos\u201d (MELO, 2004, p. 20).<\/p>\n<p>Os escravos dos Campos Gerais atuavam em diversos servi\u00e7os, como o dom\u00e9stico, a agricultura, a pecu\u00e1ria e outras atividades especializadas. Em 1844, por exemplo, quando faleceu Jo\u00e3o Carneiro Lobo, seus escravos foram descritos no invent\u00e1rio e, para alguns deles, foram anotadas as ocupa\u00e7\u00f5es: o cativo Sim\u00e3o desempenhava of\u00edcio de roceiro; Manoel era campeiro e Jo\u00e3o era campeiro e domador. Em outro documento, de 1828, foi anotado que na propriedade de Delfina Carneiro vivia como roceiro e alfaiate o &#8220;mulato&#8221; Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>A labuta no campo e o cotidiano do cativeiro n\u00e3o impediram os escravos de alimentarem seus sonhos de liberdade. Para isso teceram rela\u00e7\u00f5es sociais e criaram estrat\u00e9gias para que em algum momento tais desejos se transformassem em realidade. Em determinados momentos, quando a alforria parecia distante, alguns partiam para a insubordina\u00e7\u00e3o, para a rebeli\u00e3o ou fugiam dos dom\u00ednios senhoriais. Quando o documento para obten\u00e7\u00e3o da manumiss\u00e3o parecia distante, os escravos forjavam sua liberdade por meio das fugas.<\/p>\n<p>Este foi o caso de Dam\u00e1sia que, na tentativa de livrar-se dos dom\u00ednios de sua senhora, Ignacia Maria, lan\u00e7ou-se \u00e0 fuga na noite do dia 12 para o dia 13 de abril de 1850. Na ocasi\u00e3o a cativa estava com aproximadamente 20 anos e possu\u00eda pelo menos um filho, o pequeno Jo\u00e3o, que acompanhou a m\u00e3e naquela noite. Quando a escrava deixou a casa de sua senhora, conforme registro dos autos do seu interrogat\u00f3rio\u00a0\u201ctomou os caminhos dos matos na dire\u00e7\u00e3o por onde seguia o rio Iap\u00f3 e emaranhou-se mata adentro e por l\u00e1 ficou com o filho Jo\u00e3o\u201d. Talvez ela buscasse alcan\u00e7ar os caminhos que levassem seu rebento para algum quilombo, tendo em vista as not\u00edcias que circulavam a respeito da exist\u00eancia desses agrupamentos naquela regi\u00e3o, sobretudo na dire\u00e7\u00e3o do Assungui. \u00a0No entanto, sobreviver como escrava fugitiva numa sociedade escravista, naquela \u00e9poca, n\u00e3o era f\u00e1cil e a possibilidade de captura era grande.<\/p>\n<p>A fuga de Dam\u00e1sia durou apenas tr\u00eas dias. Quando o sonho de sua liberdade parecia selado, j\u00e1 distante da casa de sua \u2018ex\u2019-senhora, o seu filho foi picado por uma cobra, o que modificou totalmente os planos da fuga. Era 16 de abril quando Dam\u00e1sia retornou \u00e0 casa de sua senhora. Esta n\u00e3o hesitou em informar \u00e0s autoridades locais sobre o retorno da cativa, considerada \u201cfujona\u201d. Al\u00e9m disso, Ignacia Maria exigiu que a escrava, perante os membros da Justi\u00e7a, esclarecesse a morte da crian\u00e7a. Corriam suspeitas de que a cativa tivesse assassinado o pr\u00f3prio filho.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s seis meses da morte do menino, Dam\u00e1sia foi convocada ao interrogat\u00f3rio judicial, em 16 de outubro do ano de 1850. Nessa data o Juiz Municipal Antonio Nunes Correa declarou que a escrava n\u00e3o era a autora da morte da crian\u00e7a, pois a mesma \u201csofria de sentimentos de humanidade\u201d. Para a Justi\u00e7a encerrava-se o caso da morte do pequeno Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>A vida de Dam\u00e1sia, somada a de tantos outros escravos do seu tempo, \u00e9 especialmente instrutiva aos historiadores. Ela nos sugere pensar contextos mais amplos, sobretudo os contextos das experi\u00eancias de resist\u00eancia dos cativos. No caso espec\u00edfico, na regi\u00e3o dos Campos Gerais, fica evidente a vontade de uma escrava em demonstrar seu descontentamento com o dom\u00ednio senhorial, colocando tal prop\u00f3sito em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da conquista da liberdade na regi\u00e3o \u00e9 p\u00e1gina a ser escrita. Nela, o protagonismo dos cativos que demonstraram suas determina\u00e7\u00f5es de emancipa\u00e7\u00e3o, de in\u00fameras formas, sendo a fuga uma das mais corriqueiras, certamente ter\u00e1 papel de destaque.<\/p>\n<p><strong>FONTES<\/strong><\/p>\n<p>Autos do Interrogat\u00f3rio da escrava Dam\u00e1sia. 1850. Casa da Cultura Em\u00edlia Erichsen. Castro (PR). Fuga escrava.<\/p>\n<p>Invent\u00e1rio de Jo\u00e3o Carneiro Lobo (1844). Museu do Tropeiro. Castro (PR)<\/p>\n<p>Invent\u00e1rio de Delfina Carneiro (1828). Museu do Tropeiro. Castro (PR).<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>MACHADO, Cacilda<strong>. <\/strong><em>A trama das vontades<\/em>: negros, pardos e brancos na produ\u00e7\u00e3o da hierarquia social do Brasil escravista. Rio de Janeiro: Apicuri, 2008.<\/p>\n<p>MELO, K\u00e1tia Andr\u00e9ia Vieira de. <em>Comportamentos e pr\u00e1ticas familiares nos domic\u00edlios escravistas de Castro (1824-1835) segundo as listas nominativas de habitantes. <\/em>Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Hist\u00f3ria). Universidade Federal do Paran\u00e1 &#8211; UFPR. Curitiba, 2004.<\/p>\n<p>WESTPHALEN, Cec\u00edlia Maria. Afinal, existiu ou n\u00e3o regime escravo no Paran\u00e1? In: <em>Revista da SBPH<\/em>, n\u00ba 13: 25-63, 1997.<\/p>\n<p><strong>Autora<\/strong>: \u00a0Mariani Bandeira Cruz Oliveira<\/p>\n<p>Bacharel em Hist\u00f3ria UEPG, 2010; Doutoranda em Hist\u00f3ria (UFRGS)<\/p>\n<p><strong>Ano<\/strong>: 2019<\/p>\n<p><strong>Revis\u00e3o<\/strong>: 2020<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A historiografia tem demostrado que a presen\u00e7a e a atua\u00e7\u00e3o dos escravos foi significativa no processo de ocupa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias partes do Sul do Brasil. 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