{"id":842,"date":"2019-08-28T23:53:46","date_gmt":"2019-08-28T23:53:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/?p=842"},"modified":"2021-05-17T20:08:55","modified_gmt":"2021-05-17T20:08:55","slug":"gripe-espanhola-em-ponta-grossa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/gripe-espanhola-em-ponta-grossa\/","title":{"rendered":"Gripe Espanhola em Ponta Grossa"},"content":{"rendered":"<p>A \u00a0gripe espanhola que se espalhou pelo mundo no ano de 1918 foi uma doen\u00e7a de alt\u00edssima letalidade. De acordo com Nara Brito (1997, p. 12) &#8220;os dados epidemiol\u00f3gicos dispon\u00edveis fixam n\u00fameros impressionantes: em sua trajet\u00f3ria intempestiva, infectou mais de seiscentos milh\u00f5es e vitimou aproximadamente vinte milh\u00f5es de pessoas&#8221;.<\/p>\n<p>A i<em>nfluenza <\/em>foi\u00a0 tamb\u00e9m apelidada \u2018<em>La Dansarina<\/em>\u2019 e &#8220;n<span style=\"font-size: 1rem\">ingu\u00e9m poderia suspeitar que sob nome t\u00e3o atraente se ocultava t\u00e3o grande trag\u00e9dia&#8221;\u00a0<\/span>(BRITO, 1997, p. 17).<\/p>\n<p>A doen\u00e7a se caracterizava como aguda e de evolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. Segundo Cl\u00e1udio Bertolli Filho, a gripe produzia &#8220;calafrios, sensa\u00e7\u00e3o de frio, febre, dores de cabe\u00e7a, prostra\u00e7\u00e3o intensa e dores musculares, principalmente nas costas, ombros e pernas&#8221;, sendo que \u00a0&#8220;a temperatura do enfermo [poderia] chegar at\u00e9 a 40\u00ba cent\u00edgrados e persistir alta de um a seis dias&#8221;. Al\u00e9m disso, eram &#8220;notadas altera\u00e7\u00f5es no aparelho respirat\u00f3rio, tais como dores de garganta, catarro nasal e tosse&#8230;&#8221;\u00a0(BERTOLLI FILHO, 1986, p. 88).<\/p>\n<p>No Brasil, apesar de ter sido registrada num per\u00edodo de curta dura\u00e7\u00e3o (de setembro a dezembro de 1918), teve amplitude para atingir diversos estados e munic\u00edpios . Em Ponta Grossa, as primeiras not\u00edcias sobre a enfermidade foram publicadas pelo jornal Di\u00e1rio dos Campos, na edi\u00e7\u00e3o de 19 de outubro. O peri\u00f3dico pedia aos mun\u00edcipes a preven\u00e7\u00e3o contra a doen\u00e7a, deixando-os em estado de alerta sobre o fen\u00f4meno que estava \u201cmatando\u201d em todo o pa\u00eds\u00a0(DI\u00c1RIO DOS CAMPOS, 1918, p.3). Dias depois, o discurso das notas do impresso j\u00e1 se encaminhava para os cuidados e as precau\u00e7\u00f5es que deveriam ser seguidos pela popula\u00e7\u00e3o, com intuito de impedir a ampla contamina\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi atrav\u00e9s da ferrovia que a doen\u00e7a chegou \u00e0 cidade. Os vag\u00f5es que transportavam alimentos e mercadorias espalharam o v\u00edrus da espanhola, visto que era dif\u00edcil desinfet\u00e1-los antes de seguirem viagem; ademais, o grande fluxo de pessoas que utilizavam esse meio de transporte transformava o trem em eficaz foco de dissemina\u00e7\u00e3o a partir de indiv\u00edduos j\u00e1 com o v\u00edrus.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o da confirma\u00e7\u00e3o dos primeiros infectados em Ponta Grossa, as ruas da cidade foram ficando mais vazias, desertas, e as reuni\u00f5es e encontros sociais cada vez mais escassos, chegando ao ponto de o Doutor Paula Braga, delegado de higiene do munic\u00edpio, determinar o fechamento de escolas e das casas de divers\u00e3o como o teatro e o cinema. Era necess\u00e1rio prevenir aglomera\u00e7\u00f5es. Nas ruas o sil\u00eancio imperou e a cidade ficou praticamente paralisada por mais de m\u00eas. At\u00e9 os jornalistas que noticiavam sobre a doen\u00e7a n\u00e3o ficaram imunes ao ataque epid\u00eamico, e o peri\u00f3dico Di\u00e1rio dos Campos chegou a interromper sua publica\u00e7\u00e3o por duas semanas em novembro, retornando a circular somente no dia 29, pois alguns de seus funcion\u00e1rios tiveram a vida ceifada pela espanhola (DI\u00c1RIO DOS CAMPOS, 29\/11\/1918, p.2).<\/p>\n<p>Naquele contexto da epidemia, a Prefeitura Municipal providenciou um m\u00e9dico para examinar os moradores com sintomas, bem como auxiliou na compra de medicamentos aos mais carentes, al\u00e9m de ter instalado junto ao hospital da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia uma ala provis\u00f3ria de atendimento. Ainda: determinou que, caso houvesse necessidade, at\u00e9 a Hospedaria dos Imigrantes seria utilizada como local de aux\u00edlio aos infectados.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, a automedica\u00e7\u00e3o era ampla. Al\u00e9m dos rem\u00e9dios prescritos pela medicina oficial e pelo saber popular, os jornais estampavam propagandas que proclamavam virtudes terap\u00eauticas ou preventivas dos mais variados produtos no combate da enfermidade. Os ingredientes que estavam presentes em quase todas as receitas publicadas eram o lim\u00e3o e o ac\u00f4nito.<\/p>\n<p>Ao se olhar para o cotidiano de Ponta Grossa durante a gripe espanhola de 1918 evidencia-se a fragilidade da vida humana naquele momento: nem a medicina, nem a farm\u00e1cia deram conta de minimizar com efic\u00e1cia as agress\u00f5es da epidemia. Al\u00e9m disso, parentes e amigos pr\u00f3ximos se afastaram uns dos outros, mudando a sociabilidade familiar e da cidade. Mas isso n\u00e3o ocorreu somente em Ponta Grossa. A espanhola foi registrada em v\u00e1rias concentra\u00e7\u00f5es urbanas do Brasil e tamb\u00e9m em cidades populosas de todos os continentes. Por isso a gripe foi considerada uma pandemia.<\/p>\n<p>Uma investiga\u00e7\u00e3o profunda sobre o impacto da passagem da espanhola\u00a0na regi\u00e3o dos Campos Gerais, que estime com propriedade a quantidade de adoecidos e mortos pela enfermidade, ainda aguarda o seu historiador.<\/p>\n<p><strong>FONTES<\/strong>:<\/p>\n<p>DI\u00c1RIO DOS CAMPOS. 1918.<\/p>\n<p>Atos e Decretos do Prefeito Municipal de 1913 a 1924, Livro 18, p.23. Arquivo da C\u00e2mara Municipal de Ponta Grossa.<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong>:<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 23\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>BERTOLLI FILHO, Cl\u00e1udio. <em>Epidemia e Sociedade<\/em>: a gripe espanhola no munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Hist\u00f3ria Social) \u2013 Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas, Universidade de S\u00e3o Paulo, \u00a01986.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>BRITO, Nara Azevedo de. La dansarina: a gripe espanhola e o cotidiano na cidade do Rio de Janeiro. <em>Hist\u00f3ria, Ci\u00eancias, Sa\u00fade-Manguinhos<\/em>, v. 1, p. 11-30, mar-jun 1997.<\/p>\n<p><strong>Autora<\/strong>: Maura Regina Petruski<\/p>\n<p>Professora Associada do Departamento de Hist\u00f3ria da UEPG.<\/p>\n<p><strong>Ano<\/strong>: 2019<\/p>\n<p><strong>Revis\u00e3o<\/strong>: 2020<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00a0gripe espanhola que se espalhou pelo mundo no ano de 1918 foi uma doen\u00e7a de alt\u00edssima letalidade. De acordo com Nara Brito (1997, p. 12) &#8220;os dados epidemiol\u00f3gicos dispon\u00edveis fixam n\u00fameros impressionantes: em sua trajet\u00f3ria intempestiva, infectou mais de seiscentos milh\u00f5es e vitimou aproximadamente vinte milh\u00f5es de pessoas&#8221;. 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