{"id":969,"date":"2021-02-27T16:41:08","date_gmt":"2021-02-27T16:41:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/?p=969"},"modified":"2021-03-11T20:23:54","modified_gmt":"2021-03-11T20:23:54","slug":"absenteismo-do-proprietario-e-administracao-do-capataz-o-caso-da-fazenda-caxambu-no-relato-de-saint-hilaire","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/absenteismo-do-proprietario-e-administracao-do-capataz-o-caso-da-fazenda-caxambu-no-relato-de-saint-hilaire\/","title":{"rendered":"Absente\u00edsmo do fazendeiro e administra\u00e7\u00e3o do capataz: o caso da Fazenda Caxambu no relato de Saint-Hilaire"},"content":{"rendered":"<p>Em publica\u00e7\u00e3o refer\u00eancia para compreens\u00e3o do sistema escravista brasileiro, o soci\u00f3logo Cl\u00f3vis Moura registra em seu <em>Dicion\u00e1rio da escravid\u00e3o negra no Brasil (2004) <\/em>a seguinte defini\u00e7\u00e3o de feitor<em>:<\/em><\/p>\n<p><em>Na hierarquia rural, indiv\u00edduo que dirigia as fazendas, fiscalizando os servi\u00e7os e, sobretudo, mantendo a disciplina da escravaria. No in\u00edcio, era quase sempre um portugu\u00eas, mas com o tempo a profiss\u00e3o passou a ser exercida especialmente por mulatos. Tinha autoriza\u00e7\u00e3o do senhor de aplicar castigos nos faltosos, no que exagerava quase sempre, chegando muitos deles a requintes de selvageria <\/em>(MOURA, 2004, p. 159).<\/p>\n<p>Levando-se em considera\u00e7\u00e3o o pontuado pelo soci\u00f3logo \u2013 \u00a0e sabendo-se que muitas das fazendas estabelecidas a partir do s\u00e9culo XVIII na regi\u00e3o dos Campos Gerais tiveram como propriet\u00e1rios membros da nobiliarquia paulista que realizavam neg\u00f3cios em outras paragens do pa\u00eds \u2013, perguntamo-nos se a aus\u00eancia dos senhores e a presen\u00e7a de feitores\/capatazes tamb\u00e9m ocorria nesta parte do Brasil.<\/p>\n<p>O naturalista Auguste de Saint-Hilaire nos fornece uma resposta. Ele passou nos Campos Gerais em 1820, presenciou e relatou a exist\u00eancia de feitores em fazendas da regi\u00e3o. Uma das que ele destacou foi a Invernada do Caxambu, localizada algumas l\u00e9guas de Jaguaria\u00edba (atual munic\u00edpio de Jaguaria\u00edva).<\/p>\n<p>Registrada como uma grande propriedade no escrito do bot\u00e2nico franc\u00eas \u2013 detentora de in\u00fameras \u00e1rvores frut\u00edferas, de sistema de irriga\u00e7\u00e3o com \u201cr\u00fasticos aquedutos muito em uso entre os mineiros\u201d (SAINT-HILAIRE, 1995, p. 51), de pomares carregados e de animais bem tratados \u2013, a Fazenda do Caxambu ou Invernada do Caxambu, encontrava-se sem a presen\u00e7a do seu propriet\u00e1rio quando Saint-Hilaire ali chegou. Para que pudesse hospedar-se num dos \u201cchal\u00e9s\u201d do lugar e realizar seus estudos bot\u00e2nicos, o estudioso foi primeiramente recepcionado por \u201cmulheres que cuidavam da casa\u201d (IDEM, p. 53).<\/p>\n<p>Os pedidos feitos pelo bot\u00e2nico quando de sua estadia na fazenda foram atendidos pelo capataz, dada a aus\u00eancia do propriet\u00e1rio. Se Saint-Hilaire n\u00e3o utilizou o termo \u2018feitor\u2019, vale registrar que ambos os termos, capataz ou feitor, referiam-se aos encarregados do controle cotidiano da fazenda, o que inclu\u00eda a vigil\u00e2ncia das tarefas ali desenvolvidas e, em determinados casos, do castigo dos seus trabalhadores. Assim relatou Saint-Hilaire a respeito do encarregado da Fazenda Caxambu:<\/p>\n<p><em>Passei cinco dias em Caxambu, retido pelas chuvas cont\u00ednuas. Durante esse tempo fui tratado de maneira espl\u00eandida; desde Sorocaba eu n\u00e3o havia encontrado em nenhum outro lugar um passadio t\u00e3o bom. Era servido pelo capataz ou chefe das tropas, que na aus\u00eancia do dono administrava a fazenda, e que no entanto n\u00e3o passava de um escravo<\/em> (SAINT-HILAIRE, 1995, p.53-54).<\/p>\n<p>O historiador Horacio Guti\u00e9rrez, em seu artigo <em>Demografia das fazendas de gado no Paran\u00e1<\/em> (1999), tamb\u00e9m destacou a quest\u00e3o do absente\u00edsmo na regi\u00e3o dos Campos Gerais. A aus\u00eancia do propriet\u00e1rio se dava pelo fato de o senhor possuir mais de uma propriedade (ele podia residir em outra fazenda) ou por estar em viagem de neg\u00f3cios, fato comum na sociedade tropeira. \u00a0Ali\u00e1s, no relato de Saint-Hilaire foi registrado que em outras fazendas da regi\u00e3o dos Campos Gerais por onde ele passou o propriet\u00e1rio tamb\u00e9m estava ausente.<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>GUTI\u00c9RREZ, Horacio. Demografia das fazendas de gado no Paran\u00e9. In: III <em>Congresso Brasileiro de Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica<\/em>, 1999, Curitiba. Anais do III Congresso Brasileiro de Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica. Curitiba: ABPHE, 1999. p. 1-10.<\/p>\n<p>MOURA, Cl\u00f3vis. <em>Dicion\u00e1rio da Escravid\u00e3o Negra no Brasil<\/em>\/Cl\u00f3vis Moura; assessora de pesquisa Soraya Silva Moura. S\u00e3o Paulo: Editora da Universidade de S\u00e3o Paulo, 2004.<\/p>\n<p>SAINT-HILAIRE, Auguste de. <em>Viagem \u00e0 Comarca de Curitiba<\/em>. Curitiba: Funda\u00e7\u00e3o Cultural de Curitiba, 1995.<\/p>\n<p><strong>Autor: \u00a0<\/strong>Ricardo Enguel Gon\u00e7alves<\/p>\n<p>Acad\u00eamico do 4\u00ba ano do curso de Licenciatura em Hist\u00f3ria, UEPG<\/p>\n<p><strong>Ano<\/strong>: 2021<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em publica\u00e7\u00e3o refer\u00eancia para compreens\u00e3o do sistema escravista brasileiro, o soci\u00f3logo Cl\u00f3vis Moura registra em seu Dicion\u00e1rio da escravid\u00e3o negra no Brasil (2004) a seguinte defini\u00e7\u00e3o de feitor: Na hierarquia rural, indiv\u00edduo que dirigia as fazendas, fiscalizando os servi\u00e7os e, sobretudo, mantendo a disciplina da escravaria. 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