{"id":977,"date":"2021-03-08T16:19:04","date_gmt":"2021-03-08T16:19:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/?p=977"},"modified":"2021-03-11T00:29:58","modified_gmt":"2021-03-11T00:29:58","slug":"porcadeiros-tropeirismo-de-porcos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/porcadeiros-tropeirismo-de-porcos\/","title":{"rendered":"Porcadeiros: tropeirismo de porcos"},"content":{"rendered":"<p>O Paran\u00e1 dos dias de hoje tem grande parte de sua economia fundamentada no setor agroindustrial. Na contabilidade do Produto Interno Bruto (PIB) estadual gerada pela agricultura e pecu\u00e1ria est\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o em larga escala de su\u00ednos que visa tanto abastecer o mercado interno, como tamb\u00e9m \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es. Esta pr\u00e1tica tem seu passado constru\u00eddo em um sistema de trabalho tradicional e familiar que foi muito comum na regi\u00e3o dos Campos Gerais.<\/p>\n<p>A suinocultura desenvolveu-se no Paran\u00e1 no in\u00edcio do s\u00e9culo XX\u00a0 com o sistema de <em>safra<\/em>. Nesse sistema, um <em>safrista<\/em>, normalmente um homem com algumas posses, percorria o interior do Estado comprando porcos magros que eram criados soltos pelos pequenos agricultores da \u00e9poca. Estes alimentavam os animais principalmente com pinh\u00f5es, frutas e ervas nativas. Depois de comprada certa quantidade de porcos \u2013 n\u00e3o raramente acima das quinhentas cabe\u00e7as \u2013, \u00a0o safrista reunia os animais em sua propriedade, soltando-os em ro\u00e7as de milho para que engordassem (BACH, 2009).<\/p>\n<p>Uma vez gordos, os porcos eram ent\u00e3o tocados a p\u00e9 por uma equipe de contratados do safrista. Quem chefiava a comitiva era o <em>condutor <\/em>(respons\u00e1vel pela viagem). \u00c0 frente ia uma carro\u00e7a com os materiais de apoio (ferramentas, roupas, lonas, comidas, armas); logo atr\u00e1s o <em>chamador<\/em> (com uma sacola de milho, chamando os porcos); em seguida os\u00a0<em>tocadores<\/em> (que iam junto com os porcos, cuidando para que a manada n\u00e3o dispersasse); e a equipe contava com o <em>cozinheiro<\/em> (respons\u00e1vel pelo preparo das refei\u00e7\u00f5es do grupo) (BACH, 2009, p. 36). Os animais eram conduzidos na forma de tropeadas at\u00e9 as f\u00e1bricas de banha, muitas vezes localizadas em outros munic\u00edpios, que at\u00e9 mesmo distavam 100 ou 150 km de dist\u00e2ncia . Esse sistema deu origem ao chamado <em>tropeirismo de porcos<\/em>. Manadas de at\u00e9 mil animais eram conduzidas at\u00e9 as cidades onde se localizavam essas f\u00e1bricas, como Guarapuava, Jaguaria\u00edva, Uni\u00e3o da Vit\u00f3ria e, tamb\u00e9m, Ponta Grossa (FRAGA; CAVATORTA; GON\u00c7ALVES, 2017, p. 77).<\/p>\n<p>O depoimento de Slauko Geluchak \u00e9 ilustrativo. Natural Iva\u00ed (PR), nascido em 1943, filho dos ucranianos Ana e Greg\u00f3rio Geluchak, Seu Slauko, transferiu- se para Pitanga (PR) junto de seus pais, atra\u00eddos pela propaganda de ficarem ricos criando e vendendo porcos. Filho de <em>safrista<\/em>, Slauko cresceu convivendo e trabalhando com essa atividade. Aos 65 anos, detalhou aspectos do seu trabalho ao pesquisador Arnoldo Monteiro Bach:<\/p>\n<p><em>O segredo era ter boas criadeiras para, durante o per\u00edodo de entressafra, garantir um bom plantel de leit\u00f5es. Quando chegava a \u00e9poca da safra de milho eles j\u00e1 estavam adultos e prontos para a engorda. Porco que a gente criava e engordava o lucro era maior. Eu sempre ia a Ponta Grossa com meu pai levar os porcos. L\u00e1, ele vendia para o Mariano Shaffka, que tinha mangueira em Periquitos. Em Ponta Grossa, a gente se hospedava no Hotel Puretz, perto do cemit\u00e9rio, onde ficavam tamb\u00e9m outros safristas<\/em>\u00a0(BACH 2009. p. 103).<\/p>\n<p>De fato, a cidade de Ponta Grossa foi uma grande compradora de porcos em virtude de sua localiza\u00e7\u00e3o. Vale destacar que desde as primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX ela se tornou um dos maiores entroncamentos ferrovi\u00e1rios do Sul brasileiro, o que facilitava o escoamento da produ\u00e7\u00e3o de banha e demais embutidos para outras regi\u00f5es. Outras cidades tamb\u00e9m se destacaram nesta atividade, como Curitiba, Uni\u00e3o da Vit\u00f3ria e Jaguaria\u00edva, onde foi fundado o frigor\u00edfico dos italianos Matarazzo, um dos maiores da \u00e9poca \u2013, entre outras (BACH, 2009, p. 56 ).<\/p>\n<p>Quanto mais gordo o porco, maior era o seu pre\u00e7o, que estava relacionado justamente \u00e0 quantidade de gordura do animal: a banha. A banha foi um produto de grande valor por muito tempo, especialmente porque n\u00e3o havia com\u00e9rcio de \u00f3leo vegetal, que passou a ser frequente a partir do final da d\u00e9cada de 1950. A banha era muito utilizada na cozinha, mas seu uso ainda abrangia outras situa\u00e7\u00f5es, como uso em lampi\u00f5es, na fabrica\u00e7\u00e3o de sab\u00e3o e demais produtos de limpeza e, tamb\u00e9m, para a conserva\u00e7\u00e3o de carnes em lata, uma vez que muitas resid\u00eancias n\u00e3o possu\u00edam eletricidade e\/ou refrigeradores (DA SILVA, 2006, p. 75).<\/p>\n<p>O tropeirismo de porcos gerou um mercado fecundo. Por meio de atividades decorrentes dele surgiram diversos bairros, distritos e pequenas cidades no interior paranaense. Fato \u00a0a destacar \u00e9 que nessa economia engajaram-se \u00a0pessoas pobres, muitas vezes negros, mesti\u00e7os e imigrantes (e seus filhos): os porcadeiros utilizavam do sistema de <em>safra <\/em>como uma importante forma complementar de renda familiar.<\/p>\n<p>O fim do <em>tropeirismo de porcos <\/em>no Paran\u00e1 deveu-se a v\u00e1rios fatores. Sobretudo esteve relacionado \u00e0 gradativa implanta\u00e7\u00e3o de estradas interligando munic\u00edpios e a novas tecnologias de transporte animal, por meio de caminh\u00f5es. Mas quest\u00f5es ambientais tamb\u00e9m contribu\u00edram para sua derrocada: o desenvolvimento capitalista no campo, com serrarias e madeireiras (entre outros exemplos) acabou impactando na destrui\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa a qual os porcos se alimentavam. Ademais, os novos est\u00e1gios da industrializa\u00e7\u00e3o no estado, especialmente ao longo da d\u00e9cada de 1960, demandaram novas estrat\u00e9gias na atividade (DA SILVA, 2006, p.101). Com o aprimoramento gen\u00e9tico e a cria\u00e7\u00e3o de porcos em pocilgas, um o novo sistema de produ\u00e7\u00e3o de carne de porco e de banha foi se desenvolvendo na regi\u00e3o dos Campos Gerais.<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS <\/strong><\/p>\n<p>BACH, Arnoldo Monteiro. <em>Porcadeiros.<\/em> Ponta Grossa: Do autor, 2009.<\/p>\n<p>DA SILVA, Sueli Maria. <em>O Tropeirismo de porcos<\/em>: processos mercantis e din\u00e2micas socioculturais na regi\u00e3o nordeste do Rio Grande do Sul nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Passo Fundo: UPF, 2006.<\/p>\n<p>FRAGA, Nilson C\u00e9sar; CAVATORTA, Mateus Galv\u00e3o; GON\u00c7ALVES, Cleverson. Tropeirismo de porcos: a import\u00e2ncia dos porcadeiros e da suinocultura na forma\u00e7\u00e3o socioespacial de Pitanga (PR). <em>Tamoios<\/em>, S\u00e3o Gon\u00e7alo: \u00a0n. 1, p. 72-84, 2017.<\/p>\n<p><strong>Autor <\/strong>:\u00a0Renan Lima Emiliano \u2013 acad\u00eamico \u00a04\u00ba ano de Licenciatura em Hist\u00f3ria, UEPG<\/p>\n<p><strong>Ano<\/strong> : \u00a02021<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Paran\u00e1 dos dias de hoje tem grande parte de sua economia fundamentada no setor agroindustrial. Na contabilidade do Produto Interno Bruto (PIB) estadual gerada pela agricultura e pecu\u00e1ria est\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o em larga escala de su\u00ednos que visa tanto abastecer o mercado interno, como tamb\u00e9m \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es. 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