{"id":985,"date":"2021-03-10T18:48:25","date_gmt":"2021-03-10T18:48:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/?p=985"},"modified":"2021-03-11T20:25:01","modified_gmt":"2021-03-11T20:25:01","slug":"indios-coroados-na-narrativa-de-saint-hilaire-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/dicion\/indios-coroados-na-narrativa-de-saint-hilaire-2\/","title":{"rendered":"Ind\u00edgenas Coroados na narrativa de Saint-Hilaire"},"content":{"rendered":"<p>Auguste de Saint-Hilaire fez parte da comitiva de cientistas europeus que viajaram para o Brasil com o intuito de descrever e documentar as suas caracter\u00edsticas naturais. No ano de 1816 o bot\u00e2nico franc\u00eas chegou ao Brasil, onde ficou at\u00e9 1822 (MIRANDA, 2009, p. 622). Em 1820, empreendeu jornada pelo interior da regi\u00e3o Sul, viagem cujo trajeto passou pelos Campos Gerais do Paran\u00e1. Em seu relato, quando descreveu sua estadia nas fazendas Fortaleza e Jaguaria\u00edba, comentou acerca de uma popula\u00e7\u00e3o nativa que habitava nas proximidades daquelas fazendas: os \u00edndios Coroados.<\/p>\n<p>Segundo Saint-Hilaire, estes povos ind\u00edgenas eram conhecidos como Coroados porque costumavam \u201cfazer no alto da cabe\u00e7a uma pequena tonsura, que em portugu\u00eas tem o nome de coroa\u201d (SAINT-HILAIRE, 1995, p. 46). Comentou o bot\u00e2nico que, em rela\u00e7\u00e3o aos outros povos ind\u00edgenas da regi\u00e3o, os Coroados dos Campos Gerais \u201cem seu estado selvagem\u201d eram \u201csuperiores em intelig\u00eancia, engenhosidade e previd\u00eancia a muitas outras popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, e talvez o sejam tamb\u00e9m em beleza f\u00edsica\u201d (IDEM, p. 61).<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s moradias dos Coroados, informou que eles constru\u00edam \u201csuas casas com paus cruzados, \u00e0 maneira dos Brasileiros \u2013 Portugueses\u201d e as cobriam com \u201cfolhas de bambu ou de palmeira; mas n\u00e3o rebocam as paredes com barro, e fazem as casas extremamente compridas, de maneira que v\u00e1rias fam\u00edlias podem morar numa mesma moradia\u201d. Sobre alimenta\u00e7\u00e3o, registrou que cultivavam \u201cfeij\u00e3o e o milho\u201d (SAINT-HILAIRE, 1995, p. 46).<\/p>\n<p>Interessante observar que, quando se referiu aos Coroados da regi\u00e3o da Fazenda Fortaleza (pr\u00f3xima ao atual munic\u00edpio de Tibagi), demonstrou seu conhecimento da exist\u00eancia de outras tribos de Coroados, em outras localidades brasileiras. O franc\u00eas anotou:<\/p>\n<p><em>Quanto aos Coroados dos Campos Gerais, \u00e9 bem prov\u00e1vel, [&#8230;] que eles e os ind\u00edgenas do mesmo nome que habitavam as terras pr\u00f3ximas de Guarapuava formassem uma s\u00f3 na\u00e7\u00e3o, e que, em consequ\u00eancia, eles nada tenham em comum com os Coroados do Rio Bonito nem com os do Pres\u00eddio de S. Jo\u00e3o Batista<\/em> (IDEM, p. 47).<\/p>\n<p>Os Coroados comumente entravam em conflito com os homens brancos, havendo confus\u00f5es entre os grupos, roubos de gado e at\u00e9 mesmo mortes em ambos os lados. Saint-Hilaire registrou que autoridades enviavam p\u00f3lvora e chumbo para os fazendeiros e seus escravos se defenderem dos Coroados, sendo que os cativos da regi\u00e3o de Tibagi, por exemplo, nunca iam para as planta\u00e7\u00f5es sem levarem consigo armas de fogo.<\/p>\n<p>Quando o viajante esteve na fazenda Jaguaria\u00edba ouviu a descri\u00e7\u00e3o de um soldado sobre como era feita a \u2018ca\u00e7ada\u2019 aos ind\u00edgenas da regi\u00e3o:<\/p>\n<p><em>Procuravam com cuidado os rastros dos \u00edndios e quando os descobriam seguiam at\u00e9 que se chegasse a sua morada, caindo sobre eles de surpresa. Os homens empreendiam fuga sem se defender, t\u00e3o logo ouviam os tiros de fuzil, e os atacantes se apoderam das mulheres e das crian\u00e7as\u201d<\/em> (SAINT-HILAIRE, 1995, p. 46) .<\/p>\n<p>O etnocentrismo de Saint-Hilaire ao se referir aos Coroados \u00e9 evidente em toda sua narrativa. Comumente os chamou de \u201cselvagens\u201d e de \u201cb\u00e1rbaros\u201d. Por outro lado, em determinados momentos, reconheceu a engenhosidade desse grupo ind\u00edgena em produzir \u201carcos e flechas, machadinhas de pedra, vasilhas de barro, cestos [e] colares feitos de dentes de macacos\u201d (IDEM, p. 60-61). Inclusive registrou o naturalista que, por sua \u201cbeleza f\u00edsica\u201d, os Coroados deveriam ser estimulados a se casarem com os \u201cpaulistas pobres\u201d (SAINT-HILAIRE, 1995, p. 61).<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>MIRANDA, Luiz Francisco Albuquerque de.\u00a0O deserto dos mesti\u00e7os:\u00a0o sert\u00e3o e seus habitantes nos relatos de viagem do in\u00edcio do s\u00e9culo XIX.\u00a0<em>Hist\u00f3ria<\/em>, 2009, vol.28, n.2, p.621-644.<\/p>\n<p>SAINT-HILAIRE, Auguste de. <em>Viagem \u00e0 Comarca de Curitiba<\/em>. Curitiba: Funda\u00e7\u00e3o Cultural de Curitiba, 1995.<\/p>\n<p><strong>Autoria<\/strong>: Bruno Link<br \/>\nAcad\u00eamico \u00a04\u00ba ano do curso de Bacharelado em Hist\u00f3ria \u2013 UEPG<\/p>\n<p><strong>Ano<\/strong>: 2021<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Auguste de Saint-Hilaire fez parte da comitiva de cientistas europeus que viajaram para o Brasil com o intuito de descrever e documentar as suas caracter\u00edsticas naturais. No ano de 1816 o bot\u00e2nico franc\u00eas chegou ao Brasil, onde ficou at\u00e9 1822 (MIRANDA, 2009, p. 622). 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