{"id":494,"date":"2025-09-12T11:41:07","date_gmt":"2025-09-12T14:41:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/egressos\/?p=494"},"modified":"2025-09-12T11:41:07","modified_gmt":"2025-09-12T14:41:07","slug":"carreira-internacional-com-proposito-egressa-da-uepg-fala-sobre-trajetoria-ate-a-onu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/egressos\/carreira-internacional-com-proposito-egressa-da-uepg-fala-sobre-trajetoria-ate-a-onu\/","title":{"rendered":"Carreira internacional com prop\u00f3sito: egressa da UEPG fala sobre trajet\u00f3ria at\u00e9 a ONU"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-98400\" src=\"https:\/\/www.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/EngressaUEPGnaONU_ArquivoPessoal10-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"518\" height=\"345\" \/>De uma crian\u00e7a que gostava de ajudar os colegas na escola at\u00e9 a conquista do sonho de atuar em uma ag\u00eancia da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), a trajet\u00f3ria de Isadora Zoni \u00e9 marcada pelo desejo de compreender e transformar o mundo. Valores como o bem comum, direitos humanos e uni\u00e3o entre os povos sempre guiaram as suas decis\u00f5es e, atualmente, ela vive a oportunidade de colocar tudo isso em pr\u00e1tica ao apoiar diretamente popula\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00e3o de ref\u00fagio e deslocamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Egressa do curso de Direito da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Isadora levou \u00e0 sua carreira internacional os aprendizados e viv\u00eancias da gradua\u00e7\u00e3o. \u201cMais do que decorar leis ou interpretar c\u00f3digos, o curso me ensinou a colocar a dignidade humana no centro de tudo\u201d, destaca. A sua perspectiva sobre a \u00e1rea, entretanto, a distanciava das carreiras tradicionais, como a advocacia, e priorizava o papel do conhecimento acad\u00eamico na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cDesde o come\u00e7o, ficou claro para mim que meu interesse n\u00e3o estava tanto na frieza da lei, no ato de decorar artigos, mas sim no que est\u00e1 por tr\u00e1s das normas. O que \u00e9 justo? Quais s\u00e3o os direitos que realmente transformam a vida das pessoas? Acho que eu entrei no curso querendo fazer justi\u00e7a e n\u00e3o necessariamente Direito, no sentido mais t\u00e9cnico\u201d, recorda.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><a href=\"https:\/\/www.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/EngressaUEPGnaONU_ArquivoPessoal1-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-98393 alignleft\" src=\"https:\/\/www.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/EngressaUEPGnaONU_ArquivoPessoal1-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"492\" height=\"328\" \/><\/a>Essa vis\u00e3o continuou a orientar as suas escolhas depois de concluir o curso, o que a levou \u00e0 sua segunda gradua\u00e7\u00e3o, dessa vez em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais na Universidade De Bras\u00edlia (UnB). Nesse per\u00edodo, conquistou uma oportunidade de trabalho na Embaixada do Reino Unido, o que representou um passo fundamental rumo aos seus objetivos profissionais. \u201cA partir dali, foi tudo se conectando: meu interesse por migra\u00e7\u00e3o e ref\u00fagio, o papel das Na\u00e7\u00f5es Unidas, a agenda de desenvolvimento, a manuten\u00e7\u00e3o da paz, e assim, cerca de um ano depois, comecei a trabalhar na ONU. Entrei como estagi\u00e1ria e fui crescendo, novas oportunidades vieram, sempre dentro do sistema das Na\u00e7\u00f5es Unidas, at\u00e9 que internacionalizei minha carreira com uma miss\u00e3o no Sud\u00e3o, e hoje sigo esse percurso aqui em Mo\u00e7ambique\u201d, conta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Atualmente, Isadora ocupa a fun\u00e7\u00e3o de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Reporting Officer <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">no Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Refugiados (ACNUR), bra\u00e7o da ONU que protege e assegura os direitos das pessoas for\u00e7adas a fugir de suas casas devido a guerras, persegui\u00e7\u00f5es ou conflitos armados. O trabalho compreende tarefas de comunica\u00e7\u00e3o, elabora\u00e7\u00e3o de relat\u00f3rios, relacionamento com doadores, avalia\u00e7\u00e3o de fundos e coordena\u00e7\u00e3o entre ag\u00eancias. \u201cAqui tenho a oportunidade de estar quase que diariamente em contato com as pessoas que servimos, e, quando podemos, celebrar as pequenas vit\u00f3rias com elas. Tudo ganha sentido\u201d, comenta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/www.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/EngressaUEPGnaONU_ArquivoPessoal5-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-98396\" src=\"https:\/\/www.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/EngressaUEPGnaONU_ArquivoPessoal5-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"509\" height=\"339\" \/><\/a>Antes da ACNUR, Isadora atuou em outras frentes da ONU: o Escrit\u00f3rio do Coordenador Residente, o Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para as Migra\u00e7\u00f5es (OIM). Em todos esses \u00f3rg\u00e3os, a comunica\u00e7\u00e3o interpessoal sempre foi uma compet\u00eancia valorizada. &#8220;<span style=\"font-weight: 400\">Tenho uma facilidade em sintetizar ideias e traduzir temas complexos de forma clara e acess\u00edvel. Essa habilidade tem sido essencial, seja para escrever relat\u00f3rios estrat\u00e9gicos, preparar propostas de financiamento para doadores, ou trabalhar com a m\u00eddia. Acredito que foi isso que me ajudou a me destacar nas diferentes fun\u00e7\u00f5es que desempenhei at\u00e9 aqui&#8221;, avalia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em entrevista \u00e0 Coordenadoria de Comunica\u00e7\u00e3o da UEPG, ela relata em detalhes como foi a sua trajet\u00f3ria at\u00e9 a ONU, comenta os desafios da carreira internacional e oferece dicas para quem deseja atuar no terceiro setor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<details>\n<summary style=\"color: #0073aa;text-decoration: underline;cursor: pointer\"><strong>CLIQUE PARA LER A ENTREVISTA<br \/>\n<\/strong><\/summary>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>Onde voc\u00ea nasceu e passou a sua inf\u00e2ncia? Como foi a sua forma\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Isadora:<\/strong> Eu nasci em Curitiba, mas a maior parte da minha inf\u00e2ncia foi em Ponta Grossa, no Paran\u00e1. Meus pais trabalhavam mudando bastante de cidade, mas quando eu tinha uns quatro anos, a gente se estabeleceu em Ponta Grossa e foi l\u00e1 que cresci, estudei e vivi boa parte da minha forma\u00e7\u00e3o. Desde pequena, eu era aquela crian\u00e7a que gostava de falar e de ajudar. Se um coleguinha na escola passava por alguma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, ou se rolava uma confus\u00e3o e o professor n\u00e3o entendia bem o que tinha acontecido, l\u00e1 ia eu levantar a m\u00e3o e tentar explicar, resolver. Acho que por isso, desde cedo, muita gente dizia que eu devia ser advogada. Eu tinha mesmo esse impulso de tentar defender, organizar as ideias e buscar justi\u00e7a. Com o tempo, isso foi se refletindo tamb\u00e9m nos meus interesses na escola. Eu sempre gostei muito de hist\u00f3ria, sociologia, filosofia, mat\u00e9rias que me ajudavam a entender o mundo, os porqu\u00eas das coisas. E tamb\u00e9m participei bastante de movimento juvenil, de atividades de lideran\u00e7a, de representa\u00e7\u00e3o estudantil, j\u00e1 bem envolvida nesse universo da sociedade civil desde nova.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>Em que momento voc\u00ea come\u00e7ou a ter interesse pelo Direito? O que te despertou para essa \u00e1rea?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Isadora:<\/strong> O interesse pelo Direito foi se construindo aos poucos. No in\u00edcio, eu sabia que tinha uma vontade muito forte de ajudar os outros, de buscar justi\u00e7a, de esclarecer o que \u00e9 certo e de lutar por isso. Acho que isso se conectava com a minha facilidade de comunica\u00e7\u00e3o e meu jeito de me relacionar com as pessoas. Mas s\u00f3 mais tarde fui percebendo que tudo isso j\u00e1 apontava para uma carreira na \u00e1rea do Direito. Curiosamente, teve um momento bem espec\u00edfico que me marcou, mesmo que eu s\u00f3 tenha feito essa liga\u00e7\u00e3o anos depois. Quando eu era crian\u00e7a, assisti ao filme \u201cLegalmente Loira\u201d. Pode parecer engra\u00e7ado, mas aquele filme me deixou fascinada. Eu queria ser aquela pessoa, algu\u00e9m que defende os outros, que n\u00e3o segue o padr\u00e3o, que enxerga al\u00e9m das apar\u00eancias, e que tem coragem de ocupar espa\u00e7os que muitas vezes n\u00e3o s\u00e3o feitos para ela. Aquilo me marcou muito. Quando entrei na universidade, foi como realizar um pedacinho desse sonho. Naquele ano, o curso de Direito tinha acabado de conquistar nota m\u00e1xima na avalia\u00e7\u00e3o nacional e eu fiquei super empolgada de fazer parte disso, de entrar naquela hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong><a href=\"https:\/\/www.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/EngressaUEPGnaONU_ArquivoPessoal8-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-98399 alignleft\" src=\"https:\/\/www.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/EngressaUEPGnaONU_ArquivoPessoal8-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"476\" height=\"318\" \/><\/a>Como foi sua \u00e9poca de faculdade? Quais eram as suas disciplinas preferidas?\u00a0<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Isadora:<\/strong> Na universidade, as disciplinas que mais me interessavam eram aquelas que iam al\u00e9m da letra da lei. Eu gostava muito de Filosofia do Direito, Direito Constitucional, mat\u00e9rias que provocavam um olhar mais cr\u00edtico, mais profundo, sobre os fundamentos da justi\u00e7a. Desde o come\u00e7o, ficou claro para mim que meu interesse n\u00e3o estava tanto na \u201clei seca\u201d, no decorar artigos, mas sim no que est\u00e1 por tr\u00e1s das normas. O que \u00e9 justo? Quais s\u00e3o os direitos que realmente transformam a vida das pessoas? Acho que eu entrei no curso querendo fazer justi\u00e7a e n\u00e3o necessariamente Direito, no sentido mais t\u00e9cnico. Por isso mesmo, sempre busquei me aproximar de abordagens ligadas aos direitos humanos, \u00e0 justi\u00e7a social, a uma atua\u00e7\u00e3o transformadora. No meu TCC, por exemplo, escrevi sobre a desigualdade da mulher no mercado de trabalho, uma escolha que reflete bem esse meu interesse por uma abordagem mais social, mais humana. Mais do que legalista, minha vis\u00e3o sempre foi voltada para o impacto que o Direito pode ter na vida real das pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>Ap\u00f3s formada, qual foi o seu percurso?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Isadora:<\/strong> Quando me formei, eu tinha um desejo muito claro de trabalhar com direitos humanos. Eu at\u00e9 cheguei a aplicar para algumas vagas na \u00e1rea, mas, olhando hoje em retrospecto, percebo que eu n\u00e3o conhecia t\u00e3o bem o campo. \u00c0s vezes, me candidatava para posi\u00e7\u00f5es que ainda n\u00e3o estavam dentro da minha experi\u00eancia e, ao mesmo tempo, eu pensava em fazer um mestrado fora do Brasil, mas sentia que precisava viver outras experi\u00eancias antes. Pelo meu interesse nessa intersec\u00e7\u00e3o entre o social, o pol\u00edtico e o internacional, decidi fazer uma segunda gradua\u00e7\u00e3o, dessa vez em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. Me mudei para Bras\u00edlia e fui estudar na Universidade de Bras\u00edlia (UnB). Por muito tempo, at\u00e9 me questionei se precisava mesmo de duas gradua\u00e7\u00f5es. \u00c0s vezes parecia que eu estava dando um passo para o lado, e n\u00e3o para frente. Mas, com o tempo, percebi que todas essas escolhas foram fundamentais para construir a base da minha trajet\u00f3ria. Tr\u00eas meses depois de chegar em Bras\u00edlia, consegui minha primeira oportunidade profissional, muito em fun\u00e7\u00e3o da minha forma\u00e7\u00e3o em Direito. Comecei a trabalhar na Embaixada do Reino Unido. A partir dali, foi tudo se conectando: meu interesse por migra\u00e7\u00e3o e ref\u00fagio, o papel das Na\u00e7\u00f5es Unidas, a agenda de desenvolvimento, a manuten\u00e7\u00e3o da paz, e assim, cerca de um ano depois, comecei a trabalhar na ONU. Entrei como estagi\u00e1ria e fui crescendo, novas oportunidades vieram, sempre dentro do sistema das Na\u00e7\u00f5es Unidas, at\u00e9 que internacionalizei minha carreira com uma miss\u00e3o no Sud\u00e3o, e hoje sigo esse percurso aqui em Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>Como e em que momento a Ag\u00eancia da ONU entrou na sua vida? Foi preciso dominar mais idiomas ou buscar alguma qualifica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Isadora:<\/strong> Trabalhar nas Na\u00e7\u00f5es Unidas sempre foi um sonho. Desde crian\u00e7a e estudante, eu me interessava pela ideia de trabalhar motivada pelo bem comum, pelos direitos humanos, pela uni\u00e3o dos povos, contra a guerra. S\u00e3o valores bastante universais, mas que sempre me chamaram a aten\u00e7\u00e3o de uma forma muito pessoal. Eu lembro de um momento marcante, ainda na faculdade, durante a aula de Teoria Geral do Estado (na \u00e9poca com o Professor Guilherme Amaral Alves). Assistimos a um filme chamado \u201cEm um Mundo Melhor\u201d, um filme sueco que chegou a ganhar o Oscar, e que conta a hist\u00f3ria de um m\u00e9dico atuando na \u00c1frica. Aquilo me tocou profundamente. Eu n\u00e3o conseguia me enxergar nas carreiras jur\u00eddicas tradicionais, como advogada, promotora, delegada, ju\u00edza, mas ali, naquele filme, eu consegui me enxergar. Fazer aquilo. Fazer a diferen\u00e7a. A partir dali, comecei a buscar formas de contribuir. Cheguei at\u00e9 a pesquisar sobre o voluntariado na ONU, mas descobri que era preciso ter 25 anos para poder se candidatar (essa regra mudou desde ent\u00e3o, com vagas inclusive para universit\u00e1rios).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/www.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/EgressaUEPGnaONU_ArquivoPessoal4-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-98392\" src=\"https:\/\/www.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/EgressaUEPGnaONU_ArquivoPessoal4-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"530\" height=\"353\" \/><\/a>Ent\u00e3o, fui guardando esse sonho e, ao mesmo tempo, me preparando para torn\u00e1-lo poss\u00edvel. E essa prepara\u00e7\u00e3o passa por v\u00e1rias coisas. Uma delas s\u00e3o os idiomas. Para atuar no sistema das Na\u00e7\u00f5es Unidas, \u00e9 essencial dominar pelo menos o ingl\u00eas em um n\u00edvel equivalente ao portugu\u00eas: tem que conseguir escrever, falar, trabalhar com confian\u00e7a. A maior parte do nosso trabalho acontece em ingl\u00eas. Falar um segundo idioma oficial da ONU \u00e9 sempre um diferencial. Quando entrei no sistema, eu falava ingl\u00eas e espanhol, e depois fui estudando franc\u00eas e at\u00e9 outros idiomas por interesse, especialmente quando trabalho em contextos onde, por exemplo, se fala \u00e1rabe. Nesse caso, \u00e9 importante aprender pelo menos o b\u00e1sico para se comunicar com respeito e proximidade. Outra quest\u00e3o importante s\u00e3o as qualifica\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas. Muitas vagas internacionais exigem mestrado. N\u00e3o foi o meu caso, consegui entrar sem um, mas sei que isso pode ser um fator de corte quando h\u00e1 muitos candidatos. At\u00e9 porque, em outros pa\u00edses, como nos Estados Unidos ou na Europa, o curso de gradua\u00e7\u00e3o costuma durar tr\u00eas ou quatro anos, seguido por um mestrado de um ano. J\u00e1 no Brasil, estudei cinco anos de Direito na UEPG, depois mais quatro anos de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais na UnB. No fim, eram nove anos de estudo, mas nenhum diploma de mestrado. S\u00e3o realidades diferentes e que exigem da gente ainda mais preparo e persist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>Qual \u00e9 o trabalho que voc\u00ea desempenha dentro da Ag\u00eancia?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong><a href=\"https:\/\/www.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/EngressaUEPGnaONU_ArquivoPessoal7-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-98398 alignleft\" src=\"https:\/\/www.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/EngressaUEPGnaONU_ArquivoPessoal7-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"511\" height=\"340\" \/><\/a>Isadora:<\/strong> Desde 2022, eu trabalho no ACNUR, a Ag\u00eancia da ONU para Refugiados, conhecida assim no Brasil. Atuo como <em>Reporting Officer<\/em>, ou oficial de relatoria, e meu trabalho est\u00e1 muito ligado ao engajamento externo. Isso envolve v\u00e1rios pilares, como comunica\u00e7\u00e3o, elabora\u00e7\u00e3o de relat\u00f3rios, relacionamento com doadores, avalia\u00e7\u00e3o de fundos, e tamb\u00e9m coordena\u00e7\u00e3o interagencial, ou seja, articular com outras ag\u00eancias da ONU e atores no terreno para garantir que as respostas sejam alinhadas e complementares. Antes do ACNUR, tive outras experi\u00eancias dentro do sistema das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Meu primeiro trabalho foi no Escrit\u00f3rio do Coordenador Residente da ONU, que \u00e9 respons\u00e1vel por coordenar todas as ag\u00eancias no pa\u00eds. Depois passei pelo Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para as Migra\u00e7\u00f5es (OIM), que \u00e9 a ag\u00eancia da ONU especializada em migra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em todas essas fun\u00e7\u00f5es, os pap\u00e9is eram diferentes, mas um fio condutor sempre esteve presente: a comunica\u00e7\u00e3o. Tenho uma facilidade em sintetizar ideias e traduzir temas complexos de forma clara e acess\u00edvel. Essa habilidade tem sido essencial, seja para escrever relat\u00f3rios estrat\u00e9gicos, preparar propostas de financiamento para doadores, ou trabalhar com a m\u00eddia. Acredito que foi isso que me ajudou a me destacar nas diferentes fun\u00e7\u00f5es que desempenhei at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>Como funciona a lota\u00e7\u00e3o dos funcion\u00e1rios da Ag\u00eancia? Voc\u00eas escolhem ou eles designam para onde v\u00e3o?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Isadora:<\/strong> O sistema das Na\u00e7\u00f5es Unidas se inspira em parte no modelo diplom\u00e1tico, como o do Reino Unido, e tamb\u00e9m possui influ\u00eancias de estruturas militares. Isso se reflete na organiza\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica, nos crit\u00e9rios de rota\u00e7\u00e3o e nas classifica\u00e7\u00f5es dos postos onde atuamos. Al\u00e9m do secretariado geral, existem ag\u00eancias especializadas, fundos e programas. O ACNUR, onde trabalho atualmente, \u00e9 uma dessas ag\u00eancias especializadas. Os funcion\u00e1rios podem atuar em n\u00edvel nacional ou internacional, em diferentes categorias: contratados locais, consultores, volunt\u00e1rios ou funcion\u00e1rios de carreira. Hoje sou funcion\u00e1ria internacional de carreira, o que significa que estou inserida em um sistema de rota\u00e7\u00e3o. Os locais onde trabalhamos s\u00e3o classificados de acordo com seu n\u00edvel de dificuldade, variando de A (mais tranquilo) a E (mais dif\u00edcil). Essa classifica\u00e7\u00e3o considera fatores como seguran\u00e7a, acesso, infraestrutura e condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>Em quais lugares voc\u00ea j\u00e1 serviu? Por quanto tempo voc\u00ea permanecer\u00e1 na Ag\u00eancia?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong><a href=\"https:\/\/www.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/EngressaUEPGnaONU_ArquivoPessoal6-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-98397\" src=\"https:\/\/www.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/EngressaUEPGnaONU_ArquivoPessoal6-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"576\" height=\"384\" \/><\/a>Isadora:<\/strong> Trabalhei no Sud\u00e3o entre 2022 e o in\u00edcio de 2024, que \u00e9 classificado como posto E. Atualmente, estou em Cabo Delgado, Mo\u00e7ambique, em um posto D, que tamb\u00e9m apresenta desafios significativos e n\u00e3o permite presen\u00e7a familiar. J\u00e1 os postos C, B, A e H (Headquarters) costumam permitir que a fam\u00edlia acompanhe o funcion\u00e1rio e oferecem uma estrutura mais completa. Cada posto tem uma dura\u00e7\u00e3o definida. No meu caso, estou em Cabo Delgado com um \u2018assignment\u2019 de dois anos, que acabei de prorrogar at\u00e9 o final de 2026. A troca de posto n\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tica. Para mudar, \u00e9 preciso se candidatar, passar por processos seletivos, entrevistas e, em alguns casos, provas. Com os cortes or\u00e7ament\u00e1rios e o aumento da concorr\u00eancia, hoje a flexibilidade \u00e9 fundamental. A escolha do pr\u00f3ximo destino depende tanto do nosso interesse quanto da disponibilidade de vagas e do resultado nos processos seletivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>Quais os atendimentos mais comuns dentro da sua \u00e1rea na Ag\u00eancia?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Isadora:<\/strong> Talvez a melhor forma de explicar os servi\u00e7os que prestamos seja convidar quem est\u00e1 ouvindo a se colocar no lugar das pessoas que atendemos. Imagine que voc\u00ea vive sua vida normalmente, na sua casa, com seus filhos, suas coisas, sua rotina. E, do dia pra noite, um ataque, um ciclone, um conflito, um desastre, algo te obriga a fugir. Voc\u00ea sai com a roupa do corpo, segura os filhos como pode, e isso \u00e9 tudo. \u00c0s vezes nem isso \u00e9 poss\u00edvel, tamanha \u00e9 a urg\u00eancia. Nesse cen\u00e1rio, os servi\u00e7os que oferecemos s\u00e3o voltados a restaurar um m\u00ednimo de dignidade. Documenta\u00e7\u00e3o civil, por exemplo: muita gente foge sem nenhum documento, sem identidade, sem certid\u00e3o de nascimento, sem nada. Sem isso, como reconstruir a vida?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tamb\u00e9m prestamos apoio psicossocial, especialmente para pessoas que foram v\u00edtimas de viol\u00eancia. Distribu\u00edmos kits de bens essenciais: tendas, cobertores, utens\u00edlios dom\u00e9sticos, roupas. Temos kits de dignidade para mulheres e meninas, com absorventes, roupas \u00edntimas, itens de higiene, al\u00e9m do encaminhamento para os servi\u00e7os de sa\u00fade. Tamb\u00e9m fazemos gest\u00e3o de casos complexos, como situa\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as separadas de suas fam\u00edlias, pessoas com defici\u00eancia, ou outras vulnerabilidades que exigem acompanhamento individualizado. Esse \u00e9 o contexto do deslocamento interno. J\u00e1 no contexto do ref\u00fagio, como no Sud\u00e3o, onde trabalhei, a atua\u00e7\u00e3o pode ser ainda mais ampla. O escrit\u00f3rio onde eu estava gerenciava 10 campos de refugiados, com mais de 200 mil pessoas (e depois, com a guerra, esse n\u00famero dobrou para 400 mil). Cada campo funcionava como uma pequena cidade. Trabalh\u00e1vamos com tudo: desde a demarca\u00e7\u00e3o dos abrigos, constru\u00e7\u00e3o de latrinas, gest\u00e3o de saneamento, at\u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Uma opera\u00e7\u00e3o complexa, completa e profundamente humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>Qual caso mais te emocionou ou te deixou reflexiva?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Isadora:<\/strong> Um dos casos que mais me emocionou foi o de uma reunifica\u00e7\u00e3o familiar. A m\u00e3e havia sido traficada para fora do pa\u00eds e, ap\u00f3s conseguir se libertar, ela nos procurou. Conseguimos localizar o filho dela e eu acompanhei pessoalmente a equipe que cuidou dele durante o trajeto. Ele s\u00f3 falava a l\u00edngua local, que eu n\u00e3o entendia, mas a comunica\u00e7\u00e3o naquele momento era feita no olhar, no cuidado. Era um menino que nunca tinha andado de carro. A gente viajou dois dias por estradas dif\u00edceis, e eu me lembro que ele passou mal na primeira curva, com o movimento. Mas no meio daquele cen\u00e1rio, ver a confian\u00e7a surgindo, ver ele se sentindo seguro, e no fim, v\u00ea-lo nos bra\u00e7os da m\u00e3e\u2026 \u00e9 dif\u00edcil descrever. Foi um daqueles momentos que mostram que, mesmo diante de tantos desafios e recursos escassos, nosso trabalho pode mudar vidas. Estar com ele no avi\u00e3o, segurar sua m\u00e3o durante a viagem\u2026 foi uma jornada. E me lembrou por que a gente faz o que faz. Mesmo quando tudo parece gigante e imposs\u00edvel, h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es, e \u00e9 por isso que estamos aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>Como \u00e9 o trabalho de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura local quando voc\u00eas chegam?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Isadora:<\/strong> Acho que isso \u00e9 bastante individual e depende muito do perfil de cada pessoa. No meu caso, como sou bastante curiosa, tenho uma vontade genu\u00edna de aprender, ent\u00e3o sempre quero ouvir, entender, conhecer. Vejo os colegas locais como a minha maior fonte de conhecimento. Muitas vezes, aproveito as longas horas que passamos no carro para fazer um milh\u00e3o de perguntas para os motoristas e colegas de campo. Essas conversas sempre me ensinam muito. Para mim, uma das chaves da adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 estar disposta a ouvir, mesmo quando isso exige sair da zona de conforto. Claro que isso pode ser mais dif\u00edcil em contextos onde a barreira do idioma est\u00e1 presente. Mas, se a gente quer realmente se integrar, entender melhor e apoiar de forma mais eficaz, \u00e9 fundamental fazer esse esfor\u00e7o. A escuta ativa \u00e9, para mim, o primeiro passo da empatia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong><a href=\"https:\/\/www.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/EngressaUEPGnaONU_ArquivoPessoal3-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-98395 alignleft\" src=\"https:\/\/www.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/EngressaUEPGnaONU_ArquivoPessoal3-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"524\" height=\"349\" \/><\/a>Como \u00e9 a conviv\u00eancia com os outros membros da sua equipe? H\u00e1 outros estrangeiros?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Isadora:<\/strong> A diversidade est\u00e1 no DNA das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Trabalhamos com pessoas de diferentes origens, culturas, idiomas, e isso vale tanto para os colegas internacionais quanto para os nacionais. Aqui em Mo\u00e7ambique, por exemplo, essa diversidade \u00e9 vis\u00edvel mesmo entre os pr\u00f3prios colegas mo\u00e7ambicanos. O pa\u00eds tem uma riqueza cultural enorme e muitas l\u00ednguas locais, ent\u00e3o, \u00e0s vezes, nem todos compartilham a mesma l\u00edngua materna, mesmo sendo do mesmo pa\u00eds. Isso torna a conviv\u00eancia ainda mais rica e interessante. Como sempre, acho que respeito \u00e9 o ponto de partida. Ter empatia, estar aberto ao olhar do outro, buscar compreender e n\u00e3o julgar, tudo isso ajuda o trabalho a fluir melhor. E \u00e9 um privil\u00e9gio poder ver o mundo a partir da perspectiva dos outros. Isso nos ajuda, inclusive, a encontrar solu\u00e7\u00f5es mais inovadoras e criativas para os desafios do dia a dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>Quais os maiores riscos que voc\u00eas est\u00e3o expostos no local onde voc\u00ea serve atualmente?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Isadora:<\/strong> Hoje, atuo em Cabo Delgado, no norte de Mo\u00e7ambique, uma regi\u00e3o onde o conflito ainda est\u00e1 ativo. Isso exige uma aten\u00e7\u00e3o constante aos protocolos de seguran\u00e7a. Trabalhamos sempre em coordena\u00e7\u00e3o com as equipes de seguran\u00e7a da ONU e com o governo local para avaliar riscos e garantir que nossas atividades ocorram em \u00e1reas seguras. Quando necess\u00e1rio, utilizamos equipamentos de prote\u00e7\u00e3o como coletes \u00e0 prova de balas, capacetes e at\u00e9 ve\u00edculos blindados, tudo isso em contextos espec\u00edficos, com base em an\u00e1lises regulares da situa\u00e7\u00e3o. Nosso trabalho n\u00e3o \u00e9 estar na linha de frente do conflito, mas sim nos espa\u00e7os seguros, pr\u00f3ximos das popula\u00e7\u00f5es deslocadas, oferecendo apoio e prote\u00e7\u00e3o. \u00c9 um equil\u00edbrio delicado entre presen\u00e7a e precau\u00e7\u00e3o. Seguimos protocolos rigorosos e buscamos sempre estar bem informados sobre o contexto, tanto para nossa pr\u00f3pria seguran\u00e7a quanto para a continuidade do trabalho humanit\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>O que mais alegra seu dia durante o trabalho?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Isadora:<\/strong> O que mais me alegra, com certeza, s\u00e3o os momentos em que conseguimos ver o impacto real do nosso trabalho. Quando trabalhei no Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente, por exemplo, um dos meus maiores desafios era justamente n\u00e3o ter esse contato direto com as comunidades. Como o meio ambiente \u00e9 uma \u00e1rea que traz resultados mais a longo prazo, muitas vezes a gente trabalhava muito, mas n\u00e3o via de perto o efeito daquilo. No ACNUR, isso mudou completamente. Aqui tenho a oportunidade de estar quase que diariamente em contato com as pessoas que servimos, e, quando podemos celebrar as pequenas vit\u00f3rias com elas, tudo ganha sentido. Essa semana mesmo foi um desses momentos especiais. Mulheres que fazem parte do nosso espa\u00e7o seguro, mulheres sobreviventes de viol\u00eancia de g\u00eanero, algumas delas que passaram por situa\u00e7\u00f5es extremamente dif\u00edceis, como sequestros, hoje est\u00e3o aprendendo a ler, a escrever, a iniciar seus pr\u00f3prios neg\u00f3cios. E uma das associa\u00e7\u00f5es formadas por essas mulheres est\u00e1 participando de uma das maiores feiras comerciais de Mo\u00e7ambique, vendendo seus produtos de artesanato. \u00c9 uma conquista enorme. \u00c9 transforma\u00e7\u00e3o real. Ver isso acontecendo, ver essas mulheres retomando a autonomia sobre suas vidas, alegra o meu dia, d\u00e1 sentido ao meu trabalho, e faz todos os desafios valerem a pena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>Como os aprendizados na UEPG auxiliaram ou auxiliam no seu trabalho?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Isadora:<\/strong> Ter estudado Direito na UEPG, mesmo que hoje meu trabalho n\u00e3o esteja diretamente vinculado \u00e0 pr\u00e1tica jur\u00eddica, foi fundamental para a minha forma\u00e7\u00e3o. Mais do que decorar leis ou interpretar c\u00f3digos, o curso me ensinou a colocar a dignidade humana no centro de tudo. Mesmo nas atividades que parecem mais distantes do Direito, como quando estou trabalhando com comunica\u00e7\u00e3o, gravando um v\u00eddeo, escrevendo um texto ou explicando o trabalho da Ag\u00eancia, esse olhar jur\u00eddico e humanista faz toda a diferen\u00e7a. Ter essa base me permite entender a ess\u00eancia dos direitos humanos e me ajuda a pensar solu\u00e7\u00f5es mais adequadas, mais participativas e mais conectadas com a realidade das pessoas que atendemos. \u00c9 esse olhar, formado na UEPG, que continua presente em tudo o que eu fa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>Como \u00e9 a recep\u00e7\u00e3o das pessoas ao saber que voc\u00ea \u00e9 brasileira? O trato \u00e9 diferente daquele que \u00e9 dado a outros estrangeiros?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Isadora:<\/strong> Acho que sempre depende do contexto. Aqui em Mo\u00e7ambique, por exemplo, h\u00e1 uma afinidade muito particular com o Brasil. Os mo\u00e7ambicanos t\u00eam grande exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa cultura, conhecem nossa m\u00fasica, acompanham novelas, seguem influenciadores, sabem quem s\u00e3o os famosos (e at\u00e9 os &#8220;infames&#8221;, como costumo brincar). \u00c9 um carinho muito genu\u00edno, e a recep\u00e7\u00e3o costuma ser bastante calorosa. J\u00e1 em outros lugares, a rea\u00e7\u00e3o varia. Muitas vezes existe aquela expectativa cl\u00e1ssica: que eu entenda tudo de futebol, que ame carnaval, que esteja sempre animada. E a\u00ed eu costumo brincar dizendo que talvez eu n\u00e3o seja o melhor exemplo do \u201cbrasileiro t\u00edpico\u201d, n\u00e3o tor\u00e7o para time nenhum, n\u00e3o sou muito f\u00e3 de carnaval. Ent\u00e3o, \u00e9 sempre uma oportunidade de mostrar que o Brasil \u00e9 muito mais diverso do que os estere\u00f3tipos que circulam por a\u00ed. Pouca gente imagina, por exemplo, que existe uma cidade como Ponta Grossa, com frio, granizo, gente usando casaco pesado, e que isso tamb\u00e9m \u00e9 Brasil. Nessas conversas, sempre rola uma redescoberta m\u00fatua: eles descobrem que o Brasil \u00e9 plural, e eu relembro a riqueza de onde vim. No fim das contas, acho que o que nos destaca como brasileiros em contextos internacionais \u00e9 justamente essa familiaridade com a diversidade. Somos, em geral, pessoas abertas, flex\u00edveis, que sabem lidar com o diferente, respeitar culturas e manter o sorriso, mesmo nas situa\u00e7\u00f5es mais desafiadoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong><a href=\"https:\/\/www.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/EngressaUEPGnaONU_ArquivoPessoal2-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignright wp-image-98394\" src=\"https:\/\/www.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/EngressaUEPGnaONU_ArquivoPessoal2-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"573\" height=\"382\" \/><\/a>Quais os conselhos que voc\u00ea d\u00e1 para quem se inspirou e tamb\u00e9m quer construir uma carreira na ONU ou em entidades internacionais do terceiro setor?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Isadora:<\/strong> Olha, n\u00e3o tem f\u00f3rmula m\u00e1gica, mas tem algumas coisas que aprendi ao longo do caminho e que talvez possam ajudar quem est\u00e1 come\u00e7ando ou sonhando com essa \u00e1rea. Comece com o que voc\u00ea tem e onde voc\u00ea est\u00e1. Muita gente acha que trabalhar na ONU ou em organiza\u00e7\u00f5es internacionais \u00e9 um salto distante, que exige um curr\u00edculo \u201cperfeito\u201d desde o primeiro dia. Mas a verdade \u00e9 que d\u00e1 para come\u00e7ar pequeno, local, volunt\u00e1rio. O importante \u00e9 se envolver com causas que fazem sentido para voc\u00ea e entender o impacto real do trabalho no territ\u00f3rio. Isso constr\u00f3i repert\u00f3rio e prop\u00f3sito. Tenha paci\u00eancia com o processo. Nem sempre as coisas v\u00e3o acontecer na velocidade que voc\u00ea gostaria. Voc\u00ea vai se candidatar para vagas e n\u00e3o vai receber resposta. Vai se sentir perdido, \u00e0s vezes deslocado. Mas cada experi\u00eancia, mesmo que pare\u00e7a lateral ou \u201cfora do caminho ideal\u201d, pode te aproximar da carreira que voc\u00ea busca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Domine pelo menos um idioma al\u00e9m do portugu\u00eas. Essa \u00e9 uma das poucas exig\u00eancias objetivas: ingl\u00eas fluente \u00e9 praticamente essencial. E, se puder, invista em um segundo ou terceiro idioma, como espanhol, franc\u00eas ou \u00e1rabe. Isso abre portas e te ajuda a se comunicar com diferentes realidades. Seja curioso e comprometido. N\u00e3o espere que o conhecimento venha pronto no seu colo. Leia, estude, acompanhe o que as organiza\u00e7\u00f5es est\u00e3o fazendo, entenda os temas, como mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, deslocamento for\u00e7ado, financiamento humanit\u00e1rio, agendas globais. Seja algu\u00e9m que prop\u00f5e e resolve. Cuide do seu \u201cporqu\u00ea\u201d. Trabalhar no setor humanit\u00e1rio pode ser lindo, mas tamb\u00e9m \u00e9 duro. Envolve sacrif\u00edcios pessoais, contextos dif\u00edceis, sentimentos de impot\u00eancia. Por isso, lembrar todos os dias por que voc\u00ea faz o que faz \u00e9 o que vai te manter de p\u00e9 e de cora\u00e7\u00e3o inteiro. Por fim, n\u00e3o tente ser o que voc\u00ea acha que \u201cesperam de voc\u00ea\u201d. Seja honesto com a sua trajet\u00f3ria. O sistema internacional precisa de pessoas reais, com viv\u00eancias diferentes, com sotaques diferentes, com origens diferentes. O que te diferencia \u00e9 justamente a tua hist\u00f3ria, ent\u00e3o valorize ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>Quais canais voc\u00ea indica para quem quer ajudar o trabalho da Ag\u00eancia? Qual a import\u00e2ncia dessas doa\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Isadora:<\/strong> A resposta humanit\u00e1ria, muitas vezes, acontece longe dos olhos do p\u00fablico. Trabalhamos em contextos distantes, que raramente aparecem no notici\u00e1rio. E isso contribui para que as necessidades sejam invisibilizadas, mesmo quando s\u00e3o urgentes. Um exemplo claro \u00e9 aqui em Mo\u00e7ambique. Neste momento, o ACNUR disp\u00f5e de apenas 41% dos recursos necess\u00e1rios para responder \u00e0s necessidades identificadas, isso mesmo depois do deslocamento recente de mais de 50 mil pessoas s\u00f3 em Cabo Delgado. Ou seja, enquanto as necessidades aumentam, o financiamento infelizmente n\u00e3o acompanha. \u00c9 por isso que, al\u00e9m das contribui\u00e7\u00f5es dos grandes doadores, como os governos e fundos multilaterais, tamb\u00e9m contamos com o apoio individual. O ACNUR no Brasil, por exemplo, tem uma plataforma segura e pr\u00e1tica para doa\u00e7\u00f5es: basta acessar <a href=\"https:\/\/doar.acnur.org\/br\/pt-br\/general\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">doar.acnur.org<\/a>. L\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel fazer uma doa\u00e7\u00e3o \u00fanica ou mensal, escolhendo o valor que quiser contribuir. Talvez voc\u00ea j\u00e1 tenha visto campanhas como a #ComidaParaViagem, que mostram que, com o valor de uma pizza, \u00e9 poss\u00edvel alimentar uma fam\u00edlia de refugiados por um m\u00eas. Pode parecer pouco, mas para quem perdeu tudo, significa recome\u00e7ar com dignidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E n\u00e3o se trata s\u00f3 de Mo\u00e7ambique. Hoje, mais de 120 milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo foram for\u00e7adas a deixar seus lares por causa de guerras, persegui\u00e7\u00f5es e viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos. O ACNUR atua em 135 pa\u00edses, oferecendo abrigo, prote\u00e7\u00e3o, atendimento m\u00e9dico, acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e1gua pot\u00e1vel e apoio psicossocial. Esse trabalho s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com o apoio de pessoas como voc\u00ea. Doar tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de agir. De fazer parte. De transformar realidades. Al\u00e9m disso, fica o convite para acompanharem o trabalho do ACNUR em nossas p\u00e1ginas oficiais tanto no Brasil (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/acnurbrasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Instagram<\/a>), como em Mo\u00e7ambique (<a href=\"https:\/\/x.com\/UNHCRMozambique\">X<\/a>). Ou mesmo o meu trabalho atrav\u00e9s do <a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/in\/isadorazoni\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Linkedin<\/a>, onde sempre posto atualiza\u00e7\u00f5es semanais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Texto: Helton Costa e Gabriel Spenassatto | Fotos: Isadora Zoni\/Arquivo pessoal<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/details>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De uma crian\u00e7a que gostava de ajudar os colegas na escola at\u00e9 a conquista do sonho de atuar em uma ag\u00eancia da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), a trajet\u00f3ria de Isadora Zoni \u00e9 marcada pelo desejo de compreender e transformar o mundo. 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