Em entrevista, a ativista Ligiane de Meira aponta ausência de integração entre órgãos, falta de dados e pouca atuação da gestão municipal no enfrentamento à violência de gênero.
por: Maithê Galdino
Com base em dados levantados, o município manteve índices preocupantes de violência contra a mulher em 2024 e no início de 2025. Ponta Grossa figura entre os destaques negativos no Paraná, com altos registros de violência sexual e casos de feminicídio.
Entre 2023 e 2024, a cidade ocupou a 34ª posição entre as 50 do país com mais ocorrências de estupro, com média de 69,8 casos por 100 mil habitantes. No primeiro semestre de 2024, foram registrados quatro casos de feminicídio, entre tentados e consumados.
A ausência de dados oficiais consolidados dificulta a compreensão da dimensão da violência no município. Sem um sistema unificado de informações, diferentes órgãos registram ocorrências de maneiras distintas, o que compromete a formulação de políticas públicas eficazes.
O município não conta com uma secretaria específica voltada às mulheres. Hoje, a pauta está vinculada à Secretaria da Família, modelo que não contempla as demandas específicas de gênero, especialmente em casos de violência doméstica.
A falta de diálogo entre o poder público e a sociedade civil organizada é outro ponto criticado por movimentos locais. Em entrevista com a historiadora Ligiane de Meira, integrante de um coletivo feminista em formação na cidade, há ausência de participação da gestão municipal em espaços de debate e construção de propostas.
“Os serviços não dialogam entre si e não estão no mesmo espaço. Uma mulher em situação de violência precisa se deslocar por diferentes regiões da cidade para conseguir atendimento”, afirma.
Outro problema apontado por Ligiane é a falta de transparência nos dados sobre violência contra a mulher. “Cada órgão coleta informações de uma forma, e não existe uma padronização. A gente não consegue ter clareza sobre a real situação da cidade”, explica.
A atuação da gestão municipal também é questionada. De acordo com a integrante do coletivo, há pouca abertura para diálogo com movimentos sociais e ausência de representantes do poder público em momentos considerados importantes. “Em reuniões e entregas de propostas, muitas vezes não há participação da gestão”, relata.
Além disso, questões estruturais, como o funcionamento da Delegacia da Mulher apenas em horário comercial, são vistas como entraves no atendimento. Para Ligiane, é necessário maior articulação entre município e Estado para ampliar o acesso aos serviços.
Diante desse cenário, coletivos feministas têm buscado mobilizar a sociedade civil.
Apesar do interesse da população, a participação em movimentos sociais ainda enfrenta limitações. “As pessoas querem participar, mas estão sobrecarregadas com trabalho e preocupações básicas. Falta tempo”, pontua Ligiane
A situação evidencia a necessidade de políticas públicas mais estruturadas e de maior comprometimento do poder público municipal em relação à segurança das mulheres em Ponta Grossa. Os dados de 2024 e 2025 indicam a persistência de um cenário preocupante, marcado por altos índices de violência sexual, registros de feminicídios e recorrência da violência doméstica como problema estrutural. Em 2026, esse contexto ainda se mantém, reforçando a continuidade das fragilidades na rede de proteção e a urgência de medidas mais efetivas de enfrentamento à violência de gênero no município.
