Caminhada do Bem leva famílias e pessoas com deficiência às ruas de Ponta Grossa e transforma visibilidade em gesto coletivo de pertencimento
Por Maria Gallinea
Há um momento em que a cidade deixa de ser apenas cenário e passa a ser mensagem. Na manhã deste sábado (21), a Caminhada do Bem 2026 ocupou ruas, calçadas e olhares para lembrar que inclusão não é conceito abstrato, mas presença concreta, corpo em movimento e família que insiste em existir publicamente.
Com concentração em frente à Igreja Sagrado Coração de Jesus (Igreja dos Polacos), a caminhada seguiu até Uvaranas, onde os participantes foram recebidos com hidratação e frutas. Mais do que o trajeto, o que se construiu ali foi uma travessia simbólica da invisibilidade cotidiana para uma visibilidade compartilhada.

Participante da Caminhada do Bem 2026 sorri e faz sinal de paz durante concentração do evento em Ponta Grossa que marca o Dia Internacional da Síndrome de Down. Foto: Maria Gallinea.
Um dos organizadores, Fabiano Gioppo, explica que a iniciativa nasce da articulação entre diferentes grupos e da necessidade de ampliar o debate. Segundo ele, a caminhada acompanha o Dia Internacional da Síndrome de Down, data em que tradicionalmente ações de conscientização são realizadas, mas neste ano houve um esforço coletivo entre Cavali Pró Eventos, ONG Além da Mesa e Mães Down para fortalecer o alcance do evento.
Fabiano afirma que a proposta foi expandir o convite para além da síndrome de Down, reunindo também pessoas com deficiência visual, física, intelectual e autismo. Ele destaca que é importante que todos estejam presentes, ainda que o protagonismo da data permaneça com as pessoas com síndrome de Down.
Se a organização pensa o evento como articulação, as famílias o vivem como afirmação. Maria Lúcia Malucelli, mãe de um jovem com síndrome de Down, considera a caminhada bastante importante por marcar a data e reforçar a inclusão. Ao falar do filho, ela destaca uma trajetória ativa, com participação em atividades como a natação e conquistas em competições.
Sua fala revela um equilíbrio entre reconhecer limites e valorizar potencialidades. Para ela, a inclusão ganha sentido quando se traduz em oportunidades concretas e experiências vividas, e não apenas em discursos. Ela resume a percepção com simplicidade ao dizer que considera essa abertura muito interessante e necessária.
Já Joelva dos Santos, mãe de Heloísa, de 18 anos, enfatiza a dimensão pública do evento. Para ela, a caminhada é importante porque dá visibilidade às crianças e jovens com síndrome de Down, reafirmando que eles fazem parte da sociedade e devem ser vistos.
Joelva observa que, durante o percurso, muitas pessoas reagem, olham e até aplaudem, o que transforma a experiência em um reconhecimento coletivo. Ainda assim, ela amplia o entendimento de inclusão ao afirmar que não se trata apenas de frequentar a escola, mas de ocupar todos os espaços da cidade.
Ao descrever a descida pela Avenida Vicente Machado, ela sintetiza esse sentimento ao afirmar que a avenida pertence a todos e que aquele momento é também uma forma de reivindicar esse espaço.
Sem cobrança de inscrição, a Caminhada do Bem também propõe formas de apoio à causa, como a aquisição antecipada de camisetas. Mais do que isso, o evento evidencia como ações coletivas podem tensionar a rotina urbana e produzir novos modos de convivência.
Entre passos, conversas e encontros, a caminhada revela que inclusão não é apenas uma meta futura, mas um exercício contínuo. Por algumas horas, a cidade se reorganiza e aprende, ainda que provisoriamente, a enxergar aquilo que sempre esteve ali.
