Romance de Soraya Bouazzaoui revisita a colonização portuguesa no Magrebe e expõe violações de direitos humanos que atravessam o tempo
Por Maria Gallinea

Mulher de cabelos cacheados e óculos segura o próprio livro à frente do corpo e sorri para a câmera. A capa mostra uma mulher negra com uma espada. O fundo é claro e neutro.// Foto: Arquivo pessoal de Soraya Bouazzaoui.
Aicha, romance da escritora marroquina Soraya Bouazzaoui, que será lançado em 24 de março deste ano, não se limita a revisitar um episódio histórico. A obra confronta o leitor com as estruturas de dominação colonial que seguem moldando corpos, crenças e territórios até hoje. Inspirado em um mito marroquino ancestral e ambientado na ocupação portuguesa no Magrebe, o livro se constrói como um romance histórico que opera também como denúncia política. O ELOS teve acesso antecipado à obra e à entrevista com a autora.
Mito, memória e a recusa do apagamento histórico
A personagem Aicha nasce do encontro entre mito e história. Inspirada na figura folclórica de Aicha Kandicha, frequentemente representada de forma distorcida por leituras orientalistas, a protagonista ganha, no romance, uma origem política e territorial clara. Segundo Soraya Bouazzaoui, a decisão de ancorar a narrativa no período da ocupação portuguesa não foi arbitrária.
Em entrevista ao ELOS via o aplicativo Zoom, a autora afirmou que o mito de Aicha já estava historicamente situado naquele contexto. Ela explica que existem versões conflitantes sobre a origem da personagem, mas que muitos relatos, especialmente os de tradição oral, indicam que Aicha era marroquina e amazigh. A partir disso, Bouazzaoui decidiu ambientar o romance no fim da colonização portuguesa.
A autora relata que buscou referências históricas em artigos e estudos sobre a ocupação portuguesa, mas também sobre períodos posteriores da colonização francesa e espanhola no Marrocos. Ao optar por uma cidade fictícia inspirada em El Jadida, último porto português a cair, ela afirma ter encontrado liberdade para ser “brutalmente honesta” na forma de narrar a violência colonial. Segundo Bouazzaoui, essa honestidade só foi possível porque contou com editoras que apoiaram essa abordagem sem suavizações.
Colonização como violação contínua de direitos humanos
Em Aicha, a colonização não aparece apenas como ocupação territorial, mas como um sistema que infiltra a vida cotidiana. A língua, a religião, o direito ao corpo e até o acesso à água e ao alimento são controlados. Para a autora, era fundamental evitar uma leitura da colonização como algo encerrado no passado.
Bouazzaoui afirma que leu extensivamente sobre outros contextos coloniais e cita, entre eles, a Argélia, a África do Sul durante o apartheid e a Palestina. Ela observa que a dominação colonial se reinventa, assumindo formas menos visíveis, mas igualmente eficazes. Como exemplo, menciona o controle econômico exercido por empresas francesas no Marrocos contemporâneo, que, segundo ela, limita a autonomia individual da população mesmo após a independência formal.
Na entrevista, a autora afirma que a colonização “se enterra profundamente” e que, por isso, optou por tornar essas dinâmicas explícitas no romance. Ela diz que quis “quase bater na cabeça do leitor” para evitar qualquer romantização ou neutralização da violência imperial.
Fé sob vigilância e a criminalização do cotidiano
Um dos eixos centrais do livro é a criminalização da prática religiosa. Em Aicha, professar a fé islâmica é um ato clandestino, vivido sob constante ameaça. Para Bouazzaoui, era importante mostrar a liberdade religiosa não como um direito abstrato, mas como uma experiência cotidiana atravessada pelo medo.
Ela explica que os personagens desenvolvem comportamentos automáticos de vigilância, como verificar janelas e ruas antes de rezar, sem sequer refletir sobre isso. Segundo a autora, esse tipo de hipervigilância não é uma escolha racional, mas um instinto moldado pela ocupação. Só durante o processo de edição, afirma, percebeu o quanto isso dialogava diretamente com debates contemporâneos sobre direitos humanos.
O corpo feminino como território ocupado
A violência colonial retratada no romance é profundamente marcada por gênero. O corpo de Aicha está sob vigilância constante, tanto das autoridades coloniais quanto das normas patriarcais internas à comunidade. Bouazzaoui afirma que essa escolha narrativa foi consciente.
Na entrevista, a autora diz que as mulheres são sempre as maiores vítimas da guerra e da colonização, e que seus corpos se tornam campos de disputa. Ainda assim, ela optou por não detalhar cenas de violência sexual. Segundo Bouazzaoui, a violência contra mulheres já é excessivamente explorada de forma sensacionalista na literatura e no audiovisual, e repetir isso não contribui para a compreensão do trauma.
Ela destaca que, justamente por isso, a única cena sexual explícita do livro é consensual. Para a autora, oferecer à personagem um momento de prazer foi uma decisão política. Bouazzaoui afirma que, em um mundo de violações constantes, Aicha merecia experimentar desejo e autonomia sobre o próprio corpo.
Raiva feminina como herança e resistência
A raiva de Aicha é um dos elementos mais marcantes do romance. Persistente, indomável e frequentemente punida, essa raiva não é tratada como falha moral, mas como força política. Bouazzaoui explica que vê a raiva da protagonista como algo herdado, acumulado ao longo de gerações de violência e perda.
Segundo a autora, essa fúria é, ao mesmo tempo, a maior força e a maior fragilidade da personagem. Ela afirma que a queda de Aicha era necessária para o desfecho do livro e para a vitória contra os invasores, porque histórias de resistência quase nunca acontecem sem perdas devastadoras.
Bouazzaoui também reconhece um componente pessoal nessa construção. Ela relata que vem de uma família de mulheres “raivosas”, com língua afiada e pouca tolerância à submissão. Para ela, essa raiva sempre foi uma ferramenta de sobrevivência, algo a ser cultivado, não reprimido.
Violência, resistência e o desconforto da história
Ao final, Aicha se posiciona de forma clara sobre a resistência armada. Bouazzaoui afirma que a história frequentemente apaga ou condena os aspectos violentos das lutas anticoloniais, mesmo quando eles foram fundamentais para a libertação de povos inteiros.
A autora espera que os leitores questionem essa narrativa. Ela afirma que um opressor não se comove com o sofrimento do oprimido e que, historicamente, a resistência armada foi uma ferramenta necessária contra o colonialismo. Bouazzaoui acrescenta que espera que o livro contribua para debates contemporâneos sobre memória colonial, islamofobia e, especialmente, sobre a Palestina.
Aicha é uma obra que recusa a neutralidade. Ao fundir mito, história e denúncia, Soraya Bouazzaoui constrói um romance que ultrapassa os limites da ficção histórica e se insere no campo dos direitos humanos. O livro não oferece conforto, nem conciliação. Oferece memória, raiva e a recusa em esquecer.
Informações sobre o livro
Editora: Orbit
Idioma: Inglês
Data de publicação: 24 de março de 2026
Valor do livro para kindle: R$ 28,87
Valor do audiolivro: R$ 86,99
Valor do livro físico: Ainda sem valor
