“As cotas abrem portas!”: Audiência Pública pela Lei de Cotas é realizada em Ponta Grossa

Ato de resistência mobilizou ativistas e estudantes de instituições públicas paranaenses

Por Ana Luísa Runho e Maria Eduarda Almeida

Na última sexta-feira (08), a comunidade universitária participou de uma Audiência Pública pela Lei de Cotas, no Campus Central da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). A organização foi realizada pela União Paranaense dos Estudantes (UPE) em parceria com o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UEPG. Durante o evento, foram apresentadas falas de representantes da luta racial, que se reuniram com o objetivo de cobrar um posicionamento do Poder Legislativo do Paraná acerca da aprovação da Lei de Cotas, Projeto de Lei n° 152/2026, assinado pelo deputado estadual Renato Freitas (PT).

A mesa foi composta pela professora Ione Jovino, Pró-Reitora de Assuntos Estudantis da UEPG; o ativista José Luiz Teixeira, presidente do Instituto Sorriso Negro dos Campos Gerais (ISNEC); a professora Megg Rayara Gomes, primeira travesti negra a obter um doutorado pela UFPR; a vereadora Miss Preta (PT), única mulher negra da Câmara dos Vereadores de Pinhais; Ligiane Ferreira, autora do projeto Glória do Meu Quilombo – A Importância de Carolina Maria de Jesus; o estudante Victor Leonardo, representante da União Nacional dos Estudantes Secundaristas (UBES); e a militante Aymê Alves, do coletivo 4P (Poder Para o Povo Preto), grupo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O evento foi conduzido pela estudante de história Ludimila Cruz, diretora da UPE.

Entre os presentes, estavam o Coletivo Juntos, a União da Juventude Socialista (UJS), o Levante Popular da Juventude e outros movimentos que estão atuando na linha de frente da causa. Estudantes vindos de todo o Paraná também compareceram à audiência, como os alunos da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) de Guarapuava e os DCEs da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR). 

Movimentos levantam suas bandeiras em apoio à causa das cotas. (Foto: Maria Eduarda de Almeida)

A audiência também foi realizada em razão do avanço do Projeto de Lei de autoria do deputado estadual Ricardo Arruda (PL), o PL nº 25/2026, que tem o objetivo de vetar a reserva de vagas por meio de cotas e outras ações afirmativas pelas instituições de ensino superior públicas ou que recebam verbas públicas no Paraná. Os discursos demonstram preocupação com a progressão do Projeto de Lei na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP), e destacam o retrocesso que ele representa para a luta por direitos da população negra e indígena do estado, que já enfrenta repressões diárias. Em Santa Catarina, esta proibição foi sancionada em janeiro e, em abril, foi declarada inconstitucional por unanimidade no Supremo Tribunal Federal (STF). 

“Enquanto houver uma carteira vazia em uma universidade, nós lutaremos para que um negro, uma negra, um indígena possa sentar nessa carteira”, diz José Luiz Teixeira, do Instituto Sorriso Negro. (Foto: Maria Eduarda de Almeida)

Os convidados da mesa saíram em defesa das políticas públicas de cotas e de permanência estudantil, que recebem críticas de uma parcela dos políticos do Paraná. Foi evidenciado que essas políticas, atualmente, garantem o acesso à educação de parte dos universitários, que dependem de ações como a bolsa permanência e a moradia estudantil para que possam se manter em seu curso e obter sua profissionalização com dignidade. Os presentes destacaram também a importância da mobilização dos estudantes, que é um ponto crucial na luta pelas cotas no Paraná, e vem sendo enérgica em todo o estado, com os movimentos estudantis. 

O estudante Victor destacou que a universidade é a única oportunidade que muitos brasileiros têm de obter uma mudança de vida, e reforçou o poder que o estudo pode ter sobre a vida de um jovem que enfrenta uma situação de vulnerabilidade social. “Estar na universidade é um ato revolucionário, e os estudantes serão a pedra no sapato de quem tentar tirar nosso direito à educação”.

A vereadora Miss Preta ressaltou ainda que os estudantes periféricos são incentivados a abandonar seus estudos e não almejar realizar um curso superior, o que contribui para a segregação social e reforça ainda mais o racismo estrutural ao precarizar o acesso ao ensino pela população vulnerável.

“Conhecimento é poder. Estudo é poder. A população periférica deve ocupar esses espaços”, declara Miss Preta. (Foto: Maria Eduarda de Almeida)

Durante o debate com o público, os estudantes trouxeram pontos que haviam ou não sido discutidos anteriormente na audiência, e criaram um local de resistência e reivindicação de direitos. O evento foi reconhecido como um espaço de união e organização da comunidade universitária do Paraná, que teve um momento de compartilhamento de vivências, relatos e ideais em comum. “Estamos aqui para barrar um projeto de lei nefasto, que tenta derrubar uma política de cotas sob a justificativa de mérito”, manifestou Edson Soares, acadêmico da UTFPR.

A diretora da União Paranaense dos Estudantes explicou que a audiência teve o objetivo de documentar a luta dos estudantes. A mobilização foi sintetizada em um abaixo-assinado, disponibilizado em forma de QR code durante a audiência. “Iremos pegar todas essas assinaturas e mostrar para a ALEP que os estudantes estão se movimentando, que esta força realmente existe e que nós queremos sim transformar as cotas em lei”, disse Ludimila. Ainda é possível realizar assinaturas, que servirão como uma forma de materializar a resistência dos acadêmicos contra a suspensão de seus direitos.

 

 

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