Benzimento na rua reafirma tradição e ancestralidade em Ponta Grossa

Ato realizado no Calçadão une cultura, fé e denúncia contra a intolerância religiosa

Por Guilherme Roza e Maria Gallinea

21 de março é marcado como Dia Internacional Contra a Discriminação Racial e Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé. Neste sábado (21), às 14 horas, foi realizado um benzimento na rua com a participação de uma roda de capoeira no Calçadão de Ponta Grossa para celebrar a data.

Dados do Disque 100, canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), registram que no Brasil, entre janeiro de 2025 e 2026, as religiões de matriz africana, Umbanda e Candomblé, foram as maiores vítimas de intolerância religiosa e racismo religioso estrutural. O problema é resultado de um longo período de colonização, que perpetuou ataques a símbolos sagrados, depredações e agressões verbais. 

A Lei 14.532/2023, publicada em janeiro de 2023, aponta que qualquer ato ou tratamento dado a algum indivíduo ou grupo minoritário que gere humilhação, medo ou exposição desnecessária, e que geralmente não se destinaria a outros grupos sociais em razão de sua religião, cor ou ancestralidade, deve ser considerada como um ato discriminatório. A pena tornou-se mais rígida, com previsão de reclusão de dois a cinco anos, além de multa e impossibilidade de pagamento de fiança.

Cartazes com mensagens contra intolerância religiosa são expostos no Calçadão de Ponta Grossa durante ato em defesa das religiões de matriz africana. Foto por Maria Gallinea.

Alana Batista Costa, mãe-pequena do Terreiro de Umbanda Pai José de Aruanda, relata que o objetivo do benzimento em um espaço público e movimentado é reafirmar à população que no município também há cultura de matriz africana, além de levar tradição às ruas. “Historicamente os terreiros foram apagados, mas eles sempre foram do povo, sempre foram da rua. Nasceram na rua. Queremos mostrar que também fazemos parte da cultura do país”, revela a umbandista.

Integrantes do grupo Muzenza realizam roda de capoeira durante o benzimento, unindo cultura e resistência no centro da cidade. Foto; Maria Gallinea.

Um dos elementos que marcou o encontro foi a ocupação simbólica do espaço público por práticas historicamente marginalizadas. Durante o benzimento, ervas, cantos e gestos de cuidado foram compartilhados com quem passava pelo Calçadão, aproximando curiosos e participantes em uma experiência coletiva de escuta e respeito. A roda de capoeira, formada ao lado, reforçou a dimensão ancestral como algo vivo e em movimento, conectando espiritualidade, cultura e resistência na área central da cidade.

O ato foi organizado pelos terreiros de Umbanda Pai José de Aruanda e Boiadeira 7 Porteiras, o Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Ponta Grossa (COMPIR PG) e o Conselho Municipal dos Direitos LGBT de Ponta Grossa, o Instituto Sorriso Negro dos Campos Gerais e o Grupo Muzenza de Capoeira, com o objetivo de honrar a ancestralidade e mostrar que a herança cultural continua viva. 

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