A peça de teatro envolveu o público com experiência sensorial, participação de crianças e histórias construídas por atores com deficiência visual.
Por Leonardo Correia
Na última quinta-feira,(13), às 14h, o Centro de Estudos Cênicos Integrado (Teatro CECI) recebeu o espetáculo “Estórias para Thalita”, do Grupo Teatral da União dos Deficientes Visuais (Unidev). A apresentação integrou o 53º Festival Nacional de Teatro (Fenata), realizado ininterruptamente desde 1973 e que compõe o calendário oficial da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). O evento teve entrada gratuita. Antes do início da peça, os organizadores promoveram uma visita guiada pelo teatro, explicando a estrutura e os recursos disponíveis ao público. Ao final, os espectadores participaram de uma conversa com os atores e a equipe.

Incluir pessoas cegas significa garantir autonomia, segurança e participação real. Isso passa por materiais acessíveis, piso tátil contínuo, audiodescrição, tecnologia adaptada e ambientes que não dependam só da visão. Foto: Leonardo Correia
Uma semana antes da apresentação oficial, cerca de 100 alunos da faixa etária de 13 a 15 anos do Colégio Estadual Cívico-Militar Alcides Munhoz da cidade de Imbituva-PR foram convidados a acompanhar o ensaio do espetáculo. Além de assistirem à prévia da peça, eles participaram de uma dinâmica de sensibilização, na qual tiveram os olhos vendados e puderam se orientar usando as mesmas cordas de marcação instaladas no chão que os atores utilizam durante a cena. A atividade teve como objetivo aproximar o público jovem da experiência sensorial vivida pelos artistas.
A montagem conta a história de Leonardo Corrêa, um homem gaúcho, e de sua neta, Thalita. As narrativas percorrem diferentes regiões do Brasil e incluem a lenda de formação do Parque Vila Velha. Em cena, Leonardo apresenta um baú com objetos que remetem às suas memórias, enquanto a neta acompanha cada relato com atenção. Apesar do enredo leve e encantador, um dos elementos mais marcantes do espetáculo são as adaptações de acessibilidade incorporadas ao palco, que possibilitam o trabalho dos atores Marcos Pesck e Sionara de Abreu, ambos com deficiência visual. Cordas posicionadas no chão delimitam o espaço cênico e conectam os principais elementos da história, da mesa ao baú onde estão os objetos, passando pelo tapete que Thalita se senta para ouvir o avô.

Segundo o portal Bem Paraná, no estado, 369.861 pessoas têm “dificuldade permanente para enxergar” (equivalente a 3,3% da população de 2 anos ou mais). Foto: Leonardo Correia
A diretora do Teatro CECI, Eloisa Frehse Pereira, relatou a experiência de acompanhar o desenvolvimento da companhia ao longo dos anos. “O grupo chegou até mim, não fui eu que caminhei até ele. Veio como um desafio, que aceitei, e desde 2008, estou como voluntária. Mesmo sem formação específica para trabalhar com pessoas cegas, eles me ensinaram o que é enxergar com o coração”, afirmou. Eloisa também destacou que as marcações com cordas e parte da sonoplastia foram criadas pelo próprio Marcos, intérprete de Leonardo, enquanto o figurino da personagem Thalita foi idealizado por Sionara.
Durante o bate-papo com o público, Marcos compartilhou sua trajetória. Ele nasceu com Síndrome de Alport, condição genética que afeta rins, audição e visão. Aos seis anos, perdeu totalmente a visão do olho direito e manteve apenas 5% no esquerdo. “Mas isso não me impediu de estudar. Estudei e fiz faculdade”, contou. Marcos é graduado em Ciências Contábeis (2009) e iniciou sua relação com o teatro em 2011. “Entrei e nunca mais saí”,ressaltou.
Sionara também relatou sua história. Graduada em Pedagogia desde 2008, ela conheceu a Unidev após concluir o curso. “Apareci só para dizer oi e nunca mais parei. Estou muito feliz de estar aqui”, afirmou.
Os dois artistas comentaram ainda episódios de preconceito vividos ao longo da trajetória no teatro por serem pessoas com deficiência visual. Apesar dos desafios, reforçaram o compromisso com a arte e a continuidade do trabalho. Com a apresentação realizada, “Estórias para Thalita” chegou à sua quarta exibição e a primeira dentro da programação oficial do Fenata.
