Das telas ao debate: o cinema brasileiro e a reflexão cidadã

Poster do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol. Imagem: Banco de conteúdos culturais.

Por: Isabelly Costalonga e Malu Dip

A Resolução Nº 7, de 18 de dezembro de 2018, que estabelece as Diretrizes para a Extensão na Educação Superior Brasileira, reforça o compromisso das instituições de ensino com a articulação entre ensino, pesquisa e extensão. Ao tornar obrigatória a participação dos estudantes em atividades extensionistas ao longo da graduação, a normativa amplia as possibilidades de explorar temas que nem sempre as disciplinas conseguem desenvolver. 

De acordo com o Portal de Dados Extensionistas da Diretoria de Extensão da Universidade Estadual de Ponta Grossa, desde 2016 até o momento, foram registradas 56 iniciativas de extensão relacionadas ao cinema, incluindo eventos, projetos e mostras, relacionando diferentes cursos da instituição. Neste contexto, destaca-se o evento de extensão integrado ao curso de Direito da UEPG, Cine Jurídico, que surgiu no começo de 2024. 

De acordo com o professor de Direito Pedro Fauth, o público alvo desses eventos são estudantes, não só do curso de Direito, mas também de diversas faculdades da região dos Campos Gerais. A ideia é que as produções cinematográficas exibidas possibilitem o debate sobre aspectos que interferem na realidade. “A gente exibe de oito a 10 filmes por semestre, de assuntos que permeiam política, social e juridicamente a atualidade, como por exemplo, a ascensão do neonazismo. As exibições acontecem no auditório do Cine-teatro Pax e em geral, as últimas edições tiveram de 40 a 50 alunos inscritos”, explica o professor a respeito do funcionamento do evento extensionista. 

Para Gabriel Mangoni Mello, estudante de Direito da UEPG e participante do Cine Jurídico desde o final do ano passado, as discussões proporcionadas pela iniciativa agregam conhecimentos além dos adquiridos em sala de aula. Segundo ele, os debates realizados após a apresentação dos filmes possibilitam um melhor entendimento social sobre acontecimentos do mundo, como também o contato com filmes que se não fosse através do evento, talvez nunca seriam assistidos. “O principal ganho foi aprender a fazer uma análise, síntese e exposição sobre o que foi entendido das obras apresentadas”, concluiu. 

Cinema Brasileiro: origem e transformações

De acordo com dados da Academia Internacional de Cinema e da Agência Nacional de Cinema (ANCINE), um dos marcos iniciais do cinema brasileiro foi o surgimento da primeira sala aberta ao público, no Rio de Janeiro, por influência dos irmãos italianos Paschoal e Affonso Segreto. As exibições traziam filmes curtos que retratavam o cotidiano europeu, sendo a primeira delas realizada em julho de 1896 com os filmes dos irmãos Lumière, pioneiros da fotografia e criadores do cinematógrafo, máquina filmadora e que projetava imagens em movimento. No âmbito nacional, a primeira produção foi filmada em 1898 pelos irmãos Segreto, nomeada “Uma Vista da Baía de Guanabara”.

Ao longo do século XX, o cinema brasileiro atravessou diferentes fases, marcadas por tentativas de consolidação como indústria, movimentos artísticos e crises. Após o período conhecido como “Era de Ouro”, que ocorreu de 1930 a 1950, momento em que as companhias Atlântida Cinematográfica e Vera Cruz se destacaram com musicais, chanchadas e comédias, a produção nacional enfrentou entraves técnicos e financeiros que limitaram sua consolidação. Diante desse cenário, intelectuais e cineastas buscaram novos caminhos, o que resultou na criação do Cinema Novo, movimento inspirado pelo neorrealismo italiano e pela Nouvelle Vague francesa. Seu objetivo era romper com os padrões hollywoodianos e retratar, em linguagem própria, os dilemas da realidade brasileira. Filmes como Rio 40 Graus (1955), Vidas Secas (1963) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) são considerados marcos desse processo.

Após o golpe militar de 1964, o Cinema Novo passou a refletir a frustração da esquerda e a crise dos intelectuais diante da impossibilidade de realizar a revolução. Filmes como O Desafio e Terra em Transe marcaram essa nova fase, com narrativas mais simbólicas e pessimistas sobre o futuro do país. O Cinema Novo foi, acima de tudo, uma forma de repensar o Brasil através da arte, questionando as estruturas sociais e políticas por meio de um cinema crítico e inovador.

Mesmo sob a ditadura militar, o governo financiava filmes através da empresa estatal Embrafilme, mas mantinha o controle por meio da censura. O professor Pedro Fauth comenta que os órgãos responsáveis pelo controle eram a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e Serviço Nacional de Informações (SNI). “Todos eles eram subordinados ao Ministério da Justiça, realizando o controle e a limitação do pensamento crítico e até mesmo jornalístico da época”, explica. O profissional afirma ainda que para driblar a censura, os artistas precisavam usar a imaginação, criando obras singulares com o uso de metáforas, para conseguirem passar suas mensagens, mesmo que de forma subliminar. 

Dessa maneira, a trajetória do cinema brasileiro demonstra sua relevância como ato de resistência no campo artístico e, simultaneamente, como instrumento de reflexão social, política e defesa dos direitos humanos. Em um contexto marcado por censura, tortura e perseguição, muitos cineastas denunciaram, mesmo que não explicitamente, por meio de suas obras, a violência do Estado, a desigualdade social, o racismo, a marginalização das classes populares e a falta de liberdade de expressão. Ainda hoje, o cinema brasileiro cumpre um papel essencial, mostrando, sob novas formas e perspectivas, a complexidade da realidade nacional e os desafios persistentes na luta por justiça social e democracia em obras mais recentes e aclamadas pelo público, como como “Cidade de Deus”, “Que Horas Ela Volta?” , “Tropa de Elite” e muitas outras.

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