Educadoras, militantes e professoras compartilham relatos e práticas que evidenciam a urgência de uma educação como instrumento contra o racismo desde a infância.
Por Natalia Almeida e Pietra Gasparini
“Quando eu quis ser a Virgem Maria na apresentação de Natal, a sala toda riu. ‘A Virgem Maria preta? E com esse cabelo aí?’ A professora não tinha formação para dizer: ‘Não, ela vai ser, sim, a Virgem Maria do presépio’. A partir daquilo, eu, enquanto criança, nunca mais levantei a mão para ser qualquer coisa naquela escola, porque fui silenciada. E, igual a mim, quantas outras crianças não são silenciadas?”, esse é o relato da educadora social e militante Christiane de Fátima Zelenski, que quando criança era a única menina preta da sua escola. Isso reflete a vivência de crianças e adolescentes pretos em ambientes escolares de todo o Brasil, a hostilidade e o racismo estrutural que enfrentam no espaço de formação.
Hoje, dia 20 de novembro, se comemora o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. A data escolhida marca o dia da morte de Zumbi dos Palmares, líder quilombola e símbolo máximo da resistência afro-brasileira. Mesmo que o mês de novembro tenha sido escolhido para representar simbolicamente essa luta, é importante lembrar que a história do povo preto no Brasil é marcada por séculos de resistência e enfrentamento. Os quase 400 anos de escravidão já mostram a profundidade das violências sofridas que não terminaram com a abolição. Esses acontecimentos compõem um percurso histórico de resistência diante do racismo estrutural brasileiro. Por isso, fica evidente que discutir racismo apenas uma vez por ano não basta, é um compromisso diário, contínuo e essencial para transformar a sociedade. Nenhuma transformação se faz sem educação e a educação antirracista envolve estratégias pedagógicas, curriculares e organizacionais que buscam promover a igualdade racial e combater todas as formas de discriminação, tanto individual quanto institucional, transformando o ambiente escolar em um espaço de conscientização e mudança.
Nesse sentido, a Secretaria de Cultura de Ponta Grossa promoveu no CINE PG, uma formação com professores durante a programação da semana da consciência negra. Com a exibição do filme Selma, que retrata a luta de Martin Luther King Jr. e de outros ativistas pelos direitos civis da população negra nos Estados Unidos. Após o filme foram chamadas a educadora social e militante Christiane de Fátima Zelenski e a assistente social e vice-presidente do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (COMPIR-PR), Jaqueline Simone Barbosa Lopes, que promoveram uma palestra e um debate com os professores presentes.
Debate pós exibição do filme Selma no Cine PG. Foto: Pietra Gasparini
“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”
Christiane de Fátima Zelenski, mulher preta, integrante do Conselho da Mulher, membro do Instituto Sorriso Negro e da Secretaria do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Ponta Grossa (COMPIR-PG), relembra o provérbio africano: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Para ela, a educação antirracista é responsabilidade de toda a sociedade. “Se cada uma das professoras que está aqui puder, em suas aulas, transformar o olhar para uma criança preta, acolher uma criança preta como ela precisa ser acolhida, ouvi-la, isso já é um começo. A escola é o primeiro contato de uma criança com o racismo. Quando uma criança preta sofre racismo, ela é desumanizada e precisa ser acolhida”, afirma.
Zelenski ressalta também a importância das cotas raciais, visto que durante muito tempo, a população negra não teve direito à educação. “O nosso povo não tinha direito a nada. Quando conseguimos, foi à base de muita luta. Também não queremos cotas para sempre, queremos cotas enquanto não houver equiparação. Essa reparação ainda está barata, ainda está muito barata pelo que se deve ao povo preto”, destaca. Ela reforça que o letramento racial, embora não seja uma solução definitiva, é essencial para questionar e problematizar a ausência de pessoas negras em espaços de ensino, especialmente no ensino superior.
A militante lamenta a diferença de tratamento entre crianças brancas e negras no ambiente escolar. “Vi uma postagem da página Pais Pretos: eles reuniram um grupo de pais que contavam como presenteiam professoras, mandam os filhos extremamente arrumados, penteados, cheirosos. Eles têm um cuidado exagerado com o material escolar para que a professora se aproxime mais daquela criança. Imaginem: isso é adoecedor. Ter que cuidar três vezes mais do cabelo, ter mais atenção com tudo, porque aquela criança precisa ser vista como a melhor sempre. ‘Está limpinha, está cheirosa, então a professora vai chegar mais perto’. É cruel. É adoecedor”, desabafa.
A diferença de tratamento entre crianças brancas e pretas é reforçada pela história da assistente social, vice -presidente do COMPIR. Conselheira no CONSEPIR pelo CRESS e membra do Comitê Paranaense de Assistentes Sociais Combate ao Racismo, Jaqueline Simone Barbosa Lopes. “Eu vivi isso na minha vida. Eu tinha enxaquecas horríveis, porque a minha mãe amarrava meu cabelo tão forte, ela pensava que se eu fosse com o cabelo armado pra escola, eu iria sofrer”. A assistente social conta que, há um tempo atrás, sua mãe pediu perdão por esses acontecimentos e foi durante essa conversa que Lopes pode a perdoar e entender a razão de tudo isso. Ela ressalta que é esse tipo de coisa que quer que acabe, é necessário quebrar o ciclo. “A gente quer que as meninas, por exemplo, a minha filha, que tem três anos agora, que ela chegue na minha idade e não tenha a mesma dor que eu tive Que ela não precise tratar uma coisa lá da infância”, afirma.
A luta de permanecer
Além disso, Jaqueline também compartilhou os desafios que enfrentou ao longo de sua formação e carreira profissional. Ela relata que, muitas vezes, quando uma pessoa preta conquista um espaço de liderança, enfrenta obstáculos constantes que dificultam sua permanência. “É sempre assim. Quando você consegue conquistar esse espaço, é durante muita luta, é durante muito, mas muito esforço. Coisas que uma pessoa branca consegue em uma década, nós temos que lutar em 30 anos”, desabafa. Jaqueline conta que precisou validar constantemente seu potencial, enfrentando questionamentos sobre sua capacidade apenas por ser mulher preta. Ela relembra sua trajetória acadêmica na universidade pública. “Sabe quantas pessoas negras tinham na minha turma de 44 acadêmicos? Apenas eu e mais três. E desses três, dois eram de baixa renda. Tivemos muito para lutar para conseguir nosso diploma”. Para ela, essas experiências mostram não só a necessidade das políticas afirmativas, como também a importância de reconhecer e valorizar o potencial das pessoas negras em todos os espaços.
O papel da escola e dos professores na prática antirracista
A professora do Infantil, Tauane Cristhiane Roldam Molo, mulher preta, reforça a importância de um protocolo municipal para que os professores saibam o que fazer em casos de racismo. “Você leva a criança que praticou racismo para a gestão e a criança vai levar um xingo e acabou. Racismo é crime, deveria existir um protocolo e uma formação sobre como trabalhar nas escolas casos de racismo e para onde direcionar, é o mínimo”, afirma. A educadora ressalta que a escola é um lugar que tem o poder de mudar a perspectiva das crianças e precisamos aproveitar isso, saindo da ideia de trabalhar a discussão racial e pegar só a questão tribal, só as máscaras africanas, sem ao menos saber de qual país isso é, qual a cultura específica, “Não mostra uma referência, trabalha o Zumbi por cima, invizibiliza dandara, invisibiliza várias questões. Precisamos trabalhar isso com responsabilidade. É um dos únicos espaços que se tem para fazer esse tipo de discussão, porque às vezes em casa tem outro tipo de cultura”. Ela reforça a necessidade de que todos entrem nessa luta. “Precisamos de aliados brancos para fortalecer, é muito fácil falar que apoia mas quando tem um ato está em casa dormindo”, afirma.
A professora Ana Cláudia Oliveira, Professora do quinto ano, mulher preta, explica que trabalha na zona rural, e que em sua sala tem alunos pardos mas nenhum aluno que se declare como preto. “Eu trabalho muito a questão do racismo, da homofobia. Acho que é muito importante você professor se despir desses preconceitos, e se dispor a ensinar”. Ana Claudia conta que trabalha os Contos e a cultura afro, ensinando também sobre as diferentes religiões, porque as religiões de matriz africana enfrentam muito preconceito. “O Brasil é um país de maioria mestiça, temos que abrir os olhos e trabalhar essas questões. Temos que ter um trabalho anti racista com as crianças o ano inteiro, não só em novembro”, ressalta.
A professora da educação infantil, Josilene Brás, mulher preta, fala sobre a importância de pessoas brancas também lutarem por uma educação antirracista. “Agora um papo reto com as professoras brancas aqui presentes, não é da responsabilidade apenas das professoras negras tratarem esse assunto. Vocês também podem tomar a frente, claro, com respeito, tomando cuidado com a apropriação cultural, saber de onde vocês estão pesquisando, trazer essas referências com clareza pras nossas crianças”. Além disso, a profissional compartilha uma prática que trabalha com seus alunos, que são ateliês de culturas afro. “Quando a gente fala de trabalhar essas questões dentro da sala de aula, a gente não pode só ficar preso à teoria. Então trazer ervarias que são da cultura afro, da cultura afro-indígena. Colocar essas crianças em contato com a terra, porque isso também é aquilombá, né? Os meus ancestrais, eles nos ensinaram a nos conectar com a terra“.,finaliza a educadora.
