Percurso realizado evidencia a presença negra no município
Por: Julia Smaka e Guilherme Roza

Foto: Guilherme Roza
Na última quarta-feira (25), a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou uma resolução que declara a escravidão como o mais grave crime contra a humanidade. Em Ponta Grossa, na manhã desse sábado (28), o Rota Preta, iniciativa extensionista da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) realizada com apoio do Museu Campos Gerais (MCG), realizou mais um percurso cultural da ação que tem como objetivo reconhecer locais que fazem parte da história negra do município.
O trajeto abrangeu cerca de quinze pontos da zona central da cidade e contou com a participação de 13 acadêmicos dos cursos de bacharelado e licenciatura em História da UEPG. O percurso foi guiado por uma das idealizadoras do projeto e também professora de História, Merylin Ricielli, que apresentou lugares importantes para a comunidade negra local e mencionou pessoas afrodescendentes que lutaram por seus direitos e por espaço na sociedade.
Durante o caminho, iniciado na Catedral Sant’Ana, foram indicadas antigas sedes do Clube Literário Recreativo 13 de Maio, fundado logo após a abolição da escravatura, marcando um movimento de inclusão e resistência de pessoas negras ex escravizadas em Ponta Grossa. No clube, elas se reuniam uma vez por semana com o intuito de se integrar na sociedade, realizando atividades que eram restritas a brancos, como reuniões de poetas, escritores e músicos em festas e saraus. O clube está localizado na Rua General Carneiro, e leva o nome em referência à data da Abolição da Escravatura no Brasil, reconhecida como um marco da luta por igualdade, respeito e dignidade.
Segundo Merylin, o reconhecimento do crime da escravidão pela ONU é algo que movimentos negros já lutavam para acontecer. “Essa decisão da ONU é resultado de discussões anteriores que já sinalizaram para isso”, observa. A professora, contudo, destaca a importância do fato, pois a escravidão impactou toda a dinâmica mundial e não está restrita a um território. “Eu acho que isso responde à questão da invisibilidade da população negra na história e, sobretudo, sinaliza a grande diferença entre o que foi o processo escravista e também alguns movimentos migratórios, que são coisas completamente diferentes”. Para ela, a história dos crimes da escravidão permite refletir sobre o significado da recente decisão da ONU.

Símbolos de resistência negra são mencionados em ação realizada desde setembro de 2024. Foto: Guilherme Roza
Ligiane Ferreira, filha de um morador do quilombo Sutil e autora de um projeto sobre a importância de Carolina Maria de Jesus, parte da sua história familiar para reivindicar reconhecimento ao local que sofre até hoje o abandono social e governamental. “Estamos passando por uma briga pela água. É 2026 e ainda falamos sobre coisas básicas. A escola quilombola, que é um direito da população negra, por exemplo, foi retirada de lá”, revela.
Ela também analisa o apagamento que pessoas pretas sofrem. “Tem uma frase que diz que a felicidade do branco é plena e a felicidade do negro é quase. Poucas pessoas falam sobre a participação de pessoas negras no desenvolvimento da cidade e é por isso que um projeto como o Rota Preta é fundamental para demarcar e pontuar espaços da nossa história que não devem ser apagados”, destaca Ligiane.
Para Benício Macedo, estudante de Licenciatura em História, o projeto é importante para aqueles que não são da cidade. “Achei o Rota Preta bem interessante, eu não sou daqui de Ponta Grossa, então isso me ajuda a conhecer mais a cidade e o contexto histórico do povo negro”, diz.
Outros quatro circuitos serão realizados, sendo mais um na região urbana central, dois em regiões urbanas periféricas, contemplando os bairros de Olarias e Uvaranas, e um futuro percurso rural integrando as comunidades remanescentes de quilombo.
