Novas regras da CBV proíbem a participação de atletas trans no vôlei feminino

Enquanto a Confederação Brasileira de Voleibol passa a exigir teste genético e sexo biológico para a categoria feminina, revisões médicas apontam ausência de vantagem esportiva para atletas trans

por Leonardo Correia

A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) passa a adotar em suas competições nacionais de quadra e praia os critérios da nova política do Comitê Olímpico Internacional (COI), para a elegibilidade na categoria feminina. A medida restringe a participação a atletas trans e estabelece a realização de triagem genética para identificar a presença do gene SRY, associado ao desenvolvimento sexual masculino. 

A mudança substitui os critérios anteriores da CBV, que permitiam a participação de mulheres trans mediante a manutenção dos níveis de testosterona abaixo de 5 nmol/L. A nova regra afeta as competições nacionais organizadas pela CBV, como a Superliga, a Copa Brasil e a Supercopa, a partir da temporada 2026/2027. A aplicação da nova política em competições estaduais ainda precisa ser esclarecida pelas respectivas federações. 

Para a levantadora do FluxoVolley, Stella Dmenjon, a mudança pode representar o fim de sua trajetória competitiva no vôlei feminino. “Se todos os campeonatos seguirem essa normativa, será a minha aposentadoria do voleibol competindo”, lamenta. A atleta, porém, diz que continuará praticando o esporte. “Jamais vou deixar de praticar o voleibol, porque é um esporte que amo, mas se eu for impedida de competir nas ligas femininas, me despeço das competições, me sentiria muito humilhada em jogar no masculino”, relata. 

A mudança ocorre meses após o caso de Tifanny Abreu, que também colocou em evidência a participação de mulheres trans no vôlei paranaense. Em fevereiro, a participação de Tifanny Abreu na Copa Brasil de Vôlei, em Londrina, gerou contestação após a Câmara Municipal aprovar veto à atleta com base na Lei Municipal nº 13.770/2024 que restringe a participação de atletas que não se identificam com o sexo biológico. Em resposta, a Confederação Brasileira de Voleibol CBV acionou a Justiça, e decisões do Tribunal de Justiça do Paraná e do Supremo Tribunal Federal (STF) garantiram a presença da jogadora no torneio.

Para Stella, o vôlei é mais do que um esporte. É o lugar onde ela encontra liberdade. A atleta começou a praticar vôlei de quadra em 2009, em Cândido de Abreu, sua cidade natal. Anos depois, já em Ponta Grossa, passou a disputar campeonatos masculinos “O vôlei é onde eu consigo me expressar, me sinto melhor, e ensinou tudo na minha vida. Me ensinou a ter empatia, liderança e saber escutar”, conta Stella. 

A atleta deixou de competir em 2019, deu início à sua transição de gênero em 2021 e retornou às quadras em 2022. No ano seguinte, ainda integrando equipes masculinas, percebeu dificuldades para acompanhar a velocidade e a força exigidas na categoria. Stella, então, passou a atuar na comissão técnica. Em 2025, iniciou oficialmente sua participação em equipes femininas. 

A mudança de categoria, segundo ela, não foi marcada por dificuldades de acolhimento. “Não tive dificuldades para me inserir no feminino e fui bem aceita”, afirma. O principal obstáculo que ela enfrentou fora das quadras foi a burocracia. “O mais complicado foi a parte documental, por causa da retificação do nome”, reclama. A retificação de nome e gênero pode ser realizada diretamente em Cartório de Registro Civil de Pessoas Naturais, sem a necessidade de processo judicial, advogado ou cirurgia, conforme regulamentação do Conselho Nacional de Justiça. 

Foto: Arquivo Pessoal

Situação no Paraná

 

A Federação Paranaense de Voleibol (FPV) esclareceu em nota a reportagem que seguia os critérios antigos estabelecidos pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) para a participação de atletas trans em competições femininas. De acordo com a regulamentação, a atleta deveria comprovar que manteve o nível total de testosterona no sangue abaixo de 1,44 nanogramas por mililitro (ou 5 nmol/L) por pelo menos 12 meses antes da primeira competição. Os exames precisavam ser realizados em laboratórios credenciados por programas de qualidade reconhecidos pela Sociedade Brasileira de Patologia Clínica ou pela Sociedade Brasileira de Análises Clínicas. O cumprimento dos critérios devia ser acompanhado por novos testes e caso as condições não fossem mantidas, a elegibilidade para competições femininas poderia ser suspensa por 12 meses.

Stella explica que precisa manter os níveis hormonais dentro dos parâmetros exigidos, o que é uma preocupação constante. “Acho que o mais difícil é manter a taxa hormonal. Eu tomo minha medicação certinha, então não vai acontecer. Mas é um medo”, afirma. 

Na última quinta-feira (27) a FPV publicou a Nota Oficial nº 138/2026, na qual esclarece os critérios para a participação de atletas transgênero nas competições estaduais. Segundo a entidade, os campeonatos da temporada 2026 que já foram iniciados manterão as condições de participação previstas nos regulamentos vigentes no momento de seu início. As atletas que obtiveram regularmente sua condição de participação continuarão submetidas às regras e aos procedimentos aplicáveis às competições em que estão inscritas.

Para a temporada 2027, a Federação informa que deverá adequar seus regulamentos à política de elegibilidade adotada pela CBV. A FPV utiliza o sistema de registro da Confederação, responsável pela validação nacional dos registros e pela análise de elegibilidade das atletas. Dessa forma, a Federação estadual afirma que não estabelece isoladamente critérios médicos, hormonais ou laboratoriais para determinar a condição de participação.

A entidade informou ainda que quatro atletas transgênero no Paraná já tiveram seus registros e condições de participação validados pela CBV. Atualmente, uma delas permanece regularmente inscrita e participa do Campeonato Paranaense Adulto Feminino, cumprindo as exigências de acompanhamento e envio periódico dos exames laboratoriais previstos na regulamentação pela qual obteve sua condição de participação.

A FPV também anunciou que pretende encaminhar à CBV uma proposta de regra de transição para atletas que já possuíam registro e elegibilidade reconhecidos pela Confederação antes da entrada em vigor da nova política. A proposta prevê que essas atletas possam ter a condição de participação preservada, permanecendo submetidas às exigências médicas, laboratoriais e de acompanhamento que forem determinadas pela CBV.

Segundo a Federação, a proposta diferencia atletas que já tiveram sua elegibilidade oficialmente reconhecida pela CBV de novos pedidos de participação. Com isso, novos processos não poderiam utilizar os critérios anteriores, enquanto as atletas previamente autorizadas poderiam ter sua condição preservada. A decisão sobre a adoção da regra de transição cabe à Confederação Brasileira de Voleibol.

A nota da  FPV traz ainda  que a proposta busca garantir segurança jurídica e considera situações constituídas sob regras que estavam anteriormente em vigor. A entidade também ressalta que a adequação dos regulamentos para 2027 não representa, segundo seu posicionamento institucional, uma mudança em relação às pessoas transgêneros. A Federação cita seu histórico de participação no debate, incluindo a autorização de Isabelle Neris para disputar competições femininas em 2017, antes da existência de uma regulamentação nacional específica, e a primeira participação de uma atleta trans no Campeonato Paranaense Adulto Feminino, em 2023.

 

confira na íntegra da nota da FPV [AQUI]

 

O que dizem os estudos 

 

A médica Luna Marques, graduada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), mulher trans e profissional da Unidade Básica de Saúde Alfredo Levandoski, enfatiza que o debate sobre a presença de mulheres trans no esporte precisa considerar as evidências científicas. “O principal ponto para desmontar os discursos de que mulheres trans têm vantagem é o embasamento científico”, pontua. 

Uma revisão sistemática publicada em 2026 no British Journal of Sports Medicine analisou 52 estudos, envolvendo 6.485 participantes. Entre mulheres trans, os pesquisadores e as pesquisadoras encontraram resultados semelhantes aos de mulheres cisgênero em diferentes medidas de composição corporal e aptidão física. A revisão concluiu que as evidências disponíveis não sustentam a existência de uma vantagem esportiva generalizada para mulheres trans. 

Segundo Luna, a terapia hormonal altera características físicas relacionadas à testosterona. “A pessoa começa bloqueando a testosterona e faz a reposição com hormônio feminino, com estrogênio, e o corpo responde aos hormônios que estão chegando”, explica. A médica também chama a atenção para a própria diversidade existente entre mulheres cisgênero. “A gente pode desmontar o discurso porque também existem mulheres cis mais fortes e mais fracas. Não depende se é trans ou não, e isso é definido nos estudos científicos”, afirma. 

A trajetória de Stella mostra uma experiência marcada pela inserção no vôlei feminino sem dificuldades de acolhimento, mas que agora passa a ser atravessada pela incerteza diante das novas regras. Para ela, a possibilidade de competir está relacionada também ao direito de ocupar um espaço que fez parte de sua vida antes mesmo da transição. “Eu conquistei esse direito”, finaliza. 

 

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