O horror que uma criança aprende a chamar de casa

Lucy Rose, autora de A Cordeirinha, revela em entrevista como transformou violência intrafamiliar e controle sobre o corpo em uma história sobre infância, sobrevivência e a coragem de imaginar uma vida para além da violência

Por Maria Gallinea

Existe um tipo de horror que não precisa de monstros para assustar. Ele pode morar na cozinha, sentar à mesa, preparar o jantar e chamar a própria violência de cuidado. É esse horror, muito mais íntimo do que sobrenatural, que Lucy Rose coloca no centro de A Cordeirinha, título brasileiro de The Lamb. O romance de estreia da escritora e cineasta britânica acompanha Margot, uma menina criada pela mãe em uma casa isolada na zona rural de Cumbria, onde pessoas que se perdem pela floresta são recebidas, mortas e transformadas em alimento.

A premissa é grotesca, mas o canibalismo é apenas a superfície. Por baixo do sangue existe uma história sobre uma criança submetida ao controle de um adulto, sobre uma maternidade atravessada pela posse e sobre a dificuldade de reconhecer como violência aquilo que foi apresentado, desde o início da vida, como amor.

Em entrevista, Rose é direta ao definir o centro de sua história. “No centro, é uma história sobre alguém que está sofrendo abuso infantil”. Para a autora, por mais que The Lamb atravesse temas como morte, corpo, fome e animalidade, a violência contra uma criança permanece como seu núcleo. Ao construir Margot, Rose conta que sentiu a necessidade de oferecer à personagem ferramentas para sobreviver: coragem, amizade e resiliência, além de outros espaços e personagens que pudessem mostrar à menina como são o cuidado e o amor quando não estão contaminados pelo medo.

Essa escolha muda completamente a leitura da violência dentro do livro. Margot não é uma criança que simplesmente presencia o horror. Ela cresce dentro dele. A casa em que vive é simultaneamente abrigo e prisão e sua mãe é, ao mesmo tempo, a pessoa de quem depende e aquela que determina os limites de sua existência. Para uma criança, essa contradição é particularmente cruel porque o primeiro modelo de mundo é justamente aquele oferecido pelos adultos responsáveis por ela.

Rose encontrou Margot antes mesmo de saber que estava escrevendo um romance. Ao organizar papéis antigos, encontrou aquele que havia sido o primeiro fragmento escrito para a obra: “Menina, 13 anos, está com medo de ser comida pela mãe.” O pequeno texto acabou se tornando parte do romance. A autora conta que nunca houve dúvida de que a narrativa seria contada pela perspectiva daquela menina, justamente porque a visão infantil oferecia uma maneira específica de explorar o horror.

É uma escolha fundamental. Margot não observa sua infância com a distância de uma adulta. Ela ainda está aprendendo o que significam palavras como cuidado, confiança, perigo e amor. O leitor, porém, enxerga aquilo que ela ainda não consegue nomear completamente. A violência, assim, aparece também naquilo que uma criança aprende a aceitar como normal.

Essa dimensão encontra eco em uma realidade que ultrapassa a ficção. No Brasil, crianças e adolescentes estão entre os grupos mais vulneráveis à violência praticada dentro de relações de confiança e dependência. Dados reunidos pelo UNICEF e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, entre 2021 e 2023, mais de 15 mil crianças e adolescentes foram vítimas de mortes violentas no país. No mesmo período, foram registrados mais de 165 mil casos de violência sexual contra crianças e adolescentes.

A violência intrafamiliar possui ainda uma característica particularmente perversa: pode se esconder justamente atrás daquilo que socialmente entendemos como família. A criança depende dos adultos para alimentação, moradia, proteção, educação e afeto. Quando essa mesma estrutura se transforma em fonte de ameaça, romper com ela pode significar colocar em risco tudo aquilo de que a criança depende para sobreviver.

É nesse espaço que A Cordeirinha encontra sua força.

A relação entre Margot e Ruth não é construída apenas por agressões explícitas. Ela é atravessada por isolamento, controle, negligência e pelo apagamento progressivo da individualidade da menina. A mãe determina o que pode ser conhecido, o que deve ser escondido e como Margot deve compreender o mundo. O canibalismo torna-se, então, uma metáfora particularmente violenta para uma relação na qual o adulto parece consumir a autonomia da criança.

A própria Rose percebeu que a questão da memória atravessava repetidamente a personagem. Uma de suas primeiras leitoras marcou no manuscrito todas as passagens em que Margot demonstrava querer ser lembrada. Foram tantas ocorrências que a autora percebeu ali uma chave do romance. “No centro da história há muito sobre os corpos das mulheres. Existe esse tema constante do nascimento e de saber se é certo ou não ter uma criança. E, quando você olha para isso, o coração da história é realmente sobre abuso infantil.” Rose também relaciona esse desejo de não ser esquecida a uma necessidade de sobreviventes de serem vistos e reconhecidos.

A maternidade, portanto, não aparece no romance como uma experiência automaticamente ligada ao cuidado. Rose permite que ela seja interrogada. O livro pergunta o que acontece quando a maternidade deixa de reconhecer a criança como indivíduo e passa a tratá-la como extensão, propriedade ou alimento emocional.

E é nesse mesmo terreno que entram os elementos sáficos e queer da narrativa.

A chegada de Eden modifica profundamente a dinâmica daquela casa. Ela não é apenas uma nova personagem. É uma mulher que desperta o desejo de Ruth e altera a estrutura de poder estabelecida entre mãe e filha. Paralelamente, a relação de Margot com Abbie abre espaço para amizade, curiosidade, desejo e descoberta de um mundo que não está submetido às regras de sua mãe.

O queer, portanto, não é colocado como origem do horror. O horror está no controle, na violência e na transformação do afeto em posse. O desejo entre mulheres aparece como uma das possibilidades de descoberta que existem para além da estrutura sufocante em que Margot foi criada. A própria apresentação brasileira da obra destaca maternidade, fúria feminina e relações queer entre seus elementos centrais.

Essa diferença é importante. Ruth quer possuir. Margot precisa aprender a escolher.

A perspectiva feminista da autora também atravessa sua construção do corpo. Em entrevista, Rose falou sobre seu interesse em usar o horror para subverter ideias tradicionalmente associadas às mulheres e afirmou que a autonomia feminina é uma das questões que mais a interessam. Para ela, existe uma cobrança social constante sobre o que mulheres podem desejar, inclusive em relação à comida e ao próprio corpo.

“Existe um problema enorme com mulheres quererem coisas. Meninas que querem coisas são chamadas de gananciosas e desagradáveis. Elas não são ambiciosas, não são criativas, são apenas desagradáveis e gananciosas. Eu realmente queria explorar essa ideia de mulheres querendo coisas.”

É nesse ponto que o canibalismo deixa de ser apenas uma imagem grotesca e passa a funcionar como linguagem. Comer, ser comida, desejar, possuir e ser possuída tornam-se diferentes formas de falar sobre autonomia.

Rose explica que cresceu em uma região muito isolada e que a própria infância marcada pela solidão influenciou sua percepção do isolamento de Margot. “Nós vivíamos tão remotamente que nem havia ônibus para chegar à cidade mais próxima. Quando a natureza é tudo o que você tem, você se acostuma com a solidão e o isolamento”.

A experiência pessoal aparece, portanto, menos como reprodução literal e mais como matéria emocional. Rose transforma lembranças, inquietações e questões sobre corpo, autonomia, infância e pertencimento em ficção.

E talvez seja justamente aí que escrever sobre violência se torna uma forma de enfrentamento. Não porque a literatura apague o trauma, mas porque pode reorganizar aquilo que parecia impossível de compreender.

A autora também reconhece que escrever o desfecho de The Lamb foi particularmente difícil. Ela conta que se sentiu mal ao escrever sabendo para onde Margot estava caminhando e que chegou a sentir culpa pelo que estava fazendo com a personagem. Ao mesmo tempo, afirma que queria que Margot fosse corajosa e que o confronto com o horror era justamente o caminho necessário para que essa coragem pudesse existir. “Todos nós precisamos de um pouco mais de coragem, como Margot, para fazer coisas assustadoras quando sabemos que elas são necessárias”.

Essa coragem não significa ausência de medo. Significa agir apesar dele.

A autora explica que personagens como Margot precisam de espaços seguros para conseguir fazer escolhas. “Se você está escrevendo sobre assuntos traumáticos, em que a liberdade de uma personagem é retirada, você precisa dar a ela a possibilidade de fazer escolhas por meio de espaços seguros. Eu acho isso essencial”. Ela observa que pessoas submetidas a situações traumáticas podem sobreviver justamente por encontrarem pequenos lugares de segurança que lhes permitam pensar sem medo.

Essa talvez seja uma das ideias mais importantes de A Cordeirinha. Para uma criança submetida à violência, liberdade não começa necessariamente com uma porta aberta. Às vezes começa com alguém que acredita nela. Com uma amizade. Com um adulto que percebe. Com um lugar onde ela pode respirar sem estar sendo observada. Com a descoberta de que aquilo que acontece em casa não é a única forma possível de amor.

Por isso, a violência intrafamiliar retratada por Rose não deve ser entendida apenas como uma sucessão de atos cruéis. Ela também é uma disputa pela possibilidade de uma criança construir a própria percepção de mundo.

No fim, Rose diz esperar que seus leitores saiam da história transformados não pela brutalidade, mas pela possibilidade de resistir a ela.

“Espero que as pessoas terminem o livro se sentindo mais corajosas e mais gentis.” E acrescenta que deseja, acima de tudo, que “todas as Margots” consigam sentir o poder da própria coragem.

Talvez seja essa a parte mais dolorosa e também mais bonita de A Cordeirinha. Por trás dos corpos, dentes, sangue e carne existe uma menina tentando descobrir se existe um mundo para além daquele que lhe foi apresentado. Existe. E nenhuma criança deveria precisar ser corajosa para sobreviver à própria casa.

A Cordeirinha, título brasileiro de The Lamb, está disponível em português pela DarkSide Books, com tradução de Regiane Winarski, em edição de 272 páginas, capa dura e classificação indicativa de 18 anos.


Serviço

No Paraná, crianças e adolescentes em situação de violência podem buscar proteção por diferentes caminhos. O Disque 181, serviço do Governo do Paraná, recebe denúncias de crimes e situações de violência e permite denúncia anônima. O Disque 100, serviço nacional de proteção dos direitos humanos, também recebe denúncias de violações contra crianças e adolescentes. Em situações de emergência ou risco imediato, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190.

Não é preciso esperar que uma criança consiga explicar perfeitamente aquilo que está vivendo para procurar ajuda. Crianças podem não ter vocabulário, autonomia ou segurança para denunciar. Cabe aos adultos prestar atenção aos sinais, acolher sem culpabilizar e acionar a rede de proteção diante de uma suspeita de violência.


 

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