{"id":2593,"date":"2021-03-08T17:07:51","date_gmt":"2021-03-08T20:07:51","guid":{"rendered":"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/?p=2593"},"modified":"2021-03-08T17:07:51","modified_gmt":"2021-03-08T20:07:51","slug":"8-de-marco-o-que-temos-a-comemorar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/8-de-marco-o-que-temos-a-comemorar\/","title":{"rendered":"8 de mar\u00e7o: o que temos a comemorar?"},"content":{"rendered":"\n<p><em>O Dia Internacional da Mulher, oficializado pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) em 1975, tem disson\u00e2ncias na origem hist\u00f3rica. Apesar disso, a data serve como um lembrete da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica feminista sobre as demandas de mulheres no trabalho, na vida p\u00fablica e familiar.<\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nada de flores ou presentes: o Dia Internacional da Mulher \u00e9, acima de tudo, uma data pol\u00edtica. \u00c9 reconhecida a proposi\u00e7\u00e3o da data feita pela alem\u00e3 Clara Zetkin, em 1910, durante o II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, em Copenhagem. Apesar das frequentes associa\u00e7\u00f5es entre o Dia da Mulher e o inc\u00eandio na f\u00e1brica <em>Triangle Shirtwaist Company<\/em> nos Estados Unidos, ocorrido em mar\u00e7o de 1911, reivindica\u00e7\u00f5es sobre condi\u00e7\u00f5es trabalhistas de mulheres oper\u00e1rias e o direito ao voto j\u00e1 vinham sendo discutidas anteriormente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Segundo a soci\u00f3loga Eva Blay, o inc\u00eandio da f\u00e1brica \u2013 que matou 125 mulheres e 21 homens, em sua maioria judeus \u2013 de fato fortaleceu o reconhecimento dos sindicatos. No entanto, l\u00edderes sindicais nem sempre entendiam a necessidade de reivindica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas das mulheres dentro do movimento trabalhista, como aponta Blay em ensaio publicado em 2003: \u201c<em>as trabalhadoras participavam das lutas gerais mas, quando se tratava de igualdade salarial, n\u00e3o eram consideradas\u201d<\/em>. As demandas das mulheres eram vistas como empecilhos para a \u2018luta geral\u2019, afinal, sua renda era apenas complementar ao sal\u00e1rio dos homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Neste cen\u00e1rio, \u00e9 importante relembrar que a luta de mulheres sindicalistas n\u00e3o abarcava os direitos de mulheres negras, que se viam em condi\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o desde a escravid\u00e3o. Mulheres negras n\u00e3o lutaram pelo direito ao trabalho pois esta foi uma condi\u00e7\u00e3o imposta, n\u00e3o uma escolha. Sessenta anos antes das discuss\u00f5es sobre o Dia da Mulher, a ativista Sojourner Truth denunciava a diferencia\u00e7\u00e3o no tratamento que recebia enquanto mulher negra em discurso proferido na <em>Women\u2019s Rights <\/em>Convention, em Ohio. As especificidades do movimento feminista negro culminaram na cria\u00e7\u00e3o posterior do Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha (25 de julho), institu\u00eddo pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), em 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Passados quase cinquenta anos desde a oficializa\u00e7\u00e3o do Dia Internacional da Mulher, a data ganhou um vi\u00e9s amplamente comercial. Assemelha-se muito mais \u00e0 uma celebra\u00e7\u00e3o, que movimenta o com\u00e9rcio de floriculturas e chocolates, al\u00e9m de outros setores que se apropriam da data com fins capitalistas. Mas, afinal, h\u00e1 o que comemorarmos no dia de hoje? De fato, muito direitos foram conquistados e as reivindica\u00e7\u00f5es feministas ganharam novas formas. No entanto, h\u00e1 um longo caminho a percorrer. Destaco aqui algumas motiva\u00e7\u00f5es que refor\u00e7am a necessidade de ainda lutarmos por equidade no trabalho, na pol\u00edtica, na sa\u00fade, na vida p\u00fablica e privada:<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>A viol\u00eancia contra mulheres apresenta \u00edndices alarmantes.<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Dados da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade revelam que 1 em cada 3 mulheres em todo o mundo j\u00e1 sofreu viol\u00eancia f\u00edsica e\/ou sexual. A cada 3 brasileiros, 2 viram uma mulher ser agredida no Brasil em 2016, segundo o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. De acordo com o Atlas da Viol\u00eancia 2020, uma mulher foi assassinada a cada duas horas no Brasil em 2018. Os n\u00fameros n\u00e3o param por a\u00ed e representam a misoginia, o ass\u00e9dio e a falta de seguran\u00e7a \u00e0s mulheres dentro e fora de casa. Al\u00e9m disso, os \u00edndices s\u00e3o ainda mais violentos quando olhamos para as mulheres negras: elas representam 68% das mulheres assassinadas no pa\u00eds em 2018.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>A pandemia de Covid-19 escancara as desigualdades de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe.<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com a pandemia de Covid-19 chegando \u00e0 marca de 1 ano e em seu momento mais cr\u00edtico no Brasil, as manifesta\u00e7\u00f5es do Dia da Mulher n\u00e3o ocorrer\u00e3o nas ruas como nos anos anteriores. Em meio ao aumento desenfreado no n\u00famero de mortes por Covid-19 e o luto de incont\u00e1veis fam\u00edlias, vemos como a crise pol\u00edtica e sanit\u00e1ria afeta desproporcionalmente na vida das mulheres. S\u00e3o elas que est\u00e3o na linha de frente nos postos de sa\u00fade e nos cuidados com a fam\u00edlia. Segundo a diretora executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, as mulheres representam 70% das pessoas que trabalham no setor social e de sa\u00fade, como enfermeiras, parteiras, faxineiras e lavanderias. Tamb\u00e9m s\u00e3o mulheres que realizam grande parte do trabalho n\u00e3o remunerado e\/ou garantem a subsist\u00eancia com trabalhos informais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Al\u00e9m disso, o isolamento social como \u00fanica medida poss\u00edvel para mitigar o cont\u00e1gio da doen\u00e7a, fez diversas mulheres ficarem confinadas com seus agressores. Segundo dados do Minist\u00e9rio da Mulher, da Fam\u00edlia e dos Direitos Humanos, desde o in\u00edcio da quarentena (em mar\u00e7o de 2020), o n\u00famero de den\u00fancias feitas pelo canal 180 aumentou 17,9%, em todo o pa\u00eds. Segundo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, tamb\u00e9m houve um aumento de 22% nos casos de feminic\u00eddio em 12 estados brasileiros entre mar\u00e7o e abril de 2020.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Mulheres ainda ganham menos que os homens exercendo a mesma fun\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Segundo estudo da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) de 2016, mulheres recebem 77% do que ganham os homens exercendo a mesma fun\u00e7\u00e3o. A realidade brasileira apresenta dados semelhantes: o rendimento mensal m\u00e9dio das mulheres no quarto trimestre de 2019 foi 22% menor que o dos homens, aponta estudo do Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese). Da mesma forma que os \u00edndices de viol\u00eancia s\u00e3o maiores entre mulheres negras, o mercado de trabalho \u00e9 ainda mais desigual. O documento Pot\u00eancias (in)vis\u00edveis revela que a mulher negra recebe apenas 44% do sal\u00e1rio de um homem branco. Elas tamb\u00e9m possuem a menor presen\u00e7a em cargos de lideran\u00e7a (representando apenas 6,6% do total e a mulher branca 31%).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Raz\u00f5es para essas estat\u00edsticas tamb\u00e9m est\u00e3o atreladas a divis\u00e3o desproporcional do trabalho dom\u00e9stico. O mesmo estudo da OIT destaca que mulheres dedicam 2,5 vezes mais tempo que os homens nos afazeres da casa e cuidados com os filhos. A jornada tripla de trabalho \u00e9 uma realidade para a maior parte das m\u00e3es brasileiras, especialmente em regi\u00f5es marginalizadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nem tudo s\u00e3o flores, \u00e9 o que esses apontamentos demonstram. As lutas feministas representam diversas bandeiras, de mulheres com demandas espec\u00edficas e realidades distintas. S\u00e3o distin\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias ao abordar as problem\u00e1ticas que envolvem o \u2018ser mulher\u2019. Ainda assim, podemos manter um olhar esperan\u00e7oso ao reconhecermos que n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 espinhos. As conquistas de mulheres que nos antecederam nos permitem dar continuidade na luta por uma sociedade menos retr\u00f3grada, mais humana e com maior protagonismo para todas as mulheres e suas representa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Paula Claro\u00a0<\/p>\n<p>A autora \u00e9 Jornalista, mestranda do PPG Jor da UEPG com bolsa da Capes e integrante do grupo de pesquisa Jornalismo e G\u00eanero<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":846,"featured_media":348,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[33],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2593"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/846"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2593"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2593\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2593"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2593"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2593"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}