{"id":2662,"date":"2021-03-15T14:45:13","date_gmt":"2021-03-15T17:45:13","guid":{"rendered":"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/?p=2662"},"modified":"2021-03-15T14:45:13","modified_gmt":"2021-03-15T17:45:13","slug":"documentario-tarde-demais-para-flores-aborda-impactos-na-vida-de-familias-com-vitimas-de-feminicidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/documentario-tarde-demais-para-flores-aborda-impactos-na-vida-de-familias-com-vitimas-de-feminicidio\/","title":{"rendered":"Document\u00e1rio &#8220;Tarde Demais para Flores&#8221; aborda impactos na vida de fam\u00edlias com v\u00edtimas de feminic\u00eddio"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Confira o document\u00e1rio \u201cTarde Demais para Flores\u201d produzido em 2019 pela ent\u00e3o estudante do curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) Saori Honorato e a entrevista realizada com ela durante a apresenta\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio em mar\u00e7o de 2020, no sagu\u00e3o do Bloco B da Universidade. A exibi\u00e7\u00e3o fez parte do evento <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mulheres e direitos: enfrentamento de viol\u00eancias m\u00faltiplas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, organizado pelo grupo de pesquisa Jornalismo e G\u00eanero da UEPG.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A produ\u00e7\u00e3o reflete os danos que o feminic\u00eddio causa no dia a dia da vida dos familiares das v\u00edtimas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Document\u00e1rio:<\/strong><\/p>\n<p>[embedyt] https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=m6Ef03antKQ[\/embedyt]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Entrevista:<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Matheus: Qual foi a motiva\u00e7\u00e3o que voc\u00ea teve para realizar esse document\u00e1rio?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Saori:<\/strong> Ent\u00e3o, eu acho que come\u00e7ou quando eu fui pensar a pauta do que eu queria trabalhar no meu TCC, eu queria fazer alguma coisa que tivesse alguma rela\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Acho que ser jornalista, ser mulher fez total diferen\u00e7a na escolha da pauta para falar sobre o feminic\u00eddio, at\u00e9 pela jornada que cada pessoa tem na sua vida, na carreira que na hora da produ\u00e7\u00e3o te incentiva a se especializar em um assunto espec\u00edfico. Acho tamb\u00e9m que mais um fator \u00e9, a gente est\u00e1 vivendo um surto de feminic\u00eddio, mas acho que agora est\u00e3o saindo muitos, principalmente casos do interior, aqui nos Campos Gerais, toda semana praticamente tem not\u00edcia, n\u00e3o s\u00f3 de feminic\u00eddio, mas de mulheres sendo agredidas e os n\u00fameros est\u00e3o crescendo bastante, e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aqui no Paran\u00e1, \u00e9 no Brasil inteiro. Os n\u00fameros n\u00e3o diminuem, eles crescem apesar de existir mais a\u00e7\u00f5es para coibir a viol\u00eancia, sendo essas as estat\u00edsticas e tamb\u00e9m a cobertura que a imprensa tradicional j\u00e1 faz desses casos de feminic\u00eddio. E acho que o que me criou um inc\u00f4modo muito grande, que ficou marcado durante toda a minha gradua\u00e7\u00e3o era que eu n\u00e3o queria repetir, sendo que eu teria um espa\u00e7o, um tempo determinado para a explorar uma produ\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, eu achei que era o momento de abordar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Matheus: A gente percebeu que durante a exibi\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio as pessoas ficaram bem emocionadas e eu acho que \u00e9 um document\u00e1rio muito sentimental, algo que realmente mexe, nos faz perceber v\u00e1rias coisas. Como foi a repercuss\u00e3o do document\u00e1rio na cidade? Nas escolas que voc\u00ea foi mostrar e nas exposi\u00e7\u00f5es que voc\u00ea teve desde o document\u00e1rio<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Saori:<\/strong> Como ele foi exibido em diversos lugares, foi na universidade, foi no museu Campos Gerais, al\u00e9m das escolas. Deu para sentir que as pessoas t\u00eam o mesmo inc\u00f4modo que eu tenho com as not\u00edcias que j\u00e1 s\u00e3o dadas, porque at\u00e9 voc\u00ea oferecer uma outra perspectiva \u00e9 um refresco para as pessoas conseguirem realmente falar sobre o feminic\u00eddio e os crimes. Acredito que a fun\u00e7\u00e3o do jornalismo \u00e9 justamente essa, trazer o debate, n\u00e3o voc\u00ea ser o debate. Ent\u00e3o, eu acho que conseguir trazer pessoas de diferentes esferas da sociedade, por exemplo, vieram pessoas do Juizado da Mulher, que o F\u00f3rum atua, da Delegacia da Mulher, que \u00e9 a parte mais pr\u00e1tica, do CEJUSC, que \u00e9 um contato de justi\u00e7a restaurativa. Ent\u00e3o diferentes pessoas, como psic\u00f3logas e advogadas, que trabalham numa rede de enfrentamento conseguiram se aliar nesses espa\u00e7os e conversar sobre e trazer outras reflex\u00f5es que geralmente a gente n\u00e3o tem espa\u00e7o ou que n\u00e3o \u00e9 incentivado a fazer. J\u00e1 nas escolas, eu constatei que a viol\u00eancia dom\u00e9stica est\u00e1 presente na realidade de diversas fam\u00edlias e que uma parcela muito grande das crian\u00e7as e dos adolescentes est\u00e3o inseridos no contexto de\u00a0 viol\u00eancia dentro de casa ou sofrem com um relacionamento, n\u00e3o s\u00f3 a viol\u00eancia f\u00edsica, mas principalmente psicol\u00f3gica que \u00e9 o reflexo de uma sociedade machista que impregna diversos fatores que interferem muito na vida das pessoas. E em um dos col\u00e9gios foi muito tocante, pois depois da exibi\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio, as pessoas virem dar depoimentos do que elas passam e at\u00e9 pedir ajuda, porque muitas coisas n\u00e3o chegam at\u00e9 essas pessoas, apesar de ter uma rede de enfrentamento que cria campanhas, que cria diversas patrulhas, as pessoas n\u00e3o sabem para quem pedir ajuda, ent\u00e3o apesar de a gente que est\u00e1 nesse contexto de informa\u00e7\u00e3o, a realidade das pessoas \u00e9 completamente diferente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Matheus: Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s fam\u00edlias, principalmente as crian\u00e7as, acho por mais que tenham crian\u00e7as pequenas que ainda n\u00e3o entendem muito bem o que est\u00e1 acontecendo, mas realmente sentem. E o que voc\u00ea achou e como foi essa rela\u00e7\u00e3o com as fam\u00edlias?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Saori:<\/strong> Bom, a ideia de abordar fam\u00edlias foi para ver o impacto do feminic\u00eddio a longo prazo, porque a gente tem empatia, mas n\u00f3s continuamos vivendo as nossas vidas normalmente, mas as pessoas das fam\u00edlias que foram afetadas pelo feminic\u00eddio, \u00e9 uma dor que eles t\u00eam diariamente. At\u00e9 uma das participantes do document\u00e1rio, a C\u00e9lia, falou \u201csempre que eu vejo uma not\u00edcia de feminic\u00eddio de outra pessoa \u00e9 como se eu estivesse sofrendo tudo de volta, \u00e9 como se fosse a minha filha sendo morta outra vez\u201d. Ent\u00e3o essa sensa\u00e7\u00e3o que eles t\u00eam, ela nunca vai passar e voc\u00ea consegue sentir a tristeza dessas fam\u00edlias. As av\u00f3s dizem que o \u00fanico motivo delas para continuarem vivendo \u00e9 cuidar dos netos, porque perder a filha de uma maneira t\u00e3o violenta, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 perder um filho, \u00e9 ele ser assassinado \u201cassim, assim e assado\u201d. E at\u00e9 no caso das cinco crian\u00e7as, eles viram a m\u00e3e ser morta pelo pr\u00f3prio pai, ent\u00e3o \u00e9 algo muito traum\u00e1tico para essas crian\u00e7as e que sem d\u00favida vai trazer diversas sequelas, emocionais e psicol\u00f3gicas, durante a vida inteira delas. Ent\u00e3o falar sobre o feminic\u00eddio na perspectiva dessas fam\u00edlias faz a gente ter ainda mais empatia por esses crimes, al\u00e9m de falar que quem foi morta e como, mas sim falar quem que sofre com isso, quem que ficou e como \u00e9 a vida das pessoas depois desse crime.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Catharina: Voc\u00ea citou uma institui\u00e7\u00e3o que te ajudou a chegar nas fontes utilizadas no document\u00e1rio. Voc\u00ea acredita que outras institui\u00e7\u00f5es deveriam auxiliar, gratuitamente, essas fam\u00edlias que est\u00e3o sofrendo com a perda da v\u00edtima?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Saori:<\/strong> J\u00e1 existem institui\u00e7\u00f5es que prestam servi\u00e7os. Quando a mulher \u00e9 v\u00edtima da viol\u00eancia ela passa por diversas inst\u00e2ncias, primeiro ela vai para o juizado que tem uma assistente social, mas ela n\u00e3o consegue atender todo mundo, ent\u00e3o eu acho que as institui\u00e7\u00f5es deveriam prestar mais aten\u00e7\u00e3o nessas v\u00edtimas, mas tamb\u00e9m prestar aten\u00e7\u00e3o a longo prazo, porque o atendimento \u00e9 muito limitado e espec\u00edfico quando ele acontece. E as mulheres, muitas vezes, querem denunciar, mas n\u00e3o sabem o que vai acontecer. O NUMAPE da UEPG \u00e9 um exemplo muito bom de institui\u00e7\u00e3o que presta um servi\u00e7o para essas mulheres que faz toda diferen\u00e7a, que salva vidas, at\u00e9 porque como eu j\u00e1 falei, o feminic\u00eddio \u00e9 o \u00e1pice de uma longa trajet\u00f3ria de viol\u00eancia dom\u00e9stica. Ent\u00e3o ter institui\u00e7\u00f5es que cumpram esse papel de uma maneira mais pr\u00e1tica, porque o CEJUSC faz toda diferen\u00e7a em Ponta Grossa, mas n\u00e3o toda cidade que tem essas institui\u00e7\u00f5es. Outra coisa que eu acho muito importante \u00e9 essas fam\u00edlias que ficam, porque, por exemplo, uma mulher perde a filha, est\u00e1 em um contexto de desemprego, n\u00e3o tem nenhuma seguridade social, ela recebe uma aposentadoria de mil reais e sustenta uma fam\u00edlia de tr\u00eas pessoas, isso foi antes do feminic\u00eddio da filha. Ent\u00e3o depois disso, tem que criar mais cinco crian\u00e7as, sendo assim, como que uma pessoa vai sustentar uma fam\u00edlia de oito pessoas com mil reais? Que \u00e9 o contexto da Soeli e ela \u00e9 bipolar, tem depress\u00e3o e ela sustenta uma fam\u00edlia de oito pessoas e tanto que depois que aconteceu o feminic\u00eddio da filha dela, ela ficou totalmente deprimida s\u00f3 que foi uma depress\u00e3o que ela teve que lutar contra para continuar vivendo e protegendo a fam\u00edlia, ent\u00e3o ela fazia salgado e saia vender na rua. S\u00e3o essas pessoas que eu consegui comprovar que precisam de uma aten\u00e7\u00e3o e de um amparo social, porque ningu\u00e9m olha para as pessoas que ficam. Teve o feminic\u00eddio, a mulher morreu e acabou a\u00ed. N\u00e3o tem nenhuma lei que fale que as pessoas que ficaram devem ser atendidas. Tem a Guarda Solid\u00e1ria que quando as crian\u00e7as morrem a fam\u00edlia recebe uma bolsa de mil reais por m\u00eas, s\u00f3 que mesmo assim n\u00e3o \u00e9 suficiente para essas fam\u00edlias. Todas aquelas mulheres sofrem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida financeira enquanto elas t\u00eam que encarar o luto da perda da filha, ent\u00e3o \u00e9 bem complicado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Catharina: Como jornalista, qual a import\u00e2ncia do jornalismo para tratar do feminic\u00eddio?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Saori:<\/strong> \u00c9 fundamental o papel do jornalista de fazer o debate acontecer. Acho que \u00e9 muito mais do que relatar que uma mulher foi morta \u00e9 voc\u00ea falar o porqu\u00ea ela foi morta, em que contexto ela est\u00e1 inserida que fez isso acontecer, porque o feminic\u00eddio n\u00e3o \u00e9 um assassinato comum, ele n\u00e3o acontece como em um roubo que a pessoa s\u00f3 morre, o feminic\u00eddio acontece, porque os homens continuam achando que s\u00e3o superiores as mulheres e isso \u00e9 uma quest\u00e3o que n\u00e3o d\u00e1 para a gente relevar e falar que n\u00e3o existe. Ent\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 para o jornalismo falar sobre o feminic\u00eddio, falar sobre a viol\u00eancia contra a mulher sem abordar essas quest\u00f5es hist\u00f3ricas que continuam fazendo com que as mulheres sejam mortas pelo feminic\u00eddio, at\u00e9 porque o feminic\u00eddio ele \u00e9 um resultado do machismo e o jornalista em que ficar pegando nisso, porque \u00e9 imposs\u00edvel voc\u00ea falar sobre feminic\u00eddio e viol\u00eancia contra a mulher sem voc\u00ea falar sobre machismo. E uma coisa que \u00e9 percept\u00edvel, o jornalista n\u00e3o cumpre essa fun\u00e7\u00e3o de explicar isso para as pessoas, porque se voc\u00ea s\u00f3 d\u00e1 essa not\u00edcia e falar que a mulher foi morta, a\u00ed as pessoas v\u00e3o pensar \u201cela fez alguma coisa, porque ela traiu o cara ,ent\u00e3o est\u00e1 tudo beleza\u201d, s\u00f3 que n\u00e3o est\u00e1 \u201ctudo beleza\u201d e da\u00ed se ela traiu? Isso \u00e9 justificativa para ela morrer? E muitas vezes a m\u00eddia ao inv\u00e9s dela trazer um debate qualificado ela faz justamente o oposto, ela culpa a v\u00edtima, traz uma s\u00e9rie de informa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o s\u00e3o importantes, por exemplo \u201cestava com roupa curta, em um determinado lugar e em um determinado hor\u00e1rio\u201d, a m\u00eddia pode falar \u201cela morre por causa disso\u201d, mas \u00e9 o que ela est\u00e1 falando, \u00e9 o que todas as pessoas v\u00e3o falar, porque as pessoas convivem com essas not\u00edcias a vida inteira, elas n\u00e3o t\u00eam discernimento de falar \u201ca n\u00e3o isso aqui ela est\u00e1 em um contexto de viol\u00eancia\u201d e isso n\u00e3o \u00e9 abordado no jornalismo e deveria ser mais abordado. Est\u00e1 tendo um movimento melhor da m\u00eddia de tentar explicar isso, que \u00e9 um reflexo do movimento da sociedade contra o machismo, mas que ainda \u00e9 prec\u00e1rio e principalmente, cidades do interior praticamente esse movimento n\u00e3o existe. E Ponta Grossa ainda tem programas espec\u00edficos extremamente sensacionalistas que s\u00f3 trazem dor e sofrimento para essas fam\u00edlias, n\u00e3o \u00e9 um jornalismo que s\u00f3 not\u00edcia, \u00e9 um jornalismo que tamb\u00e9m danifica as fam\u00edlias e causa dor.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Matheus: Tem muitas pessoas que defendem essa nova aproxima\u00e7\u00e3o do jornalista com a fonte e como \u00e9 feita essa rela\u00e7\u00e3o, mas neste trabalho percebe-se que voc\u00ea realmente teve que se aproximar, teve que estar perto e teve que ter um contato muito pr\u00f3ximo e muito sentimental. E eu queria saber como voc\u00ea v\u00ea essa rela\u00e7\u00e3o com os entrevistados e o que voc\u00ea sentiu nessa rela\u00e7\u00e3o com os entrevistados?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Saori:<\/strong> Esse contato direto com as pessoas ele tem que acontecer independente da pauta que voc\u00ea est\u00e1 fazendo e independente do assunto, \u00e9 uma quest\u00e3o mais humana de contato social, n\u00e3o d\u00e1 para querer falar sobre qualquer assunto sem voc\u00ea ter um contato com a pessoa, sem ser respeitosa e entender limites, porque foi um processo muito lento de eu explicar o que eu estava fazendo, fazer um visita, fazer outra visita ou voc\u00ea entender os momentos que a pessoa est\u00e1 confort\u00e1vel para falar, n\u00e3o est\u00e1 confort\u00e1vel. Ent\u00e3o eu acho que o jornalista, nessa quest\u00e3o de proximidade ela tem que acontecer independente da pauta, mas principalmente quando \u00e9 uma pauta que a viol\u00eancia, aborda assuntos que s\u00e3o sens\u00edveis, esse contato precisa ser ainda mais profundo e cuidadoso. O que eu tentei muito fazer foi respeitar os limites das pessoas, ganhar confian\u00e7a e fazer parte daquele ambiente. Acho que at\u00e9 uma quest\u00e3o mais da fotografia jornal\u00edstica do que o jornalismo em si na hora da entrevista que as pessoas v\u00e3o entrevistam, fazem algumas perguntas e ponto, mas esse contato mais direto, apesar de no come\u00e7o voc\u00ea n\u00e3o entender muito bem o porqu\u00ea que voc\u00ea precisa fazer tudo isso, ele traz resultados significativos na produ\u00e7\u00e3o a longo prazo, at\u00e9 para eu conseguir ter acesso a outras hist\u00f3rias, para ela se sentir mais confort\u00e1vel em falar, por exemplo eu sei de coisas que eu nunca poderia colocar no document\u00e1rio ou tirar foto, ent\u00e3o eu acho que esse contato fez total diferen\u00e7a e eu acho que \u00e9 papel do jornalista ele ser emp\u00e1tico, respeitoso e sens\u00edvel nas produ\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Catharina: E voc\u00ea sendo mulher e estando nesse lugar de risco, que essas mulheres que sofreram estavam. Como que o document\u00e1rio impactou a sua vida nesse sentido?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Saori:<\/strong> Pessoalmente, eu consigo quando leio uma not\u00edcia, ter outras reflex\u00f5es que eu n\u00e3o teria se eu n\u00e3o tivesse feito esse document\u00e1rio, e tamb\u00e9m pensar outras perspectivas, acho que essa \u00e9 a palavra, perspectiva, porque n\u00e3o \u00e9 todo dia que, por exemplo um jornalista em uma reda\u00e7\u00e3o n\u00e3o consegue fazer um trabalho desse, ele tem limita\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m \u00e9 um tipo de jornalismo di\u00e1rio que voc\u00ea tem que fazer, \u00e9 o seu papel noticiar o que acontece, mas eu acho que para mim foi importante pensar que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 esse papel que tem o jornalista, acho que tamb\u00e9m que \u00e9 papel dele fazer produ\u00e7\u00f5es mais complexas, mais longas em paralelo com esse tipo de jornalismo que a gente j\u00e1 est\u00e1 mais acostumado, acho que esse jornalismo de profundidade, mais humanizado, mas eu n\u00e3o gosto dessa palavra, porque eu acho que o jornalismo tem que ser humanizado de qualquer maneira. E a experi\u00eancia de voc\u00ea entender que as pessoas sofrem demais por causa disso, acho que me fez mais combat\u00edvel com as coisas que eu vejo na minha vida e ao meu redor, eu n\u00e3o tolero mais qualquer coisa. Eu nunca fui feminista \u201clouca\u00e7a\u201d e n\u00e3o estou falando de um modo pejorativo, mas \u00e9 voc\u00ea policiar coisas que voc\u00ea vive no dia a dia que antes voc\u00ea n\u00e3o policiava, que eu achava mais normal. Ent\u00e3o pessoalmente, foi um ganho muito grande profissional, mas tamb\u00e9m pessoal, para minha vida, de valores que eu comecei a ter para mim que eu acho que eu nunca mais vou perder, que talvez eu n\u00e3o teria desenvolvido se n\u00e3o fosse a produ\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Entrevista por Matheus Rolim e Catharina Iavorski<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o document\u00e1rio &#8220;Tarde Demais para Flores&#8221;<\/p>\n\n\n<div class=\"ms-editor-squiggler\" style=\"color: initial;font: initial;background: initial;background-blend-mode: initial;border: initial;border-radius: initial;border-collapse: initial;caption-side: initial;clear: initial;columns: initial;column-fill: initial;column-rule: initial;column-span: initial;cursor: initial;filter: initial;flex: initial;flex-flow: initial;float: initial;height: 0px;letter-spacing: initial;margin: initial;max-height: initial;max-width: initial;min-height: initial;min-width: initial;object-fit: initial;object-position: initial;overflow: initial;padding: initial;text-align: initial;text-decoration: initial;text-indent: initial;text-transform: initial;vertical-align: initial;border-spacing: initial;width: initial\">\u00a0<\/div>\n<div class=\"ms-editor-squiggler\" style=\"color: initial;font: initial;background: initial;background-blend-mode: initial;border: initial;border-radius: initial;border-collapse: initial;caption-side: initial;clear: initial;columns: initial;column-fill: initial;column-rule: initial;column-span: initial;cursor: initial;filter: initial;flex: initial;flex-flow: initial;float: initial;height: 0px;letter-spacing: initial;margin: initial;max-height: initial;max-width: initial;min-height: initial;min-width: initial;object-fit: initial;object-position: initial;overflow: initial;padding: initial;text-align: initial;text-decoration: initial;text-indent: initial;text-transform: initial;vertical-align: initial;border-spacing: initial;width: initial\">\u00a0<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 \u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":846,"featured_media":2667,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[39],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2662"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/846"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2662"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2662\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2662"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2662"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2662"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}