{"id":2861,"date":"2021-03-22T13:58:14","date_gmt":"2021-03-22T16:58:14","guid":{"rendered":"https:\/\/elos.sites.uepg.br\/?p=2861"},"modified":"2021-03-22T13:58:14","modified_gmt":"2021-03-22T16:58:14","slug":"sementes-da-realeza-negra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/elos\/sementes-da-realeza-negra\/","title":{"rendered":"Sementes da realeza negra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Todo descendente de negros que mora no Brasil alguma vez na vida j\u00e1 disse a seguinte frase: \u201csou descendente de escravos\u201d. Por\u00e9m, esse tipo de fala nem sempre \u00e9 positiva, j\u00e1 que ela continua colocando o negro e a negra em pap\u00e9is inferiores dentro das rela\u00e7\u00f5es sociais de nosso pa\u00eds. Continuamos satisfeitos com a naturaliza\u00e7\u00e3o de alguns cen\u00e1rios que deveriam incomodar e nos deixar tristes, como por exemplo, universidades, restaurantes, judici\u00e1rio, poderes executivo e legislativo federal ao municipal com presen\u00e7a da maioria branca. Sabemos que nossa cultura adv\u00e9m de civiliza\u00e7\u00f5es europ\u00e9ias, ind\u00edgenas e negras, mas ter o m\u00ednimo de negros nestes espa\u00e7os seria como viver o Apartheid sul-africano ou as Leis Jim Crow estadunidense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o somente necessitamos incorporar o esp\u00edrito de resist\u00eancia de Nelson Mandela, Martin Luther King Jr. ou de Rosa Parks que ousaram a lutar, sonhar e at\u00e9 o simples ato de sentar-se em um lugar de branco, mas precisamos mostrar que o lugar do negro e da mulher negra \u00e9 onde eles quiserem. Trata-se, pois, n\u00e3o de descendentes de escravos, mas de herdeiros de realezas que sofreram golpes e foram privados de sua liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em outras palavras, ser negro \u00e9 ser descendente de reis e rainhas, de pessoas como a Rainha Anima da Nig\u00e9ria, Rainha Makeda da Eti\u00f3pia- esposa do Rei Salom\u00e3o, Rei Taharqa da N\u00fabia (710-664A.C) e o exemplo mais emblem\u00e1tico de todos a Rainha Cle\u00f3patra do Egito que era negra, mas foi eternizada nos imagin\u00e1rios como branca devido a representa\u00e7\u00e3o dela por parte de uma atriz branca, no caso Elizabeth Taylor em 1963.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Elizabeth Taylor (atriz branca de olhos claros) dar vida a uma rainha negra denuncia a falta de espa\u00e7o do negro e da negra na m\u00eddia, mas essa realidade perdurou e perdura por muitos anos e at\u00e9 mesmo na nossa atualidade, como nos meios de comunica\u00e7\u00e3o brasileiros. Uma cantora brasileira, MC Carol, atrav\u00e9s da sua arte conseguiu materializar um manifesto, atrav\u00e9s da m\u00fasica \u201cLevanta Mina\u201d, de 2021, sobre essa situa\u00e7\u00e3o, e em um trecho da can\u00e7\u00e3o ela alerta:<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>\u201c\u00c9 dif\u00edcil estar feliz<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>Com tanta cicatriz<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>\u00c9 dif\u00edcil se amar sendo exclu\u00edda<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>Olhar pra TV<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>E ainda ver paquitas\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na can\u00e7\u00e3o ela cita n\u00e3o somente negras, mas gays, gordas e demais minorias sociais que s\u00e3o deixadas de lado pela m\u00eddia. Segundo a m\u00fasica, n\u00e3o bastava as cicatrizes do preconceito, onde se encontra o racismo, mas ligar a Tv e ainda ver \u201cpaquitas\u201d. As paquitas durante 1984 a 2002 eram dan\u00e7arinas, grupo musical e assistente de palco da apresentadora Xuxa Meneghel que tinha como caracter\u00edsticas os corpos padronizados e de pessoas brancas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O mesmo vale pela desvaloriza\u00e7\u00e3o de artistas negras, um grande exemplo \u00e9 a falta de visibilidade de atrizes afrodescendentes durante muitos anos e que ficaram com papeis inferiores, como escravas ou como empregadas, como tratou Djamila Ribeiro, que em \u201cQuem tem medo do feminismo negro?\u201d traz a falta de mulheres negras como mocinhas ou vil\u00e3s, a desvaloriza\u00e7\u00e3o de grandes atrizes como Ruth de Souza, e um dos movimentos mais preocupantes da hist\u00f3ria que \u00e9 a negra na m\u00eddia de maneira hipersexualizada, como as Globelezas.<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><em><span style=\"font-size: 10pt\">N\u00e3o somos protagonistas das novelas, n\u00e3o somos mocinhas nem vil\u00e3s, no m\u00e1ximo as empregadas que servem de mera ambie<\/span><span style=\"font-size: 10pt\">nta\u00e7\u00e3o,\u00a0 adere\u00e7o (inclusive pass\u00edvel de abuso) para a hist\u00f3ria do n\u00facleo familiar branco. Basta lembrar o \u00faltimo papel da grande atriz Zez\u00e9 Motta na emissora, como a empregada Sebastiana em Boogie Oogie. Algumas atrizes como Ta\u00eds Ara\u00fajo e Camila Pitanga se destacam, mas n\u00e3o podemos ignorar que \u00e9 por serem jovens e terem a pele mais clara. Mulheres como Ruth de Souza s\u00e3o esquecidas num meio que valoriza grandes nomes como Fernanda Montenegro. Isso n\u00e3o tem nada a ver com talento (tanto a primeira como a segunda t\u00eam versatilidade e t\u00e9cnica de sobra), mas sim com a cor da pele de cada uma e as oportunidades que lhes s\u00e3o dadas. <\/span><span style=\"font-size: 10pt\">Qual ser\u00e1 o destino das atuais atrizes negras brasileiras? Ou das meninas negras que sonham estudar teatro e cinema? H\u00e1 lugar para elas? Se h\u00e1, que lugar \u00e9 esse? <\/span><span style=\"font-size: 10pt\">Talvez o mesmo das atrizes negras mais velhas e Globelezas: o descarte e o esquecimento quando seus corpos n\u00e3o servirem mais. A verdade nua e crua \u00e9 que a Globeleza atualmente s\u00f3 refor\u00e7a um lugar fatalista, engessado, preestabelecido, numa sociedade brasileira racista e machista. Esse lugar fixo precisa ser rompido, come\u00e7ando com o fim desse s\u00edmbolo. (RIBEIRO, 2018, p.141-142)<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por tudo isso, passou da hora de negros e negras ocuparem todos os espa\u00e7os da sociedade e assumirem a sua descend\u00eancia de realeza e n\u00e3o como escravos. \u00d3bvio que n\u00e3o podemos esquecer as atrocidades em que o povo negro viveu no mundo, mas est\u00e1 na hora de termos a pr\u00f3pria voz e garantir a voz para negros e negras no futuro. J\u00e1 basta terem escondido a melanina de personalidades hist\u00f3ricas negras como Cle\u00f3patra. O negro e a negra precisa de espa\u00e7o em setores sociais e a m\u00eddia, e n\u00e3o somente os cemit\u00e9rios, subempregos e a capas de jornais com corpos mortos negros, j\u00e1 que segundo o Atlas da Viol\u00eancia 2020, o homic\u00eddio de negros aumentou 11,5% que antes era 37,8 por 100 mil habitantes. Com voz, lugares ocupados e o fim do papel de escravos os negros podem assumir seus espa\u00e7os e fortificar cada vez mais a sua uni\u00e3o e a consci\u00eancia de classe.<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nRefer\u00eancias<br \/>\nRIBEIRO, Djamila. <strong>Quem tem medo do feminismo negro? <\/strong>Companhia das Letras, S\u00e3o Paulo, 2018.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todo descendente de negros que mora no Brasil alguma vez na vida j\u00e1 disse a seguinte frase: \u201csou descendente de escravos\u201d. 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